Bíblia em Contos

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Bíblia

Da Circuncisão à Cruz

A memória mais viva que tenho da minha circuncisão não é a dor, embora tenha doído. É o cheiro. Cheiro de poeira fina misturada ao aroma seco da esteva queimando no altar do pátio, e o odor acre do sangue de cordeiro que escorria pelas fendas da pedra. Eu tinha oito dias, mas é como se meu nariz tivesse guardado aquela primeira identidade: eu era da aliança. Filho de Benjamim, tribo real. Hebreu de hebreus. A linhagem corria nas minhas veias mais que o próprio sangue.

Anos depois, sentado aos pés de Gamaliel, o peso das palavras era outro. O cheiro era de pergaminho envelhecido, de óleo de lamparina e da tinta escura que fixava a Lei na pele do mundo. Torá. Eu a respirava. Minha mente, ávida, mastigava cada *halakhah*, cada nuance da tradição farisaica. Eu não apenas seguia; eu *era* a Lei em movimento. Um zelo que se tornava combustível, tão ardente que queimava qualquer dúvida no altar da certeza. Persegui a seita do Caminho? Sim. E o fazia com a consciência limpa de quem varre o templo de uma impureza. Achava que, na balança divina, meu rigor pesaria mais que qualquer misericórdia fugaz.

Até aquele dia na estrada de Damasco. Não foi apenas a luz. Foi o desmoronamento. Não de pedras, mas de alicerces. Aquele que eu perseguia me nomeou, me viu. E de repente, toda a estrutura impecável—benjamita, fariseu, zeloso—revelou-se como um esqueleto de ossos secos, um invólucro vazio fazendo ruído no vento. A justiça que eu cultivara com tanto afinco mostrou-se trapos. Trapos sujos de orgulho.

O processo não foi instantâneo. Em Damasco, cego, o mundo exterior se apagou para que o interior fosse revolvido. Ali, na escuridão, começou a compreensão mais dolorosa e libertadora: tudo o que eu considerava *ganho*, tudo aquilo que dava valor à minha pessoa diante de Deus e dos homens, era, na verdade, *perda*. Pior: era *lixo*. A palavra em grego é mais forte, mais visceral: *skýbala*. Refugo, detrito, aquilo que se joga fora. Minhas credenciais, minhas conquistas, meu sangue nobre—nada mais que esterco para adubar o orgulho.

A partir dali, a vida se reorientou em torno de um único eixo: conhecê-Lo. Não mais *sobre* Ele, mas *a* Ele. Conhecer o poder da sua ressurreição—essa força que faz os mortos voltarem à vida, que parte pedras, que vence o fim. E, de forma misteriosa e indissociável, conhecer a comunhão dos seus sofrimentos. Isso ninguém me ensinara nos pátios do templo. Aprendi na pele: as chicotadas em Filipos, as noites a fio no cárcere, a fadiga das estradas, a incompreensão dos próprios irmãos. Cada dor, um fio que me costurava um pouco mais à sua imagem. Eu me tornava *conforme* à sua morte. Não por masoquismo, mas por amor. Porque o amor quer compartilhar até as marcas.

Não que eu já tenha alcançado. Longe de mim essa ideia. Às vezes, de madrugada, quando a velha natureza sussurra sobre méritos, eu me seguro a esta verdade: eu não me agarro a uma conquista passada. Eu corro. Esqueço o que fica para trás—e olha que há muita coisa para trás—e me estendo para o que está adiante. A meta. O prêmio da soberana vocação.

Há irmãos, eu sei, que vivem de outra forma. Seus deuses são o ventre, sua glória está no que é vergonhoso, pensam apenas nas coisas terrenas. A mim, minha pátria é outra. Está nos céus. E é de lá que espero, não com ansiedade ociosa, mas com um desejo que aperta o peito, o Salvador. Ele transformará este corpo vil, este corpo que geme com as doenças da idade, que se cansa, que é humilhado. Transformará, conformando-o ao seu corpo glorioso. Pela operação do poder que tudo lhe sujeita.

Então, queridos, firmem-se nisso. Alegrem-se. E não se deixem enganar por outras medidas. A circuncisão que vale não é a da carne no oitavo dia, mas a do coração, operada pelo Espírito. Nós somos da verdadeira circuncisão, nós que servimos a Deus no Espírito e não confiamos em nenhuma marca na carne. Porque a nossa marca está em outro lugar. Está nas mãos dele. E isso, no fim de tudo, é a única credencial que importa.

A poeira da estrada ainda gruda nos pés. O cheiro agora é diferente. É de terra molhada depois da chuva, de horizonte aberto. E eu sigo. Não porque tenha chegado, mas porque fui agarrado por Aquele que é a Meta. E isso basta para fazer de cada passo, mesmo o mais dolorido, um ato de gratidão.

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