Após a morte de Tola, aquele que julgara Israel em silêncio e com integridade por vinte e três anos, um certo vazio se instalou. Não era um vazio de tristeza, mas de esquecimento. As gerações que haviam conhecido a guerra e o clamor nos dias dos juíges anteriores agora descansavam em suas vinhas e olivais, e o nome do SENHOR era invocado mais por hábito do que por paixão do coração.
Nesse vácuo, levantou-se para julgar a Israel um homem chamado Jair, de Gileade. Era um homem de substância, não apenas de espírito, mas de posses. Tinha trinta filhos que cavalgavam em trinta jumentinhos, um símbolo visível de autoridade e riqueza naqueles dias. Eles percorriam as cidades de Gileade, exercendo juízo, mantendo uma frágil ordem. Por vinte e dois anos, Jair preservou a paz. Mas era uma paz superficial, uma administração humana de um reino que deveria ser divino. Quando Jair faleceu e foi sepultado em Camom, o que ficou não foi seu exemplo de fé, mas a sombra de sua prosperidade. O povo olhou para os jumentinhos, para as cidades, para a estabilidade, e começou a achar que aquilo era obra de suas próprias mãos.
E, lentamente, como um rio que abandona seu leito, o coração de Israel se desviou. Não foi uma apostasia repentina e barulhenta, mas um esfriamento, um distrair-se com outras coisas. Serviram aos baalins e a astarotes, deuses cananeus da terra que prometiam fertilidade imediata. Inclinaram-se aos deuses da Síria, aos deuses de Sidom, aos deuses de Moabe, aos deuses dos amonitas e aos deuses dos filisteus. Abandonaram o SENHOR e não o serviram mais. Era uma traição metódica, completa. Em cada colina, um altar estranho; em cada casa, um pequeno ídolo de argila ou pedra; nos corações, uma multidão de senhores que não exigiam aliança, apenas oferendas.
Então a ira do SENHOR se acendeu contra Israel. E Ele os entregou nas mãos dos filisteus e nas mãos dos amonitas. Estes, especialmente, oprimiram os filhos de Israel com crueldade peculiar. Por dezoito anos, amarguraram todos os israelitas que habitavam na outra margem do Jordão, em Gileade, a terra da qual Jair e seus trinta filhos haviam sido senhores. Os amonitas não poupavam. Atravessavam o Jordão para ferir também Judá, Benjamim e a casa de Efraim. Israel se viu em grande aperto.
E, então, no fundo do poço, lembrou-se. A angústia tem uma pedagogia brutal. O povo clamou ao SENHOR, confessando: “Pecamos contra ti, pois deixamos a nosso Deus e servimos aos baalins”.
A resposta que veio, entretanto, não foi de imediato alívio, mas de uma solene e terrível lição. O SENHOR falou aos filhos de Israel, e sua voz, transmitida pelos profetas ou ecoando na consciência coletiva, foi de uma clareza cortante:
“Quando os egípcios, os amorreus, os amonitas, os filisteus, os sidônios, os amalequitas e os maonitas os oprimiram, e vocês clamaram a mim, não os livrei das mãos deles? Mas vocês me abandonaram e serviram a outros deuses. Por isso, não os livrarei mais. Vão e clamem aos deuses que escolheram; que eles os livrem no tempo da sua angústia.”
Era um silêncio ativo, uma ausência que pesava mais que qualquer espada. Israel experimentou o desamparo. A terra gemeu sob a opressão, e não havia escuta nos ídolos de pedra. Os israelitas, então, fizeram algo que revelou um vislumbre de genuíno arrependimento. Não apenas pediram ajuda; desfizeram-se de seus falsos deuses. Expulsaram os deuses estrangeiros do meio de si e serviram ao SENHOR. E a narrativa diz algo crucial: “E a sua alma não pôde mais suportar a aflição de Israel”.
Houve um ponto de ruptura na miséria, um fundo do abismo onde apenas a verdade restava. O pranto subiu não como um grito por conveniência, mas como um lamento de existência partida. E o SENHOR, cuja compaixão é tão real quanto sua justiça, moveu-se.
Enquanto isso, os amonitas se reuniram e acamparam em Gileade. Os israelitas, por sua vez, reuniram-se e acamparam em Mizpá. O povo, os príncipes de Gileade, olharam uns para os outros na expectativa desesperada. A pergunta que fizeram não era sobre estratégia, mas sobre liderança: “Quem é o homem que começará a pelejar contra os amonitas? Ele será por cabeça sobre todos os habitantes de Gileade”.
E aqui a história faz uma pausa, preparando o terreno para o próximo ato — a ascensão de Jefté, o desajustado, o rejeitado, que se tornaria o instrumento paradoxal do resgate. O capítulo termina com a crise instalada: um povo arrependido, um inimigo às portas, e uma pergunta pairando no ar salgado de Gileade. A libertação estava prometida pelo Deus cuja alma não suportava mais a aflição deles, mas o agente humano dessa libertação ainda estava escondido, um homem de história difícil, à espera do chamado que brotaria do desespero e da graça.
O ciclo dos Juízes se repetia, mas cada volta desse ciclo cavava um pouco mais fundo no entendimento humano sobre a fidelidade de Deus e a infidelidade do coração. A misericórdia viria, mas sempre através do filtro áspero do quebrantamento. E assim, sob o céu cinzento de Gileade, entre o cheiro de terra molhada e o som distante das armas amonitas sendo afiadas, Israel esperava. Não mais nos ídolos mudos, mas no Silêncio que ouve.




