O sol da tarde era um disco de bronze fundido, pregado num céu de linho desbotado. Jó sentia o peso daquela luz sobre os ombros, um manto quente e opressivo que parecia esmagar ainda mais o monturo de cinzas onde se assentava. O cheiro do dia escapulia lentamente, misturando o pó da terra ressequida com o odor tênue das ervas amargas que teimavam em brotar entre as pedras. Ele fitava o horizonte, onde o ar tremulava como água sobre pedras quentes, e sua mente, cansada e ferida, não encontrava repouso.
As palavras dos amigos haviam secado, deixando para trás um sabor de cinza na boca, tão real quanto a que lhe cobria a pele. Elifaz, Bildade, Zofar… falavam de um Deus que ele pensava conhecer. Um Deus de balanças justas, de causa e efeito, de colheita conforme a semeadura. Mas havia um abismo entre aquela teologia arrumada e a realidade crua que lhe arrancara filhos, rebanhos, saúde e honra. Seus dedos, ainda sensíveis apesar das feridas, traçaram círculos vagos na cinza fina. E então, como se a visão da vastidão inalterada do deserto lhe arrancasse um lamento mais profundo, as palavras de Jó começaram a brotar, não como um discurso, mas como a torrente irregular de um pensamento tomando forma.
“Como pode um homem ser justo diante de Deus?” Sua voz soou rouca, quase um sussurro para si mesmo. Era uma pergunta que não esperava resposta dos amigos. Era um debate solitário com o céu vazio. “Se alguém quisesse contender com ele, de mil questões não poderia responder a uma só.”
Ele viu na mente a imagem de um tribunal. Ele, Jó, levantando-se para apresentar sua defesa. E Deus, não como juiz distante, mas como a própria essência da justiça, da força, da sabedoria. A cena desmoronava antes mesmo de se formar. Quem chamaria o Onipotente a julgamento? Quem marcaria audiência com Aquele que move os alicerces das montanhas e elas estremecem, sem que ninguém sequer perceba?
“Ele remove os montes, e eles não o sabem; quando na sua ira os transtorna.” Jó olhou para as serras ao longe, imóveis, eternas em sua aparente solidez. Na mente dele, porém, elas dançavam. Deus as empurrava como se fossem seixos soltos no leito de um rio, e a terra, sua crosta frágil, virava-se como barro sob o selo do oleiro. Era uma força sem rosto, sem explicação, magnífica e aterradora.
Seus olhos, ardendo, subiram para o céu. “Ele só, estende os céus, e pisa sobre as alturas do mar.” Lembrou-se das noites no deserto, antes da ruína, quando a abóbada estrelada parecia um véu próximo o suficiente para tocar. Agora, aquele esplendor falava de uma distância infinita. Deus caminhava sobre a abóbada celeste como um homem sobre a terra firme, e os mares, que Jó nunca vira mas ouvira falar em contos de caravanas, eram apenas um tapete sob seus pés.
“Fez a Ursa, o Órion, e as Plêiades, e as recâmaras do sul.” Os nomes das constelações rolavam em sua língua com uma familiaridade antiga. Eram os mesmos pontos de luz que guiavam os pastores nas travessias noturnas. Só que agora ele não via guia, apenas a obra de um Artífice tão grandioso que suas criações silenciosas anulavam qualquer clamor humano. O que era o seu sofrimento, por maior que fosse, diante daquele que tecia as luzes na escuridão do abismo?
Um calafrio percorreu seu corpo, apesar do calor. “Eis que ele passa por mim, e não o vejo; sim, vai passando, mas não o percebo.” Era a pior das agonias. A sensação não era de abandono, mas de uma proximidade inapreensível. Como um vento fortíssimo que arranca tudo, mas que não se pode ver nem deter. Deus agia, mas sua passagem era um mistério; seu toque, uma catástrofe ou uma bênção impenetrável.
“Se ele apressa, quem o fará voltar? Quem lhe dirá: Que fazes?” A revolta tentou erguer a cabeça, um frêmito de injustiça. Mas morria na garganta, convertendo-se em pura perplexidade. Se Deus decidisse esmagá-lo agora, naquele instante, quem gritaria “Pare!”? Os amigos, com seus discursos bem-intencionados? As leis dos homens? A própria consciência de Jó, que se sabia íntegro? Tudo não passaria de palha diante do furacão de sua vontade.
Jó baixou a cabeça. A força necessária para erguer um argumento já lhe faltava. “Como, pois, responderei a ele, ou escolherei as minhas palavras para contender com ele?” Era inútil. Mesmo se estivesse certo, mesmo se tivesse uma defesa tão clara como a luz do meio-dia, não teria fôlego para apresentá-la. “Ainda que eu fosse justo, a minha própria boca me condenaria; ainda que eu fosse perfeito, ela me declararia perverso.”
E ali, no cerne da sua angústia, vinha a confissão mais amarga. Não era sobre pecados específicos. Era sobre a natureza da criatura diante do Criador. “Eu sou inocente; não estimo a mim mesmo; à minha vida desprezo.” A inocência não era escudo. A integridade não era moeda de troca. Diante d’Aquele cujo esplendor aterrorizava até a lua e as estrelas, a própria vida de Jó, com sua dor aguda e sua memória dilacerada, parecia uma coisa sem valor, um sopro que ele mesmo já não sabia por que sustentar.
“Tudo é um; por isso digo: ao perfeito e ao ímpio ele os consome.” A visão de Jó se turvava. O Deus que seus amigos pintavam, o Deus das recompensas e castigos calculados, desvanecia-se. Em seu lugar, havia uma realidade mais sombria e, de algum modo, mais vasta. A tempestade, o terremoto, a praga… não eram instrumentos de um juiz meticuloso, mas expressões de um poder tão absoluto que, para ele, a distinção entre o justo Jó e um bandido qualquer poderia ser irrelevante. Ambos eram criaturas. E o criador, se quisesse, poderia reduzir ambos a pó com um só gesto.
“Se a chça o mata, ele se ri da prova dos inocentes.” A frase saiu carregada de uma ironia dilacerante. Era o mundo visto do abismo. O injusto prospera, a terra é entregue nas mãos dos perversos. Se tudo isso fosse obra de um Deus cego ou indiferente? Não, Jó não podia aceitar isso. A fé teimava, ferida, mas viva. Então, sobrava apenas uma conclusão aterradora: era o próprio Deus quem, por razões insondáveis, permitia, ou até dirigia, esse aparente caos moral. E se Ele riasse da desgraça do inocente? A ideia era um veneno, mas era uma possibilidade que a dor extrema lhe colocava diante dos olhos.
Um longo silêncio se seguiu. O sol começava a se esconder, tingindo as cinzas de um laranja enfermo. Jó sentiu o cansaço em cada osso. O debate interior não chegara a lugar nenhum, apenas a um beco sem saída de admiração e terror.
“A minha alma escolheria antes ser estrangulada, e a morte do que os meus ossos.” A vida havia se tornado uma sentença. Mas mesmo a morte não era fuga. “Desespero; não viverei para sempre. Deixa-me, pois, porque os meus dias são vaidade.”
E então, num último suspiro de lucidez antes que a noite cobrisse completamente seu espírito, Jó articulou o desejo mais profundo e contraditório de seu coração. Não era por justiça, não era por resposta. Era por… intervalo. Por um momento de trégua na presença esmagadora.
“Quem me dera que houvesse um árbitro entre nós, que pusesse a mão sobre nós ambos.” A imagem era de uma ternura impossível. Um mediador. Alguém que, com uma mão tocasse o ombro de Deus, e com a outra, o ombro de Jó. Alguém que pudesse traduzir o tremor da criatura para a linguagem do Criador, e a vontade do Criador para o coração dilacerado da criatura. Alguém que afastasse, por um instante, a vara do terror de Deus, para que o puro temor – a reverência, não o pânico – pudesse nascer.
“Para que da sua mão me removesse o seu terror, e o seu espanto não me perturbasse.” Esse era o cerne. Não a eliminação do sofrimento, mas a remoção do terror. Conseguir olhar para Deus sem desfalecer. Conseguir falar, não como um réu acuado, mas como… um homem. Um homem diante de seu Deus.
“Então falaria, e não o temeria; mas assim como está, não sou eu mesmo para comigo.” A frase final caiu como uma lápide. Na ausência daquele árbitro sonhado, Jó estava divorciado de si mesmo. A dor, a dúvida, a sensação de abandono, haviam criado um estranho em sua própria pele. Ele não era “ele mesmo”. Era um estrangeiro na própria existência.
A noite chegou de fato, fria e estrelada. Jó permaneceu imóvel. As palavras haviam saído, ecoado no vazio do deserto e no vazio maior de seu peito. Não trouxeram alívio, apenas as deixaram registradas no ar seco, como um testemunho mudo. O Deus das constelações, das montanhas movediças e dos ventos imperscrutáveis permanecia em silêncio. E Jó, na sua cinza, aguardava. Não por respostas. Apenas pela próxima rajada do mistério.




