Bíblia em Contos

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O Fim dos Reinos Divididos

O sol de Samaria era um disco de bronze fundido no céu, um sol que não aquecia, apenas castigava. A poeira do pátio do palácio subia em espirais preguiçosas, misturando-se ao cheiro de incenso que escapava das janelas altas e ao odor mais terrestre do suor dos cavalos. Azarias, também chamado Uzias, sentia o peso da coroa como se fosse de ferro, não de ouro. Quarenta anos de reinado haviam deixado marcas profundas em seu rosto, mas uma marca mais profunda ainda, invisível e incurável, queimava em sua carne. A lepra, branca como a cal das sepulturas, alastrava-se desde aquele dia de presunção no Templo. Agora, ele habitava uma casa separada, e seu filho Jotão governava o palácio, um rei-fantasma ouvindo os rumores do reino através das paredes de seu isolamento.

Enquanto isso, nas terras altas do norte, a ferida de Israel supurava. Jeroboão, filho de Jeoás, um homem de ombros largos e olhos estreitos, reinava em Samaria com uma mão pesada. Quarenta e um anos no trono, mas os anos não trouxeram estabilidade, apenas uma imitação dela, como um túmulo caiado. Ele fez o que era mau aos olhos do SENHOR, e não se desviou de todos os pecados de Jeroboão, filho de Nebate, que fez Israel pecar – os bezerros de ouro em Dã e Betel eram sombras persistentes, ídolos mudos que bebiam a fé do povo. Nos registros do palácio, escreviam-se suas guerras e conquistas, mas nos pergaminhos que realmente importavam, mantidos pelos poucos profetas que ainda sussurravam à sombra dos carvalhos, sua vida era um longo e único verso de infidelidade.

A morte de Jeroboão não foi um evento de estado, mas um fim sordo. Ele foi recolhido a seus pais, aos reis de Israel que o precederam, e Zacarias, seu filho, assentou-se no trono. Seis meses. Apenais seis luas cheias. O ar em Samaria ficou carregado, o cheiro de conspiração mais forte que o incenso. Salum, filho de Jabes, não era um príncipe distante, mas um homem da corte, com ambições próximas e um punhal mais próximo ainda. Num dia comum, sem presságios no céu, ele desferiu o golpe diante do povo, talvez no próprio pátio onde a poeira dançava. Matou Zacarias e, num ato que gelou o sangue até dos mais endurecidos, extinguiu a dinastia de Jeú, como o SENHOR prometera a Jeú que seus filhos se assentariam no trono até a quarta geração. A promessa findava ali, em uma poça de sangue que secou rápido sob o sol implacável.

Salum, porém, não era feito para a púrpura. Sua força estava na traição, não no governo. Um mês. Mal teve tempo de sentir o peso da coroa que roubara. Menaém, vindo de Tirza com a violência de uma tempestade de areia, esmagou a resistência e marchou sobre Samaria. Salum fugiu, ou tentou; sua história terminou num beco qualquer, seu reinado um breve soluço no registro dos homens. Menaém era diferente. Um comandante militar endurecido nas campanhas contra tribos rebeldes, ele trouxe para a capital a brutalidade dos campos de batalha. Quando a cidade de Tapua se recusou a abrir seus portões, ele não sitiou; ele rasgou. E, num ato de selvageria que ficaria gravado na memória coletiva como uma cicatriz, fendeu ao meio todas as mulheres grávidas. Era um homem que governava pelo terror, um rei cujo cetro era uma espada.

Para sustentar seu poder, precisou de mais do que medo. Precisou de ouro. E olhou para o norte, para a Assíria emergente, um vulção distante cuja fumaça já escurecia o horizonte. Pul, rei da Assíria, avançava com seus exércitos formados como muralhas de ferro. Menaém, pragmático e sem escrúpulos, não pensou em alianças ou resistência. Pensou em tributo. Impostos exorbitantes foram arrancados dos homens ricos de Israel, cinquenta siclos de prata cada um, uma fortuna que deixou fazendas hipotecadas e olhares cheios de ódio mudo. O ouro de Israel, suor e sangue do povo, foi enviado a Pul para que este confirmasse o reino em suas mãos. O trono foi comprado, e o reino, reduzido a um estado vassalo. Menaém reinou dez anos, e seu legado foi um país mais pobre, mais amargo e amarrado às correntes da Assíria.

Pequias, seu filho, herdou um trono sacudido. Dois anos. Apenais duas colheitas. Seus passos eram os de um homem que caminha sobre vidros. O comandante de suas tropas, Peca, filho de Remalias, tinha olhos que mediam a distância até o trono não em passos, mas em golpes. A conspiração foi urdida nos quartéis, não nos salões. Peca, com cinquenta homens valentes de Gileade, irrompeu no palácio. Não foi uma batalha, foi um abate. Peguia foi morto no seu quarto mais íntimo, junto com Argobe e Arié, talvez seus únicos amigos leais. A espada não poupou ninguém. Peca vestiu a coroa ainda manchada, e o ciclo de violência continuou, cada reinado mais curto e mais sangrento que o anterior.

Em Judá, Azarias finalmente descansou de sua longa agonia. Foi sepultado junto a seus pais, na cidade de Davi, e o povo lamentou por ele, lembrando mais os anos de prosperidade do que a sombra final da doença. Jotão, que já governava há anos, assumiu plenamente o trono. Era um homem reto, que procurou andar nos caminhos do SENHOR. Construiu a porta alta do Templo e fortificou cidades, tentando erguer muros não só de pedra, mas de fé. Mas até seus esforços eram como uma plantação em terra salgada; o povo continuava a sacrificar e a queimar incenso nos altos, nos montes, sob todo arvoredo frondoso. A idolatria era um vício enraizado, um hábito do coração.

Enquanto isso, Peca, em Israel, reinava vinte anos. Vinte anos de guerra quase constante. O rei Rezim, da Síria, e Peca uniram-se como cães de caça contra Judá, uma aliança de ferro e fogo que apertou Jerusalém em um cerco terrível. O ar ficou pesado com fumaça e desespero. E foi nesse momento de escuridão que o SENHOR começou a sacudir Israel de uma vez por todas. Tiglate-Pileser, rei da Assíria, a força que Menaém subornara, agora voltava sua atenção total para a terra instável. Invadiu, tomou as regiões de Ijom, Abel-Bete-Maaca, Janoa, Quedes, Hazor, as terras de Gileade e da Galileia, toda a terra de Naftali. Foi uma inundação de aço e crueldade. Levou cativos para a Assíria, famílias inteiras arrancadas de suas vinhas e olivais, arrastadas para um exílio sem retorno. O reino do norte definhava, sangrando suas tribos.

Peca viu seu poder desmoronar como um muro de barro sob a chuva. Oséias, filho de Elá, viu a oportunidade. Outra conspiração, outro assassinato no palácio. Peca caiu, e Oséias, no trigésimo nono ano do reinado de Jotão em Judá, tornou-se o último rei a sentar-se no trono de Samaria. Era o fim que se aproximava a passos largos.

E Jotão, em Jerusalém, após dezesseis anos de reinado solitário tentando conter a maré, também foi recolhido a seus pais. Seu filho Acaz preparava-se para assumir, um homem de caráter diferente, que caminharia por caminhos ainda mais perigosos. O sol se punha sobre Samaria e Jerusalém, lançando sombras longas e distorcidas. A terra respirava o cheiro de poeira, sangue e incenso estranho. Os reinados se sucediam, registrados nos anais, cada um um capítulo de uma história maior de promessa e fracasso, de aliança quebrada e de uma paciência divina que, lentamente, chegava ao seu fim. O que ficava não era o rumor das batalhas ou o brilho fugaz das coroas, mas o silêncio pesado entre o que Deus havia oferecido e o que o coração do homem, teimoso e passageiro, continuava a escolher.

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