O sol da tarde pintava de ouro velho as paredes de barro de Samaria. Um vento quente, carregado do cheiro de poeira e alecrim, agitava as franjas do manto de Eliseu. O profeta sentia o cansaço nos ossos, aquele peso doadora que vinha não da distância percorrida, mas do peso das almas. Seu discípulo Geazi caminhava ao lado, em silêncio, observando o mestre. A cidade fervilhava com os últimos afazeres do dia, o ruído das vendas, o balir de ovelhas, mas Eliseu parecia envolto em seu próprio véu de quietude.
Foi então que o clamor cortou o ar, áspero e desesperado. Uma mulher se lançou em seu caminho, seus trajes simples e gastos denunciando sua condição. O rosto estava marcado não pela idade, mas pela angústia. Agarrou-se às bordas do manto do profeta com uma força que surpreendeu.
“Servo do Deus Altíssimo”, sua voz era um fio rouco, “tem piedade de uma serva! Meu marido, ele temia ao Senhor. Era um dos teus, um dos filhos dos profetas. E agora partiu, deixando-me só com dois filhos. E o credor… o credor veio.” Ela fechou os olhos, e uma lágrima teimosa sulcou a poeira de seu rosto. “Ele não quer mais paciência. Ele vem para levar meus filhos como escravos, para pagar a dívida. Levará a luz dos meus olhos, servo de Deus.”
Eliseu parou. Seus olhos, que muitas vezes pareciam ver além das montanhas, fixaram-se nela com uma ternura grave. “Como posso ajudá-la?”, perguntou, sua voz um baixo calmante. “Diga-me, o que você tem em casa?”
A mulher esboçou um sorriso amargo, quase um espasmo de dor. “Tua serva não tem nada em casa, senão uma botija de azeite.” A palavra ‘nada’ ecoou, vazia como a tal botija deveria estar.
Mas Eliseu não viu o ‘nada’. Ele viu a semente do milagre. “Vá”, ordenou, com uma súbita centelha de autoridade que fez Geazi estremecer. “Peça emprestadas vasilhas a todos os seus vizinhos. Não apenas algumas, mas muitas. Vá a toda a sua vizinhança e traga vasilhas vazias, quantas puder. Depois, entre em sua casa com seus filhos, feche a porta e comece a derramar o azeite da sua botija em todas aquelas vasilhas. Coloque de lado as que estiverem cheias.”
A mulher olhou para ele. Não havia lógica naquela ordem, apenas um absurdo total. Mas havia algo no olhar do profeta, uma certeza quieta, que transformou a fé trêmula em obediência imediata. Ela correu. E os vizinhos, movidos por compaixão ou curiosidade, lhe entregaram tudo o que tinha de vasilhas: potes de barro, talhas rachadas, tigelas de madeira, uma coleção bizarra de recipientes que se amontoaram na pequena sala de sua casa escassa.
O barulho do mundo ficou do lado de fora quando a porta de madeira rangente se fechou. Apenas o som ofegante de seus filhos, os olhos arregalados fixos nela, e a botija comum em suas mãos. A mais velha trouxe a primeira vasilha, uma ânfora velha. Com as mãos tremendo, a viúva inclinou a botija. Um fio dourado e espesso de azeite começou a fluir, cheirando a oliveira e a milagre. A vasilha encheu. “Outra!”, ela sussurrou, e o menino trouxe uma tigela. O azeite continuou a fluir. Uma talha. Um pote. Um cântaro. O fluir dourado não cessava. O ar dentro da casa ficou pesado com o perfume rico, e um riso começou a brotar no peito da mulher, um riso de puro espanto. Os filhos, agora compreendendo, corriam de um lado para o outro, trazendo mais e mais vasilhas, seus rostos iluminados por uma alegria incrédula.
Até que o mais novo disse, ofegante: “Mãe, não há mais nenhuma.” Ela olhou ao redor. Cada recipiente, cada fresta, cada possível receptáculo estava cheio até a borda com azeite reluzente. E então, e só então, o fluxo da pequena botija cessou. O milagre tinha a medida exata da fé obediente e dos vasos preparados.
“Venda o azeite”, disse Eliseu quando ela voltou a ele, sua face agora radiante, banhada em lágrimas de gratidão. “Pague a dívida. E você e seus filhos vivam do que restar.” A provisão não era apenas para o resgate, era para um futuro.
O profeta seguiu seu caminho, e aquela história poderia ter sido apenas um episódio. Mas havia outra mulher em Suném, uma mulher de posição, cuja riqueza não a impedia de possuir um olhar espiritual aguçado. Ela notou que aquele homem de Deus que por vezes passava por sua aldeia não era um homem comum. Percebia a sombra do Eterno sobre seus ombros. Então, com seu marido, um homem bom mas prático, ela propôs: “Vamos construir um quartinho no terraço para ele. Poremos lá uma cama, uma mesa, uma cadeira e um candeeiro. Assim, quando ele vier a nós, poderá repousar.”
Era um ato de discrição e reverência. Eliseu aceitou a hospitalidade, e naquele pequeno aposento alto, com a brisa entrando pela janela, ele encontrava um refúgio. Um dia, tocado pelaquele cuidado silencioso, quis retribuir. Chamou Geazi e disse: “Diga-lhe: tu tens nos tratado com todo este cuidado; que se pode fazer por ti? Queres que se fale por ti ao rei, ou ao comandante do exército?”
A resposta da sunamita, quando Geazi a transmitiu, foi serena e profunda: “Eu habito no meio do meu povo.” Não precisava de favores políticos. Sua vida estava enraizada, era completa. Eliseu insistiu, incomodado. “O que se pode fazer por ela?”, perguntou a Geazi. E o discípulo, com a percepção limitada de quem vê a vida pela lógica da carência, respondeu: “Ela não tem filho, e seu marido é idoso.”
Ali estava. A única sombra em sua casa abençoada: o silêncio do berço. Eliseu então a chamou. Ela veio e parou à entrada do quarto, a luz do candeeiro dançando em seus traços nobres. “Por este tempo, daqui a um ano”, disse o profeta, e suas palavras caíam como uma semente no solo mais fértil, “tu abraçarás um filho.”
Ela levou as duas mãos ao rosto, e seus olhos se encheram de um terror súbito, uma dor antiga revirada. “Não, meu senhor, homem de Deus, não iludas a tua serva.” Era o grito de um coração que aprendera a viver com a ausência, temendo a tortura de uma nova esperança. Mas a palavra do Senhor através de Eliseu era real, viva, criadora. E aconteceu como fora dito. A casa silenciosa de Suném encheu-se do choro vigoroso de um menino, e o riso daquela mãe ecoou pelas paredes que um dia abrigaram apenas a quietude da resignação.
Os anos passaram. O menino cresceu forte, a alegria do pai idoso e o coração da mãe. Até aquele dia abrasador na seara, quando o sol era uma bigorna de bronze no céu. O menino correu até o pai, que estava com os ceifeiros. “Minha cabeça! Minha cabeça!”, gritou. A dor era um animal feroz que o derrubou. O pai, em pânico, ordenou a um servo: “Leva-o para sua mãe.” E foi nos braços dela, ao meio-dia, que o menino suspirou uma última vez e ficou imóvel.
O mundo desabou. Mas dentro daquela mulher, uma fé de aço se moveu. Não a fé que aceita passivamente, mas a fé que luta pelo dom de Deus. Ela não soltou um único lamento. Colocou o corpo do filho no leito do homem de Deus, no quartinho do terraço. Fechou a porta. Depois, foi ter com o marido, sua voz estranhamente calma: “Preciso ir até o homem de Deus. Voltarei.” Ele, confuso, questionou a razão naquela hora. Ela apenas respondeu: “Tudo vai bem.”
Tudo estava longe de estar bem. Mas ela disse isso. E partiu apressada, num jumento, sob o sol impiedoso, ordenando ao servo: “Conduz e não reduzas a marcha, a não ser que eu te diga.” Era uma corrida contra a morte, uma corrida de fé. Avistou o profeta de longe, no Monte Carmelo. Eliseu também a viu e disse a Geazi: “Lá vem a sunamita. Corre ao seu encontro e pergunta: vai tudo bem contigo? Com teu marido? Com teu filho?”
Ela não desperdiçou palavras com Geazi. “Tudo bem”, disse, passando direto por ele. Não era o discípulo que ela buscava. Chegou onde Eliseu estava e lançou-se ao chão, agarrando-se a seus pés. Geazi, constrangido, quis afastá-la, mas Eliseu o deteve. “Deixa-a, porque sua alma está em amargura. E o Senhor me ocultou, não me revelou o porquê.”
Então ela soltou a pergunta que queimava sua alma: “Pediria eu um filho a meu senhor? Não te disse eu que não me iludisses?” Eliseu entendeu na hora. A morte havia visitado o lugar da vida. Ele entregou seu cajado a Geazi. “Cinge os teus lombos, toma meu cajado na tua mão e vai. Se encontrares alguém, não o saúdes; se alguém te saudar, não lhe respondas. Põe o meu cajado sobre o rosto do menino.”
Geazi partiu, rápido, o cajado do poder nas mãos… mas as mãos erradas. A sunamita, porém, não se moveu. Fitou Eliseu e fez um juramento: “Pela vida do Senhor, e pela tua vida, não te deixarei.” Era uma teimosia sagrada. Ela não se contentaria com um símbolo, com um intermediário. Ela queria a fonte. Eliseu levantou-se e foi com ela.
No caminho, Geazi voltou ao encontro deles, seu rosto desanimado. “O jovem não despertou.” A palavra do profeta havia falhado? Não. Apenas não fora o instrumento completo. Chegaram à casa. Eliseu subiu sozinho ao quarto e fechou a porta. Lá estava o menino, estendido e frio sobre sua cama. O profeta orou ao Senhor. Depois, deitou-se sobre o menino, sua boca sobre a boca do morto, seus olhos sobre os olhos, suas mãos sobre as mãos. O corpo do profeta, canal da vida divina, aquecia a fria argila. Ele se ergueu, caminhou pelo quarto, orou novamente. E então se deitou mais uma vez sobre o menino.
Então, o pequeno corpo estremeceu. Espirrou sete vezes. Sete, o número da plenitude divina. E abriu os olhos. Eliseu chamou Geazi: “Chama a sunamita.” E quando ela entrou, ele simplesmente disse, com uma suavidade infinita: “Toma teu filho.”
Ela caiu aos pés dele, não mais em angústia, mas em adoração silenciosa. Pegou o filho, agora quente e respirando, e saiu. Não houve discurso grandioso, apenas o ato consumado. A vida, arrancada das garras do nada. A fé, recompensada não com palavras, mas com a substância do milagre.
O dia findava. A lamparina no quartinho do terraço foi acesa novamente, lançando uma luz cálida e trêmula sobre a cama, a mesa, a cadeira. Tudo estava no seu lugar. E em baixo, na sala principal, o som baixo de uma voz materna cantarolando, e o riso abafado de um menino que, por um dia, tinha ido muito longe, mas fora trazido de volta pelo poder que honra a fé obstinada e o azeite da obediência. Eliseu, na estrada mais uma vez, sentiu o peso sagrado em seus ombros, mas agora misturado com uma doce leveza. Deus era o Deus das viúvas, das mães, dos vasos vazios e dos quartos fechados. E a sua misericórdia, como o azeite da botija, nunca, nunca se esgotava.




