O sol da tarde pesava sobre os ombros do velho sacerdote, Eder. A poeira do caminho misturava-se ao suor em seu rosto sulcado, enquanto seus olhos, ainda vivos sob as pálpebras caídas, percorriam o horizonte árido. Não era a Babilônia que ele via, mas outra paisagem, gravada a fogo em sua alma desde a juventude, quando as palavras do profeta Ezequiel haviam sido como água fresca em um deserto de exílio.
A memória daquela visão voltava a ele não como uma lista seca de medidas, mas como um aroma, uma sensação de ordem perfeita. Ele se sentou à sombra escassa de uma tamargueira, fechou os olhos e deixou que o rio da lembrança fluísse.
Era uma terra. Não uma terra qualquer, mas a Terra, a herdade sagrada, redesenhada pela mão invisível do Eterno. Ele a via como um grande retângulo, uma porção sagrada separada, cortada de leste a oeste com a precisão de um ourives. No centro, o quinhão mais precioso: a porção sagrada para os sacerdotes, os filhos de Zadoque, que permaneceram fiéis quando todo o Israel se desviou. Não era um território vasto, mas profundo, um corredor de terra pura que ia do Jordão ao Mediterrâneo. Ali, ele via em sua mente hortas ordenadas, oliveiras que não seriam saqueadas, vinhas cujo fruto alimentaria aqueles que serviam no santuário. A terra deles beiraria a cidade, mas não a conteria; seu sustento vinha de perto, mas seu serviço era apartado.
Ao norte e ao sul desta faixa sacerdotal, duas fatias idênticas se estendiam. A dos levitas. Homens que não possuíam herança, mas que agora, nesta nova economia divina, tinham seu lugar garantido. Não era uma esmola, era uma porção. Terra para viver, não para guerrear ou acumular. Eder quase podia ouvir o som de seus cânticos ao entardecer, vindos das casas simples espalhadas por aqueles campos, um serviço que agora era apoiado por um chão que lhes pertencia.
E no coração geográfico de tudo isso, encravada na porção sagrada mas distinta dela, a cidade. Não era a Jerusalém tortuosa e íngreme que ele lembrava de criança. Era uma praça perfeita, um quadrado de território puro. Seus portões levavam os nomes das doze tribos, três de cada lado, como uma coroa onipresente. A cidade não era de Judá, nem de Benjamim, nem de Levi. Era de todo o Israel. Um lugar comum, terreno, para habitação, comércio, vida ordinária. Seus trabalhadores, seus padeiros, seus tecelões, viriam de todas as tribos. E o mais marcante: a terra ao redor da cidade, para cultivo, pertencia a esses trabalhadores. Era uma ideia revolucionária. A cidade santa sustentada pelos que nela moravam, uma economia integrada, justa.
E então, ao sul da porção sagrada, o território se abria para as cinco tribos restantes. Benjamim, Simeão, Issacar, Zebulom, Gade. Cada um com sua faixa igual, correndo do rio ao mar. A divisão não era por conquista ou mérito, mas por designo. Uma igualdade imposta pela graça. Nenhuma tribo ficaria encolhida nas montanhas, nenhuma dominaria a planície fértil. A justiça estava no desenho do mapa.
Mas no extremo norte, outras sete faixas se sucediam. Dã, Aser, Naftali, Manassés, Efraim, Rúben, Judá. A ordem era diferente de tudo. Judá, a tribo real, não estava no centro de poder, mas numa faixa ao norte. José estava dividido em dois, Efraim e Manassés, e nenhum dominava. Dã, outrora instável e idólatra, tinha seu lugar garantido. Era um retrato da reconciliação. As feridas do cisma norte-sul, as rivalidades ancestrais, eram curadas no traçado do arquiteto divino. Cada tribo tinha acesso ao mar e ao rio. Cada uma tinha sua porção. A promessa feita a Abraão, de uma terra para sua semente, era cumprida não apenas quantitativamente, mas qualitativamente. Era uma terra de *shalom*, de integridade, onde a geografia pregava uma sermão mudo sobre a unidade e a provisão de Yahweh.
Eder abriu os olhos. O sol poente dourava a planície mesopotâmica, tão diferente da visão. Um sorriso triste e esperançoso lhe tocou os lábios. Ele entendia agora. A visão de Ezequiel não era um plano urbanístico para ser copiado. Era um princípio encarnado em forma de terra. Era a demonstração de que o Deus de Israel é um Deus de ordem, de justiça distributiva, de santidade central e de inclusão periférica. O santuário, que na visão ficava no centro da porção sagrada, não era mencionado em detalhes aqui, mas sua presença era o eixo. Tudo irradiava dali. A presença de Deus no centro era o que tornava possível a igualdade das tribos ao redor. Sem Ele no meio, as porções iguais se tornariam novamente motivo de cobiça e guerra.
O velho sacerdote se levantou, os ossos rangendo. A poeira da Babilônia grudava em seus pés. Mas em seu coração, ele carregava o mapa de uma terra que não era feita de barro e pedra, mas de promessa e graça. Uma terra onde o rio que saía do santuário, descrito em capítulos anteriores, regaria não apenas árvores frutíferas, mas uma nova forma de se viver em comunidade. Ele começou a caminhar de volta para sua cela de exílio. A noite caía. Mas pela primeira vez em muitos anos, a escuridão não lhe parecia absoluta. Ela era apenas o fundo sobre o qual brilhava, em sua mente, a clara e vívida geometria da misericórdia.




