Bíblia em Contos

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Jacó e Raquel no Poço

Era um fim de tarde qualquer, um daqueles dias que se alongavam sob um sol poeirento, quando Jacó avistou ao longe, na planície de Harã, um aglomerado de pedras cinzentas que lhe disseram ser a cidade de Naor. Seus pés, calejados pela fuga de Berseba, arrastavam-se como pedras. A poeira da estrada grudara em seu suor, formando uma crosta salgada na pele. O cheiro do deserto – terra ressecada, arbustos espinhosos – era o único perfume de sua jornada.

Ele parou perto de um poço, um grande poço de pedra cuja abertura escura parecia um olho na face da terra. Sobre ele, uma pesada pedra tapava a boca. Em torno, três rebanhos de ovelhas esperavam, deitadas na terra, com os pastores conversando em vozes cansadas. O ritual era claro: esperavam que todos os rebanhos se reunissem para então, entre vários, rolar a pedra e dar de beber aos animais. Era uma questão de força e de acordo.

Jacó aproximou-se, e sua sombra alongada fez os homens interromperem sua fala. Ele cumprimentou, a voz rouca da viagem:
— De onde sois, irmãos?
— Somos de Harã — responderam, com a desconfiança natural diante de um estrangeiro poeirento.
— Conheceis Labão, filho de Naor? — perguntou Jacó, e o coração lhe batia mais forte. A pergunta era uma semente que ele lançava na terra da promessa.
— Conhecemos — disseram, e um deles acrescentou, apontando com o queixo para o horizonte — Olhai, eis que vem Raquel, sua filha, com as ovelhas de seu pai.

Ele olhou. E o tempo, por um instante, parou de escorrer. Vinda da direção das últimas casas, uma figura vinha caminhando, conduzindo um rebanho que se movia como uma nuvem baixa e despedaçada. O sol baixo dourava a cena. E quando ela chegou mais perto, Jacó viu. Não eram apenas os olhos, embora fossem claros e vivos. Era todo o seu porte, o jeito como conduzia as ovelhas com uma vara leve, a simplicidade do seu vestido empoeirado, a trança escura que escapava do véu. Algo nele se desprendeu do cansaço e se ergueu. Era como se uma das promessas que ele carregava no peito, vaga e celestial, tivesse de repente assumido forma, cheiro, e o som suave dos badalos das ovelhas.

Sem pensar, movido por uma força que vinha das profundezas de seus ossos, Jacó dirigiu-se ao poço. Os pastores observaram, calados. Ele não era um deles, não fazia parte do acordo. Mas ele se inclinou, braços finos de quem fora criado entre tendas, e com um esforço que fez os músculos de suas costas queimarem, rolou a pedra sozinho. O baque surdo ecoou na terra plana. Aquele ato era mais do que cortesia; era uma proclamação silenciosa. Ele, o enganador, o fugitivo, fazia um trabalho pesado por ela. Para ela.

Então, ele mesmo, com os baldes de couro, deu de beber às ovelhas de Labão. A água clara e fria jorrou, e as ovelhas se aglomeraram, bebendo com ansiedade. Ele trabalhava com uma dedicação intensa, quase febril. Só depois, quando a última ovelha saciou a sede, ele se voltou para Raquel.

Aproximou-se, e tomou sua mão. O gesto era incomum, íntimo, mas brotava de uma emoção que não podia ser contida. E chorou. Chorou alto, não como criança, mas como um homem que, depois de dias no deserto da solidão e do medo, encontra um oásis que lembra casa. Chorou pela mãe que ficara para trás, pelo irmão que queria matá-lo, pelo pai enganado, pela estrada longa, e por aquela face que, de algum modo, trazia o consolo de um rosto familiar em terra estranha.

— Eu sou Jacó — disse por fim, a voz embargada —, filho de Rebeca, tua tia. Sou teu parente.

Raquel ficou parada, seus olhos arregalados diante daquele homem emocionado, daquela revelação. Sem dizer palavra, ela virou-se e correu. Seus pés levantaram poeira enquanto se afastava em direção à cidade, para levar a notícia.

E Jacó ficou ali, junto ao poço, sob o olhar agora menos desconfiado dos pastores. O sol mergulhava no horizonte, pintando o céu de púrpura e laranja. Ele sentou-se na pedra que havia rolado. A fadiga voltou, mas agora temperada por um calor estranho no peito. A jornada tinha um novo capítulo. E ele, sem saber ainda, tinha acabado de entrar no campo de Labão, onde o engano que praticara começaria, lentamente, a voltar para ele, como um boomerang silencioso na forma de anos de trabalho, de uma noite escura, e de olhos que não eram claros como os de Raquel. Mas isso era uma história para o amanhecer. Naquele momento, havia apenas o poço, o crepúsculo, e o primeiro gosto, doce e salgado, da terra da sua provação.

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