O ar dentro do que restava do templo era pesado, não com incenso, mas com o pó de milhares de pedras deslocadas e a poeira seca da desolação. Zorobabel, o governador, estava lá fora, discutindo com os mestres de obras sobre o alinhamento de um novo alicerce, sua voz áspera ecoando entre os escombros. Mas Zacarias, filho de Baraquias, filho de Ido, o profeta, se afastara daquela agitação. Um cansaço profundo, não apenas do corpo, mas da alma, o levou para a sombra de uma antiga arcada carbonizada. Ele orava, mas as palavras não vinham; eram apenas gemidos mudos, um lamento pelo esplendor perdido, pela glória que parecia uma miragem diante da realidade áspera do retorno.
Foi então, no limiar entre a vigília e o êxtase, que os olhos de seu espírito se abriram. O cenário ao seu redor não mudou, mas uma outra camada da realidade, vívida e tremulante, impôs-se sobre aquela ruína.
Ele viu o sumo sacerdote Josué. Não o homem envelhecido e preocupado que conhecia, que vestia trajes remendados e carregava o peso da comunidade nos ombros curvados. Viu-o *diante do Anjo do Senhor*. E que visão era aquela. O Anjo não era uma figura etérea; tinha uma presença que fazia o ar vibrar, uma majestade que era ao mesmo tempo terrível e magnífica, como o relâmpago que precede o trovão. Seus olhos eram como chamas que consumiam toda pretensão. E Josué estava ali, em pé, mas não em triunfo. Estava vestido com vestes de sumo sacerdote, sim, mas que vestes! Estavam imundas, não com a sujeira comum do trabalho, mas com uma contaminação profunda, manchadas de cinza e de algo que parecia piche, grudadas em seu corpo como uma segunda pele de culpa. Era a imagem viva de um povo que voltara do exílio, sim, mas que carregava consigo as sequelas da idolatria, o cheiro nauseante do fracasso e da infidelidade.
E à sua direita, quase se fundindo com as sombras alongadas das colunas quebradas, estava o Acusador. Satanás. Zacarias sentiu um frio percorrer sua espinha. A figura não bradava, não gesticulava. Estava apenas… ali. De pé. Era uma presença passiva, mas sua mera existência naquele espaço sagrado era um argumento devastador. Não precisava dizer uma palavra. As vestes de Josué gritavam por ele. A acusação pairou no ar, pesada e inegável: “Como este homem, representante de um povo pecador, manchado, ousa se apresentar no Santo Lugar? Vejam suas vestes! Ele é indigno. O povo é indigno. Toda essa reconstrução é uma farsa.”
Então, o Anjo do Senhor falou. E sua voz não foi um trovão, mas uma sentença calma e arrasadora, dirigida ao Acusador. “O Senhor te repreenda, ó Satanás! Sim, o Senhor, que escolheu Jerusalém, te repreenda.” Cada palavra era como um golpe de martelo cravando uma estaca. “Não é este um tição arrebatado do fogo?”
Zacarias entendeu. O fogo da fornalha da Babilônia, do julgamento. Um tição, um pedaço de madeira meio queimado, retirado das chamas no último instante. Não por merecimento, mas por misericórdia. A acusação de Satanás era factual – as vestes *estavam* imundas –, mas era cruel e ignorava a graça do Resgatador.
Josué, imóvel, parecia quase desfalecer sob o peso daquela cena. As vestes imundas o sufocavam. Então, o Anjo voltou-se para os mensageiros celestiais que estavam ali, servos à espera de ordens. “Tirai-lhe estas vestes imundas.” A ordem foi executada em silêncio. Zacarias viu, com um misto de horror e alívio, as vestes nojentas sendo removidas daquele homem. Era como desnudar uma ferida. E então, o Anjo proclamou, dirigindo-se agora a Josué, cujo rosto estava lavado em humilhação e temor: “Eis que tenho feito passar de ti a tua iniquidade e te vestirei de finos trajes.”
E aconteceu. Das mãos dos servos angelicais surgiram vestes limpas, de um branco ofuscante, talar, ricamente bordadas. Um turbano limpo, símbolo da santidade sacerdotal, foi colocado sobre sua cabeça. O contraste não poderia ser mais chocante. Onde havia desgraça, agora havia dignidade. Onde havia a evidência do pecado, agora havia o emblema da graça concedida. Josué, transformado, parecia respirar pela primeira vez.
Zacarias, atônito, observava. E então, como se a visão não fosse suficientemente maravilhosa, o Anjo do Senhor ergueu novamente a voz, agora com um tom solene de aliança. “Se andares nos meus caminhos e se observares os meus preceitos, então julgarás a minha casa e guardarás os meus átrios, e te darei lugar entre os que estão aqui.” A promessa era monumental: acesso, permanência, autoridade no próprio conselho celestial. Mas havia uma condição: o andar, o guardar. A graça era imerecida, mas não era barata; demandaria uma vida de fidelidade resposta.
E como para selar aquela transação divina, como um ponto final de ouro na sentença, o Anjo acrescentou, direcionando a palavra não apenas a Josué, mas a Zacarias, a Zorobabel, a todo o remanescente que lutava entre os escombros: “Ouve, pois, Josué, sumo sacerdote, tu e os teus companheiros que se assentam diante de ti, porque são homens portentosos. Eis que farei vir o meu servo, o Renovo.”
Aqui, a visão pareceu se aprofundar, alcançando um horizonte escatológico. O *Renovo*. Um termo carregado das promessas mais antigas, uma videira que brotaria do toco aparentemente morto de Jessé. O Anjo continuou, e suas palavras eram como gravadas em pedra: “Pois eis aqui a pedra que pus diante de Josué: sobre esta única pedra, sete olhos estão gravados. Eis que eu lavrarei a sua escultura, diz o Senhor dos Exércitos, e tirarei a iniquidade desta terra num único dia.”
A pedra. Zacarias fitou. Não era uma pedra de alicerce comum. Era *a* Pedra, angular, rejeitada talvez pelos construtores. E os sete olhos – a plenitude da onisciência, do cuidado, da vigilância de Deus repousando sobre ela. E a promessa: a escultura, o trabalho divino de talhar, de preparar. A iniquidade tirada, não através de séculos de sacrifícios, mas *num único dia*. Um dia decisivo, um sacrifício único, final. O sumo sacerdote purificado apontava para um Sacrifício maior. As vestes brancas, para uma justiça definitiva.
A visão se desfez como névoa ao sol da manhã. Zacarias voltou a si, ainda na sombra da arcada. O som de cinzéis contra a pedra, as vozes dos trabalhadores, o cheiro de pó. Tudo era o mesmo. E, no entanto, nada era igual. Seus olhos buscaram Josué lá fora, agora conversando com Zorobabel. O homem ainda vestia suas roupas simples e poeirentas. Mas Zacarias já não conseguia vê-lo sem enxergar, sobrepostas, as vestes alvas de linho fino. E olhou para as pedras brutas no chão, os blocos que seriam a base do novo templo. E entre elas, em sua mente, estava *a* Pedra, com seus sete olhos vigilantes, esperando o dia do talho divino.
Ele se levantou, os joelhos trêmulos, mas o coração inundado por uma certeza quieta. A obra era de Deus. A culpa, Ele mesmo a removia. O futuro, Ele já o garantira. Ainda havia muito por fazer, muitos obstáculos, muito cansaço pela frente. Mas agora, Zacarias sabia que eles não estavam apenas reconstruindo um templo de pedra. Eles eram testemunhas vivas de um milagre muito maior: a reconstrução de um povo, tirado do fogo, vestido com uma justiça que não era sua, e apontando, através de um sumo sacerdote falível, para o verdadeiro Sumo Sacerdote que havia de vir. O Renovo. A Pedra. Aquele que tiraria a iniquidade da terra, num único dia.




