A pena raspava no papiro com um som áspero, o único a desafiar o silêncio abafado do quarto. O ar, parado e quente, cheirava a óleo de lamparina e poeira antiga. Meus dedos calejados tremiam ligeiramente, não de medo, mas de um peso solene. O que eu transcrevia não era minha palavra. Era Dele. E as palavras queimavam mais que o pavio fumacento da lamparina ao meu lado.
A mensagem para Éfeso veio primeiro. Escrevi sobre trabalhos, perseverança, intolerância com os perversos. Mas então, a frase que fez meu estômago embrulhar: “*Abandonei o amor que tinha no princípio*”. A pena parou. Olhei para a janela escura, para o vulto das montanhas contra o céu noturno. Lembrei da primeira vez que ouvira o evangelho, daquela paixão desordenada e pura por Aquele que nos amara primeiro. Era disso que Ele falava? Do ritual que sufoca a devoção? O azeite da lamparina borbulhou, lançando uma sombra dançante sobre as palavras duras e verdadeiras.
Para Esmirna, o tom mudou. Não havia condenação, apenas uma verdade nua e fria como a pedra de uma cela. “*Igreja da pobreza*”, escrevi, mas a palavra que seguia era “*riqueza*”. E depois, “*prisão*”, “*tribulação*”, “*morte*”. Uma coroa de vida tecida com fios de sofrimento. Uma paradoxal promessa de vitória na derrota aparente. Minha mão se moveu mais rápido, como se a urgência do consolo para aqueles irmãos perseguidos me impulsionasse. A cidade, lá fora, dormia ignorante. Alguns, não muito longe, dormiam acorrentados.
Pérgamo. Aqui, o ar pareceu ficar mais pesado. “*Trono de Satanás*”. Morava onde a autoridade romana e o culto imperial respiravam em cada coluna, em cada sacrifício público. E ainda assim, eles se agarravam ao Nome. Até o fim, até o sangue de Antipas. Mas havia concessões, compromissos sutis como veneno em mel. A doutrina de Balaão, de Balaque… praticar idolatria e imoralidade disfarçadas de liberdade espiritual. A advertência foi um golpe seco: “*Arrepende-te, pois*”. E a promessa? Algo oculto, um maná que ninguém conhece senão aquele que o recebe. Escrevi com a língua seca, pensando na água pura e fria que me negava naquele momento, preferindo terminar a tarefa.
E Tuatira… Ah, Tuatira. A igreja dos feitos, do amor, da fé, do serviço. Uma igreja que fazia mais hoje do que no começo. E, no entanto, tolerava “*aquela mulher Jezabel*”. A descrição era vívida, perturbadora: uma profetisa enganadora, seduzindo os servos à fornicação e a comer coisas sacrificadas aos ídolos. Um mal ativo, tolerado em nome de uma falsa caridade ou de uma “graça” barata. O juízo anunciado era terrível, uma cama de grande tribulação. Mas para os que não se contaminam, uma promessa simples e poderosa: autoridade sobre as nações, e a estrela da manhã. A lamparina começou a fenecer, e eu a ajustei com mãos apressadas, a sombra da minha mão parecendo um pássaro negro sobre o papiro.
Sardes. Um nome que soava a pó. “*Tens nome de que vives, e estás morto*.” A frase caiu como uma lápide. Fui buscar palavras para descrever a morte espiritual, aquela que veste roupas de vitalidade, que repete fórmulas, que mantém a reputação intacta enquanto o interior apodrece. “*Sê vigilante*”, “*consolida o resto*”. Era um despertar para um cadáver. Poucos, tão poucos, que não contaminaram suas vestes. Andarão de branco. O nome não será riscado. Escrevi com uma ponta de desespero, como se tentasse acordar a mim mesmo.
Filadélfia. E aqui, subitamente, a atmosfera no quarto mudou. A fadiga nos meus ombros pareceu aliviar. “*Eis que tenho posto diante de ti uma porta aberta, que ninguém pode fechar.*” Não era uma repreensão, era um reconhecimento. Pouca força, mas guardaram a palavra, não negaram o nome. A promessa era de pertencimento eterno, de ser coluna no templo de Deus, de ter escrito sobre si o nome novo dEle. Era íntimo, era terno. A sinagoga de Satanás, os que se dizem judeus e não são, seriam humilhados. A Igreja fraca seria a coluna indestrutível. Sorri, pela primeira vez naquela longa noite. A tinta correu mais suave.
Por fim, Laodiceia. E um frio percorreu minha espinha, apesar do calor. Não era o fogo da repreensão, era o gelo do desprezo. “*Morno*.” A palavra mais temível de todas. Nem frio, nem quente. Cômodo. Auto-suficiente. “*Dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta.*” A autossatisfação que cega. A riqueza que é miséria, a nudez que se julga vestida, a cegueira que se vê como lucidez. Aconselhavam comprar ouro refinado no fogo, vestes brancas, colírio para os olhos. Era uma troca paradoxal: dar aquilo que não se tem para receber o verdadeiro tesouro.
E depois, a imagem que me fez conter a respiração. “*Eis que estou à porta e bato.*” Não à porta do templo, nem da cidade. À porta do coração. Da igreja morna, autossuficiente, nauseante. Ele estava do lado de fora. Batendo. E a promessa era para quem ouvisse a voz e abrisse. Entraria, cenaria com ele. Como um amigo íntimo, numa refeição partilhada na intimidade do lar.
A pena caiu da minha mão, rolando sobre o papiro, deixando um risco irregular de tinta. A lamparina agora lutava contra a escuridão, o pavio carbonizado. Fora, o primeiro canto de um galo rasgou a madrugada, um som áspero e verdadeiro.
Eu não era o anjo de nenhuma daquelas igrejas. Era apenas o escriba, suando no quarto abafado. Mas cada palavra era um espelho. Em qual delas eu me enxergava? Na perseverante mas sem amor? Na perseguida? Na comprometida? Na tolerante com o mal? Na morta de nome vivo? Na de pouca força e porta aberta? Ou na morna, autossuficiente, que O deixava do lado de fora da própria casa?
Ergui-me, os ossos rangendo. O ar da madrugada começava a esfriar, entrando furtivo pela janela. As cartas estavam prontas. Sete exortações, sete promessas, sete espelhos para a alma. O sol começaria a nascer em breve, trazendo o calor de outro dia comum. Mas as palavras no papiro falavam de um calor que purifica, de um fogo que consome a mornidão, de uma voz que, se alguém ouvir e abrir a porta, promete nunca mais deixá-lo sozinho no escuro.
Dobrei o papiro com cuidado. A tarefa estava completa. Mas a outra, a verdadeira, a de ouvir e abrir, essa só começava agora, no silêncio desafiador que seguia ao último eco daquela voz.




