A cidade de Jericó respirava um ar pesado, carregado não apenas do calor que subia das pedras do vale, mas de um rumor surdo, persistente, que ecoava nas conversas em voz baixa nos mercados e junto aos poços. Era um rumor feito de relatos truncados, de notícias trazidas por caravanas com os olhos arregalados de medo. Falava-se de um povo nômade que vinha do outro lado do rio, um povo que não marchava sob a bandeira de nenhum faraó conhecido, mas sob a sombra de um Deus invisível e terrível. Falava-se do Mar de Juncos partido ao meio, de reis poderosos esmagados como cascas de ovo secas ao sol, de um deserto que os engoliu por quarenta anos e agora os cuspia, famintos e determinados, às portas da terra.
Na espessa muralha de Jericó, onde as habitações se aglomeravam como ninhos de andorinha na rocha, havia uma casa. Não era uma casa como as outras. Seu telhado de terra batida era plano e acessível por uma escada exterior, e dela subia, principalmente à noite, o cheiro de linho úmido, de lençóis estendidos para secar ao vento noturno, e o aroma mais doce, mais raro, da fumaça de finos incensos. Era a casa de Raabe. Todos na cidade sabiam quem ela era e o que fazia. Sua reputação era uma moeda de duas faces: para alguns, uma mancha de vergonha no flanco da fortaleza; para outros, um refúgio discreto, um lugar onde segredos e informações tinham mais valor que o dinheiro trocado.
Naquela tarde, o sol começava a inclinar-se, alongando as sombras dos montes a oeste, quando dois homens entraram pela porta principal de Jericó. Vinham vestidos como mercadores, com a poeira da estrada nas sandálias, mas seus passos eram rápidos, seus olhos, sob os turbantes, varriam o entorno com uma precisão que não combinava com a preguiça usual dos comerciantes cansados. Alguém os viu. Alguém sempre vê. E o rumor, aquele animalzinho rápido e venenoso, correu até os ouvidos do rei.
“Homens de Israel! Espiões! Estão na cidade!”
A ordem do rei foi expedida sem hesitação: “Vão à casa da mulher, à prostituta. É lá que eles se esconderam. Tragam-nos.”
Os guardas bateram à porta de Raabe com a brutalidade da autoridade pressurosa. Ela já os esperava, a respiração contida, os ouvidos tendo captado o burburinho anormal na rua. Abriu a porta não com medo, mas com uma expressão de surpresa bem ensaiada.
“Os homens que vieram a esta casa”, rosnou o capitão da guarda, sem cerimônia. “Entregue-os. Eles são espiões do inimigo.”
Raabe fez um gesto de assentimento, como quem concorda com a necessidade daquela busca, mas seus olhos não se encontraram com os do capitão. “Sim, é verdade, os homens vieram aqui. Eu não sabia de onde eram. Mas já se foram, pouco antes do portão da cidade ser fechado. Se apressem! Sigam-nos! Talvez ainda os alcancem no caminho que desce para os vaus do Jordão!”
A mentira saiu-lhe dos lábios com uma fluidez que a própria surpreendeu. Suas mãos, escondidas nas pregas do vestido, tremiam levemente, mas sua voz era firme, convincente. Os guardas hesitaram por um instante, avaliando-a. Então, viraram-se e saíram em disparada, o ruído de suas armaduras metálicas ecoando pela rua em declive, na direção do portão oriental.
Quando o último eco se dissipou, Raabe fechou a porta e encostou-se nela, o coração batendo-lhe forte no peito como um pássaro preso. Subiu então, com passos silenciosos, à cobertura da casa, onde havia empilhado feixes de linho para secar – linho fino, de Fenícia, tingido com as cores mais caras.
“Podem sair”, disse ela, sua voz agora um sussurro áspero.
Do emaranhado de caules secos, dois homens emergiram, sujos de pó e palha, os rostos tensos. Eram os espiões. Eles a observaram, desconfiados, ainda não compreendendo plenamente o risco que ela acabara de correr por eles.
“Sei que o Senhor vos deu esta terra”, disse Raabe, e as palavras saíram não como uma declaração teológica estudada, mas como um suspiro de convicção profunda, roubada do fundo de uma alma cansada. “O terror de vocês caiu sobre nós. Todos os habitantes da terra estão derretidos de medo diante de vocês. Porque nós ouvimos o que o Senhor fez com as águas do Mar de Juncos quando vocês saíram do Egito, e o que fizeram a Seom e a Ogue, os dois reis dos amorreus, do lado de lá do Jordão, que vocês destruíram totalmente. Ouvindo isso, nosso coração desfaleceu. Não restou ânimo em ninguém diante de vocês.”
Ela fez uma pausa, engolindo em seco. O vento da tarde soprava suave sobre o telhado, agitando levemente os caules de linho. “Porque o Senhor, o Deus de vocês, é Deus em cima nos céus e embaixo na terra.” A confissão soou estranha em sua boca, uma bada acostumada a palavras de sedução e negócio, não de fé. Mas era genuína. Era o fruto maduro de noites de medo, de rumores que se transformaram em certeza em seu espírito.
“Agora, pois, jurem-me pelo Senhor”, suplicou, e seus olhos brilharam com uma luz de urgência feroz. “Que, como usei de bondade para com vocês, também vocês usarão de bondade para com a casa de meu pai. E me deem um sinal seguro de que pouparão a vida de meu pai, e de minha mãe, e de meus irmãos e irmãs, e de todos os que lhes pertencem, e de que livrarão as nossas vidas da morte.”
Os homens ficaram em silêncio por um momento. Um deles, o de olhar mais penetrante, falou por ambos. “A nossa vida pela de vocês, se não denunciares este nosso acordo. E quando o Senhor nos der a terra, usaremos de bondade e fidelidade para contigo.”
Raabe não esperou mais. A casa estava construída sobre a muralha. De sua janela, era possível descer diretamente para o exterior da cidade, evitando os portões vigiados. Ela pegou uma corda forte, feita de fibras de linho torcidas, a mesma que usava para içar fardos. “Desçam pela janela, para o lado de fora da muralha. Fujam para os montes e escondam-se lá por três dias, até que os perseguidores voltem. Depois, sigam seu caminho.”
Antes que descessem, porém, ela os fez repetir o juramento. E eles disseram: “Ficaremos livres deste teu juramento que nos fizeste jurar, a menos que, quando entrarmos na terra, atares este cordão de fio vermelho à janela pela qual nos fizeste descer. E reunirás em casa, contigo, teu pai, tua mãe, teus irmãos e toda a família de teu pai. Se alguém passar as portas da tua casa para a rua, o seu sangue será sobre a sua cabeça, e nós estaremos inocentes. Mas se alguém tocar em quem estiver contigo dentro da casa, o seu sangue cairá sobre a nossa cabeça.”
Raabe concordou. “Conforme as suas palavras, assim seja.” Então, rapidamente, ela os fez descer. A corda desenrolou-se pela pedra áspera da muralha, e os dois homens desceram como sombras, perdendo-se rapidamente na penumbra que se formava no pé da fortificação, correndo em direção aos montes acidentados a oeste.
Ela recolheu a corda, as mãos trêmulas não mais de medo, mas de uma estranha exaltação. O risco era imenso. Se fossem descobertos, sua morte seria lenta e pública. Mas algo dentro dela, algo que havia germinado nos longos meses de rumores sobre um Deus que abria mares e derrubava gigantes, a impulsionara. Ela vira nos olhos daqueles homens não a arrogância de conquistadores, mas uma centelha do mesmo temor reverente que agora habitava nela. Eles serviam a um Deus que mantinha promessas.
Nos dias seguintes, Raabe viveu numa tensão silenciosa. Os perseguidores voltaram da perseguição infrutífera, o rei de Jericó estava irritado e desconfiado, mas nada ligou os espiões àquela mulher que tão prontamente dera uma pista falsa. Ela cumpria seus afazeres, estendia o linho no telhado, recebia seus clientes, mas seu olhar voltava-se constantemente para um feixe de fios que guardara separado. Fios de escarlate, da cor mais viva que se podia encontrar, a cor do sangue, da vida, do risco.
Quando a notícia finalmente chegou – o acampamento de Israel montado do outro lado do Jordão, o rio que secara milagrosamente para sua passagem –, Raabe não hesitou. Reuniu sua família, pai, mãe, irmãos, todos os seus, e os fez entrar em sua casa. Explicou-lhes pouco; o medo e a autoridade em sua voz foram suficientes. Depois, subiu ao telhado pela última vez antes do destino da cidade se cumprir.
O ar estava parado, pesado com o presságio. No horizonte, do outro lado do leito seco do Jordão, via-se a poeira levantada por um acampamento imenso. Com mãos firmes, Raabe pegou o cordão de fio vermelho escarlate e o atou firmemente à sua janela, à mesma janela que servira de escape para a esperança. O tecido vivo, chocante contra a cor terra da muralha, ondulou levemente no vento que começava a soprar.
Ela olhou para aquele sinal. Não era apenas um pacto com dois homens. Era uma declaração. Enquanto a cidade inteira se apavorava com os gritos de guerra e o soar de trombetas que logo viriam, aquela casa, marcada pelo vermelho da fé arriscada e da misericórdia invocada, ficaria em silêncio. Aguardaria. O Deus que era Senhor nos céus e na terra veria aquele sinal. E ela, Raabe, a mulher da muralha, a partir daquele momento, já não pertencia a Jericó. Pertencia à história que estava para começar.



