O ar no palácio pesava como um manto de lã molhada. Moisés sentiu-o ao descer a ampla escadaria de granito, cada passo ecoando numa solenidade funérea. Não era o calor habitual do entardecer em Mênfis, aquele que trazia o aroma do rio e dos lotos. Era outra coisa, uma densidade no espírito do lugar, como se o próprio ar se recusasse a ser respirado. Suas sandálias bateram no último degrau. Atrás dele, ficavam os salões de incrustações de turquesa e ouro, os murmúrios corteses e venenosos da corte, e os olhos do faraó, ardendo de uma fúria que já não encontrava palavras.
Ele caminhou em direção à parte mais pobre da cidade, onde o pó era mais espesso e o cheiro de cebola, peixe seco e suor humano impregnavam as vielas. Seus olhos, velhos sob a testa marcada por décadas de sol do deserto, percorriam as construções de tijolos de barro. Em cada marca de chicote nas costas de um homem que passava curvado, em cada olhar furtivo de uma mulher com um cântaro na cabeça, ele via a razão daquela densidade no ar. Nove sinais. Nove vezes o Deus de seus pais estendera a mão sobre o Egito. Nove vezes o coração de faraó endurecera, não como uma rocha, mas como um punho cerrado que se torna mais forte sob pressão.
A memória vinha em fragmentos, não como uma narrativa ordenada, mas como os farrapos de um sonho ao despertar. A sarça que ardia e não se consumia. A voz que vinha do fogo, não estridente, mas profunda, funda como o abismo. *“Eu sou o que sou.”* E agora, após as águas tornadas em sangue, as rãs, os piolhos, as moscas, a peste, as úlceras, a chuva de pedra, os gafanhotos, as trevas… Agora, vinha algo que não era mais um sinal. Era uma conclusão.
Ele encontrou Aarão à beira de um canal de irrigação quase seco. O irmão mais velho parecia ter encolhido, não de estatura, mas de alma, espremido entre a esperança do seu povo e o terror tangível da corte. Sentaram-se numa pedra plana, e por um longo tempo não falaram. O silêncio era preenchido pelo zumbido distante de moscas, pela voz cansada de uma criança em algum pátio oculto. Moisés olhou para as mãos, aquelas mãos que seguraram o cajado que se fizera serpente, que se estenderam sobre o Nilo, que apontaram para os céus. Elas tremiam ligeiramente. Não de medo, mas da tensão de um arco prestes a soltar a flecha.
— Ele não cederá — disse Aarão, por fim, a voz um fio de som. — Nem depois das trevas. Três dias de uma escuridão que se podia apalpar, e ele ainda te disse: “Vai-te da minha presença!”
Moisés assentiu lentamente. No crepúsculo, as sombras alongavam-se, tornando os contornos do mundo irreconhecíveis.
— Não se trata mais de ceder, irmão. O Eterno já falou ao seu coração. E o coração dele… está sob um juízo que não é meu. Amanhã, ao cair da noite, algo se passará que não tem igual, nem o terá.
Ele fechou os olhos, e as palavras que o Senhor lhe entregara no recôndito de sua tenda, antes de enfrentar o faraó pela última vez, voltaram-lhe com uma clareza que cortava a alma. Não eram uma ameaça vaga. Era um anúncio. Um golpe final, não contra os deuses de pedra e madeira do Egito, mas contra o próprio princípio que sustentava o trono: a sucessão. O herdeiro. O futuro encarnado no primogênito.
— Desde o filho do faraó, que se assenta no trono… — murmurou Moisés, como que degustando o amargor profético das palavras. — Até ao filho da serva que está detrás da mó… E todo primogênito dos animais.
Aarão engoliu em seco. A imagem era demasiado nítida, terrível em sua precisão. Não uma praga cega, mas uma visitação seletiva, um juízo que distinguiria entre Israel e Egito não por geografia, mas por obediência. Um clamor se levantaria naquela terra, disse o Senhor, como nunca houve e nunca haverá. E depois… depois, eles os lançariam fora. De pressa. Como quem se livra de uma doença mortal.
O dia seguinte amanheceu estranhamente calmo. Uma calma de resignação, como a que precede a tempestade. Moisés passou a manhã instruindo os anciãos de Israel. Suas ordens eram específicas, urgentes. Que cada família tomasse um cordeiro, macho, sem defeito. Que o guardassem até o dia marcado. Que seu sangue fosse um sinal nas ombreiras e na verga da porta. Eles ouviam, rostos sérios, misturando esperança com um temor reverencial. Havia um ritual a ser seguido, uma refeição a ser comida às pressas, cintos cingidos, sandálias nos pés, cajado na mão. Era a Páscoa. Uma passagem. Do juízo para a liberdade.
Ao entardecer, com o sol mergulhando no horizonte em tons de sangue e âmbar, Moisés voltou a se apresentar diante do grande portão do palácio. Desta vez, não havia solicitação. Não havia argumento. Sua postura era de um emissário que já não negocia, mas que anuncia um fato consumado.
Faraó recebeu-o no pátio interno, à sombra de uma colossais estátua de Rá. O monarca parecia ter envelhecido uma década em uma noite. O orgulho ainda estava lá, nos ombros erguidos, no cetro que segurava com força branca. Mas nos olhos, havia um cansaço profundo, o cansaço de quem lutou contra uma correnteza impossível.
Moisés falou. Sua voz não era alta, mas carregava um peso que ecoava nas pedras.
— Assim diz o Senhor: ‘Perto da meia-noite, eu sairei pelo meio do Egito. E morrerá todo primogênito na terra do Egito, desde o primogênito de Faraó, que se assenta sobre o seu trono, até ao primogênito da serva que está detrás da mó, e todo primogênito dos animais. E haverá grande clamor em toda a terra do Egito, como nunca houve nem haverá jamais.’
Ele fez uma pausa, deixando que as palavras, terríveis e simples, encontrassem seu alvo. O ar pareceu gelar.
— Mas contra os filhos de Israel nem ainda um cão moverá a sua língua, para que saibais que o Senhor faz distinção entre os egípcios e os israelitas. E todos estes teus servos descerão a mim, e se inclinarão diante de mim, dizendo: Sai tu, e todo o povo que te segue as pisadas. E depois eu sairei.’
Não houve réplica. Nenhum sopro de vento. Faraó fitou Moisés, e naquele olhar cruzou-se o ódio, a incredulidade, e um lampejo de um terror antigo, primitivo. Moisés, por sua vez, não esperou por uma resposta. A conversa estava finda. Inclinou a cabeça, não em reverência, mas como quem encerra um assunto. E, consumido por uma ira silenciosa que tremia em cada fibra do seu ser, virou-se e saiu da presença de faraó pela última vez.
Ao sair do recinto palaciano, a noite já caíra completamente. Um céu imenso, pontilhado de estrelas frias, cobria o Egito. Moisés olhou para cima, depois para o bairro dos hebreus, onde luzes tremeluziam nas portas das cabanas. Aqui, o silêncio era diferente. Era o silêncio da vigília, da expectativa obediente, da fé vestida de ações concretas — o sangue do cordeiro sobre a madeira. Lá, no palácio e nas casas dos egípcios, o silêncio era o da inconsciência, ou da descrença arrogante.
Ele respirou fundo. O ar ainda era pesado, mas agora carregava um novo significado. Era o peso da história prestes a dobrar-se sob a mão do Invisível. A meia-noite se aproximava. E com ela, o clamor que daria à luz o Êxodo.




