Bíblia em Contos

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A Sabedoria e os Cacos da Realidade

O sol de meado do dia caía sobre Jerusalém com um peso úmido e antigo. No pátio de pedras claras da casa de Natã, um escriba meticuloso, a sombra da figueira era mais teoria do que refúgio. O ar parado cheirava a poeira aquecida, a verbena esmagada e à tensão silenciosa que precede a tempestade. Natã observava, de onde estava sentado em um banco baixo, o desenrolar de uma pequena tragédia.

Dois servos, Sobá e Jafé, encarregados de preparar a refeição do meio-dia, haviam se empenhado numa tarefa simples: abrir uma ânfora nova de azeite. Sobá, o mais velho, homem de gestos ponderados, sugerira usar a alavanca de ferro que estava encostada na parede. Jafé, jovem e cheio de uma confiança que beirava a petulância, achara desnecessário. “Para que ferramentas se tenho força?”, dissera, com um sorriso de escárnio. Agarrou a tampa de madeira embutida com as mãos nuas e torceu. O suor escorria por seus braços. Ele puxava, rangia os dentes, os músculos tensos como cordas de arco. Natã viu o instante exato: um movimento brusco, um desequilíbrio, e a ânfora, em vez de se abrir, inclinou-se e caiu. O barro se estilhaçou contra a pedra com um baque morno, e o precioso azeite, dourado e espesso, escoou-se como sangue de uma ferida, impregnando a terra e as rachaduras do piso. O cheiro doce e pesado encheu o ar. Silêncio. O trabalho de horas, o valor de dias, perdido num ato de tolice teimosa.

“Mosca morta estraga o perfume do perfumista”, pensou Natã, recordando as palavras do Pregador. Um único gesto insensato, um momento de arrogância, e o frasco inteiro de unguento se perde. A sabedoria, ele refletiu enquanto observava Jafé paralisado, a face rubra de vergonha e raiva, é muitas vezes uma questão de ferramentas adequadas, de paciência, de reconhecer os limites da própria força. A tolice não precisa ser estridente; às vezes ela se veste de bravata e se revela no som de um vaso se partindo.

Mais tarde, na mesma tarde, ele foi chamado à corte menor para testemunhar um julgamento. Um nobre da casa de Efraim acusava um camponês de Judá de ter deixado suas ovelhas invadirem uma vinha. O nobre, chamado Azur, falava alto, gesticulava, suas vestes finas balançavam com a fúria de seu discurso. Seus argumentos, porém, eram confusos, cheios de generalidades e de acusações à linhagem do homem, não aos seus atos. Ele chamava o juiz, um homem idoso e de olhos cansados, de “meu caro”, interrompia-o. Sua boca, pensou Natã, era como a porta desgovernada de um celeiro, batendo sem controle, deixando sair todo o vento e a poeira que havia dentro. O camponês, em contraste, falava pouco. Quando o fez, foi para mostrar, com calma, o acordo de limites escrito em papiro, assinado por testemunhas. A mão direita do nobre, que deveria trazer autoridade, apenas agitava o ar. A mão esquerda do camponês, quieta ao lado do corpo, parecia conter mais verdade.

Ao sair, Natã cruzou com um cortejo. Um homem muito jovem, filho de um conselheiro real, passava em sua liteira, puxada por servos ofegantes. Ele ostentava um colar pesado e vestes bordadas a fio de ouro, mas seu rosto era afetado, pálido, e seus olhos saltavam de um lado para o outro, como os de um pássaro preso. À sua frente, a pé, com um manto simples mas de linho impecável, caminhava Eliab, um dos sábios veteranos da cidade. Seus passos eram firmes, sua postura, tranquila. O príncipe na liteira parecia um menino num trono elevado; o sábio a pé tinha a solidez das montanhas ao redor da cidade. “Vi servos a cavalo”, murmurou Natã para si, “e príncipes caminhando como servos sobre a terra.” A ordem estava invertida. A liteira subia a rua íngreme; o verdadeiro peso da dignidade, porém, seguia a pé, em silêncio.

O dia declinava quando Natã decidiu subir ao muro norte para apanhar um pouco de brisa. No caminho, passou por um canteiro de obras. Um novo aqueduto estava sendo planejado para trazer água de uma nascente distante. Os engenheiros, sábios e experimentados, haviam traçado a rota mais reta e eficiente, através de um vale plano. No entanto, o capataz das obras, um homem influente por suas conexões na corte mas pouco dado a estudar o terreno, insistira em um desvio. “A rota direta passa perto do cemitério dos gentios”, argumentara, com um ar de nojo supersticioso. “Não queremos água contaminada pela sombra deles.” E assim, centenas de trabalhadores agora suavam para escavar um canal através de uma colina de pedra, um trabalho de meses, arruinando orçamentos e esgotando homens, tudo por um capricho ignorante. “Aquele que abre uma cova, nela cairá”, disse o Pregador. E aquele que remove pedras, pensou Natã ao ver um homem esfalfado, com as mãos sangrando, tentando deslocar uma rocha teimosa, será ferido por elas. A tolice, quando investida de autoridade, não fere apenas o tolo; ela exige seu tributo em sangue e suor alheios.

A noite finalmente caiu, trazendo um alívio frio. Sentado em seu aposento, à luz fumegante de uma lamparina, Natã escrevia. Sua pena arranhava o papiro com a caligrafia firme de quem entende o peso das palavras. “A sabedoria do pobre é desprezada, e suas palavras não são ouvidas”, anotou, lembrando-se do camponês no tribunal. “As palavras da boca do sábio são cheias de graça, mas os lábios do tolo o devoram.” Recordou a fúria impotente de Azur, que com suas próprias palavras cavara a cova de seu descrédito.

Ele levantou os olhos para a janela aberta. Lá fora, na escuridão, um som começou: o rangido lento e perigoso de uma viga podre. Era a velha marquise da casa do vizinho, negligenciada há anos. O proprietário, sempre a postergar os reparos, dizia que “aguentava mais um inverno”. Natã ouviu um estalo seco, depois um silêncio mais profundo que todo o barulho, seguido pelo estrondo súbito e pelo baque da madeira caindo no pátio. Não houve grito. Apenas o ruído da consequência. A negligência, a preguiça, o adiar do necessário… eram como madeiras consumidas pelas traças. Silenciosas, invisíveis, até que tudo desaba.

Ao final, Natã apagou a lamparina e ficou na penumbra. O dia lhe mostrara um tratado vivo, escrito não em pergaminho, mas em atos e resultados. A sabedoria, concluiu, não é um conjunto de regras brilhantes, mas uma disposição prática do coração. É a alavanca certa na hora certa, é a língua contida, é o respeito ao trabalho bem feito, é ouvir o conselho de quem conhece o terreno. A tolice, por sua vez, é uma força da natureza, tão real quanto a gravidade que derrubou a ânfora. Ela não precisa ser malvada; basta ser leviana, impaciente, orgulhosa. E seu salário, ele pensou ao adormecer ao som distante do marido da casa ao lado gritando por escravos para limpar os destroços, seu salário é sempre pago. Com moeda de vergonha, de perda, e muitas vezes, com os cacos afiados da própria realidade despedaçada.

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