Bíblia em Contos

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Cântico e Advertência no Deserto

O sol começava a se esconder atrás das colinas de pedra áspera, tingindo o deserto com tons de mel e ferrugem. O calor do dia, intenso e opressivo, dissipava-se num sopro de vento fresco que vinha do leste, trazendo consigo o cheiro seco da terra e uma promessa implícita de orvalho. À sombra de uma grande rocha, que parecia ter sido colocada ali pela mão de algum gigante ancestral, um grupo de pessoas se reunia. Eram rostos marcados pelo sol e pela caminhada, roupas empoeiradas, pés calejados nas sandálias. No centro, um homem mais velho, de barba grisalha e olhos que pareciam guardar a profundidade de um poço no desermo, aquietava o grupo com um simples levantar de mão.

Não havia templo ali. Nenhum altar de pedra lavrada, nenhum incenso caro. Apenas a imensidão aberta do céu, a terra sob seus pés e o eco distante de um córrego escondido. O velho, chamado Eliab, respirou fundo, e seu peito levantou-se e abaixou-se numa cadência lenta. Ele não começou com uma pregação. Começou com um suspiro que se transformou em som, um som grave e áspero que emergia não só da garganta, mas de algum lugar dentro do peito, do ventre, da memória dos ossos.

“Venham,” sua voz roçou o ar, suave e ao mesmo tempo firme. “Vamos cantar de alegria ao SENHOR.” As palavras não pareciam recitadas; brotavam como água da rocha. “Aclamemos a Rocha que nos salva.”

Alguém à sua direita, uma mulher com um bebê adormecido no colo, começou a bater palmas num ritmo lento e profundo. *Ba-dum. Ba-dum.* Era o ritmo de corações cansados mas gratos. Outro homem, mais jovem, pegou uma flauta simples de caniço e soprou uma nota longa e trêmula, que se entrelaçou com o bater das palmas. Eliab fechou os olhos.

“Venham à presença dele com ações de graças…” Ele continuou, e agora sua voz se elevou um pouco, ganhando uma cor de alegria contida. “E o celebremos com salmos.”

E então, não como um coro treinado, mas como o murmúrio crescente de um riacho após a chuva, o grupo se juntou. Não era um canto perfeito. Uns desafinavam, outros atrasavam a letra, outros simplesmente sussurravam. Mas era genuíno. Era o som de gente que lembrava da fornalha do Egito, do cheiro do barro e da palha, e que agora, contra toda lógica, respirava ar livre. Cantavam à Rocha. Não à rocha de granito que lhes dava sombra, mas Àquela que os seguira, uma coluna de nuvem de dia, de fogo à noite. A Rocha que, quando golpeada pela fé (e pela incredulidade) de Moisés, jorrou água no lugar mais seco.

O canto cresceu, encheu o vale pequeno. Até os jabutis pararam sob os arbustos espinhosos, como se escutassem. Eliab deixou o canto fluir, até que naturalmente se extinguiu, morrendo num último sussurro coletivo. O silêncio que se seguiu não era vazio. Era denso, carregado da presença que haviam invocado.

Abreu os olhos, e seus olhos agora estavam úmidos. Mas a doçura do momento se endureceu em seu rosto, numa mudança tão natural quanto o dia dando lugar à noite.

“Mas não endureçam o coração,” disse, e a voz dele já não era convite, era alerta. Era a voz de um avô que viu perigos que os netos nem sonham. “Como em Meribá, como naquele dia em Massá, no deserto.”

Os mais velhos baixaram a cabeça. Lembravam. O ar ficou mais pesado. O jovem da flauta abaixou o instrumento.

Eliab não descreveu o evento com linguagem rebuscada. Falou com a crueza de quem esteve lá. “Foi quando a água acabou. A garganta era como lã, a língua gruda no céu da boca. As crianças choramingavam, fracas. E em vez de clamar, em vez de se lembrarem do mar abrindo e do pão caindo do céu, vocês se viraram uns contra os outros. Murmuravam. ‘Deus nos trouxe aqui para nos matar de sede? Era melhor ter morrido no Egito.’ O medo transformou-se em acusação. Testaram o SENHOR. Puseram o Deus da aliança no banco dos réus, como se Ele fosse um deus mesquinho que precisasse ser desafiado para provar seu valor.”

Ele fez uma pausa, olhando para os rostos mais jovens, que ouviam a história pela centésima vez, mas que nesta noite, sob aquele céu, parecia nova.

“E Ele veio. Na sua ira, jurou: ‘Jamais entrarão no meu descanso’.” As palavras caíram como pedras. “O descanso não era apenas uma terra com riachos e videiras. Era o repouso da confiança. A cessação da luta interior, da desconfiança. E uma geração inteira… uma geração inteira perdeu-se no deserto por causa da dureza interior. O coração se tornou como o solo calcário deste lugar: impenetrável à água. Viram milagres e os chamaram de acaso. Sentiam fome e esqueceram-se da provisão. Tiveram sede e duvidaram do provedor.”

O vento frio da noite começou a circular, e alguém jogou mais lenha numa fogueira pequena. As chamas crepitaram, iluminando os rostos sérios.

“Entendam,” disse Eliab, sua voz baixa agora, quase íntima. “O convite permanece. ‘Venham.’ Sempre ‘venham’. Ele é o grande Rei acima de todos os deuses. As profundezas da terra estão em suas mãos. Os cumes das montanhas lhe pertencem. O mar é dele, pois foi ele quem o fez. As terras secas, sim, até este deserto, foram moldadas por suas mãos.”

Ele estendeu as mãos, grosseiras e nodosas, para o alto, abarcando o céu agora pontilhado das primeiras estrelas. “Ele não mudou. A Rocha não se move. Nós é que tropeçamos. Nós é que, em nossos medos pequenos, endurecemos o que deveria ser brando. Fechamos o que deveria estar aberto. Escutem hoje. Agora. Não fechem os ouvidos ao convite que é também um aviso.”

A fogueira estalou. Um bebê chorou brevemente e foi acalmado. O deserto à volta era silêncio puro, um vasto auditório de escuridão e pedra.

“O descanso ainda está disponível,” concluiu Eliab, e a fadiga de anos de jornada pesou em seus ombros. “Mas exige um coração brando. Um coração que canta antes de entender. Que confia antes de ver a água jorrar. Que se prostra antes de conquistar. Não repitam o erro dos vossos pais. Não troquem a herança por um momento de murmúrio.”

Ninguém disse “amém”. Não era necessário. O silêncio que se seguiu era de absorção, de terra seca bebendo uma chuva fina. Um a um, se levantaram, retirando-se para suas tendas, carregando o peso doce do canto e o peso solene do aviso. O céu noturno, imenso e pontilhado de incontáveis estrelas, parecia ecoar, em seu silêncio cósmico, a mesma verdade dupla do salmo: um convite jubiloso e uma advertência gravada na própria história da poeira que pisavam. E no ar, permanecia o eco de uma melodia simples, um canto para a Rocha, no vasto e antigo deserto do coração humano.

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