Bíblia em Contos

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O Peso Doce da Liberdade

O sol da tarde pesava sobre os telhados de barro de Quiriate-Arba, trazendo consigo a poeira fina do deserto que se infiltrava por toda parte. Na sombra raiada da porta de sua casa, Elimeleque esfregava os dedos numa tira de couro, sentindo a aspereza do material. Sete anos. Sete anos se encerravam com aquela colheita de cevada, e o pensamento lhe ocupava a mente de modo mais insistente que o zumbido das moscas.

Dentro, ouviam-se os sons familiares da casa: o ranger da pedra de moer manejada por sua esposa, Ana, e as risadas abafadas dos dois filhos mais novos. Mas um silêncio diferente pairava sobre a vila. Não era o silêncio do descanso, mas o da ponderação, da conta que se faz na alma antes de se tomar uma decisão que pesa no bolso e na consciência.

A lei era clara, ele a sabia de cor desde menino, recitada pelos lábios ressecados do ancião Efraim: *Ao fim de cada sete anos farás remissão. E este é o modo da remissão: todo credor remitirá o que tiver emprestado ao seu próximo.* As palavras eram simples. A prática, um campo minado de dúvidas e de suor guardado.

Elimeleque respirou fundo, o ar quente queimando-lhe levemente os pulmões. Havia a dívida de Jônatas, o oleiro. Um homem bom, mas de mãos azaradas. Dois invernos atrás, uma enxurrada rara e violenta levara parte do seu barro preparado e arruinara a fornalha. Elimeleque lhe emprestara três medidas de prata, sem juros, como manda a lei, para a reconstrução. Jônatas trabalhara com afinco, mas o mercado fora ruim, os jarros não saíam como antes. A dívida ainda estava lá, um fantasma discreto entre os dois, mencionado apenas por olhares fugidios quando se encontravam junto ao poço.

E havia Maala, a viúva. Seu filho caíra doente no ano quinto, e as ervas e os ungüentos custaram caro. Elimeleque sustentara as despesas. Não era um empréstimo formal, mas uma corrente de ajuda silenciosa, sacos de farinha, um cordeiro aqui e ali. Ela pagava com trabalho, ajudando Ana na tecelagem, com os olhos sempre um pouco umedecidos de gratidão que doía ver.

“O ano da remissão”, sussurrou Elimeleque para si mesmo. As palavras tinham um sabor agridoce. Significava abrir a mão, ver esvair-se por entre os dedos recursos que poderiam garantir o conforto de sua família num futuro de seca imprevisível. Mas também significava obedecer. E mais do que obedecer: significava imitar. Um suspiro divino de alívio soprado sobre a comunidade, uma niveladora de areia movediça que impedia que alguns afundassem para sempre, criando um abismo intransponível entre irmãos.

Na manhã seguinte, antes que o sol se tornasse uma agressão, ele foi até a praça da vila, onde já se via um pequeno ajuntamento. O ar estava carregado de uma tensão palpável. Viu Natã, o mercador de gado, de braços cruzados e rosto fechado. Viu os olhos ansiosos de alguns jovens que haviam tomado crédito para comprar sementes ou ferramentas. O ancião Efraim estava lá, apoiado em seu bordão, seus olhos profundos como poços escavando as almas daqueles homens.

Ninguém falava de leis. Falava-se da colheita, do preço do linho em Hebrom, do filho de Belém que fora para uma das guarnições do rei. Mas o não-dito era mais alto.

Elimeleque aproximou-se de Jônatas, que moldava um pequeno vaso sob uma tenda de lona, suas mãos ágeis, mas trêmulas. Sentou-se num banco baixo, em silêncio, observando o barro girar e se elevar.

“A cevada de Elimeleque está boa este ano”, comentou Jônatas, sem levantar os olhos.
“Está. O Senhor foi generoso.”
Um longo silêncio se instalou, quebrado apenas pelo som úmido do barro.
“Meu forno… agora segura o calor como nunca”, disse o oleiro, numa frase que parecia saída de outro assunto.
“Isso é bom. Jarros bem queimados valem o dobro.”
Elimeleque respirou fundo. A lei dizia para não ser duro de coração, nem fechar a mão. O coração dele apertava, sim, uma pontada mesquinha e humana. Mas havia outra coisa, uma imagem que lhe viera à mente na noite anterior: a de seu próprio avô, falando de tempos de fome no Egito, da angústia de não ter para onde virar o rosto.
“Jônatas”, disse, e sua voz soou mais rouca do que esperava. O oleiro parou, as mãos imóveis sobre o barro. “Aquela prata que te emprestei para o forno. Aquele débito. Está quitado. Acabado. Não me deves mais nada.”

As palavras pairaram no ar quente, pesadas e, de repente, leves. Jônatas não se moveu por um instante. Então, seus ombros, que sempre carregavam uma curvatura invisível, começaram a tremer levemente. Ele não chorou. Apenas baixou a cabeça e assentiu, uma, duas vezes. Quando ergueu os olhos, havia neles um brilho que não era só do sol.
“Elimeleque…”, a voz falhou.
“A lei é a lei”, interrompeu Elimeleque, rápido, como se envergonhado pela emoção alheia. “E é uma lei boa.”
Ao sair dali, sentiu uma estranha leveza. A prata se fora, mas algo se enchera. Não era um sentimento triunfante, era algo mais quieto, como o alívio depois de carregar um cântaro pesado por uma longa estrada e finalmente poder pousá-lo.

O caso de Maala foi diferente. Não havia dívida para perdoar, havia necessidade para sanar. A lei também falava disso: *Não será difícil aos teus olhos, quando o libertares; pois lhe darás liberalmente.* Liberalmente. A palavra ecoou em seu espírito. Naquela tarde, ele e Ana prepararam uma cesta. Não sobras, mas parte do bom: farinha fina, azeite do primeiro prensado, um bom pedaço de queijo de cabra, algumas rompas doces. Levaram até a pequena casa da viúva, à beira do caminho do vale.

Maala abriu a porta, surpresa. Quando viu a cesta, seus olhos se encheram de lágrimas imediatas, e ela cobriu o rosto com as mãos.
“Não, não, senhor… já fizeste demais.”
Ana adiantou-se e pousou a mão no braço magro da mulher. “O sétimo ano é ano de remissão, Maala. Remissão de dívidas, e remissão de aflições. Recebe. É teu direito, e nosso privilégio dar.”
A cena era simples, quase banal. Mas Elimeleque, naquele momento, entendeu o coração da lei. Não era apenas um ajuste econômico. Era um ato de memória. *Lembrar-te-ás de que foste servo na terra do Egito, e de que o Senhor teu Deus te remiu.* Aquele gesto o ligava ao seu avô escravizado, o ligava à dor coletiva de um povo, e o liberava da pior das escravidões: a de um coração fechado e calculista.

O ano seguiu seu curso. A vila respirou diferente. Houve resmúngios, claro. Natã, o mercador, perdera uma soma considerável e não se calava sobre a “injustiça” de quem “se aproveitava da lei”. Mas houve também histórias novas. O filho de Jônatas, aliviado do fardo que via sobre o pai, conseguira um bom negócio com um mercador de Jericó. A viúva Maala, com a saúde recuperada, começara a ensinar o ofício de tecelagem às meninas mais pobres da vila.

Na festa das colheitas, Elimeleque olhava a comunidade reunida. Viu rostos que estavam mais erguidos. Viu conversas que não eram mais sussurradas. A terra, eles sabiam, pertencia a Deus. O fruto da terra, também. E, de algum modo profundo que ele apenas começava a vislumbrar, os irmãos também pertenciam uns aos outros. A remissão não era um fim. Era um respirar fundo, um reset divino, um ato de fé colossal: acreditar que a generosidade, no grande esquema das coisas, era mais segura que a acumulação. Que abrir a mão não era empobrecer, mas participar de um ciclo santo.

O vento noturno trouxe um frescor, carregando o cheiro da terra molhada e do fogo das fogueiras. Elimeleque pegou na mão de Ana, áspera e familiar. A lei era pesada? Era. Mas também era doce. E, naquela noite, sob as mesmas estrelas que haviam visto seus antepassados no deserto, essa doçura tinha o gosto muito concreto de liberdade compartilhada.

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