Bíblia em Contos

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Bíblia

A Menina do Vale e o Pacto

Era uma voz que vinha do lugar do incêndio, daquele braseiro consumido que era o coração do profeta. E falava assim:

“Tu, cidade sobre os montes, ouviste alguma vez a tua própria história? Não a dos cronistas, não a dos reis, mas a que vem antes de tudo, a que está escrita na terra e no sangue. Deixa-me contar.

No dia em que nasceste, no lugar que viria a ser chamado Jerusalém, ninguém cortou o teu cordão. Não foste lavada com água nem esfregada com sal, como se fazia com os recém-nascidos, e ninguém te envolveu em panos quentes. Foste lançada num campo aberto, numa depressão de terra vermelha, com o cordão umbilical ainda preso ao corpo pequeno e roxo. Porque naquele dia, ninguém te quis. A tua própria vida era um resto, algo que se jogava fora. E ali ficaste, no vale, retorcendo-te no teu próprio sangue, até que o silêncio quase te levou.

Mas eu passei por ti. E vi-te. E eras apenas aquilo: um punhado de vida à beira da morte. E disse-te, ao sangue coagulado e ao frio que te subia: ‘Vive!’. E você, cidade, você, menina, começou a crescer. Cresceu como um broto teimoso num lugar de pedras. Criaste seios, apareceu a primeira sombra de cabelo, mas estavas nua, completamente nua. A tua pele era a cor da terra seca. E eu passei por ti outra vez, e vi que eras tempo, eras possibilidade.

Estendi a aba do meu manto sobre ti, e cobri a tua nudez. Fiz um juramento, um pacto de sangue, e você se tornou minha. Então lavei-te. A água não era pouca; corri os dedos pelo cabelo embaraçado, limpei o vale da tua pele, o sujo de séculos de abandono. Ungi-te com óleo fino, o mesmo que se usa para consagrar reis. Vista-te de linho fino, bordado, calcei-te com pele de texugo, atei fitas de linho na tua cabeça e coloquei brincos nas tuas orelhas. Um colar de prata ao pescoço. E você, menina do vale, você, resto jogado fora, brilhou. A tua beleza tornou-se perfeita, por meu esplendor que eu tinha posto sobre ti.

E o que você fez com essa beleza, cidade? O que você fez com os meus anéis e as minhas joias? Você confiou na tua formosura e usaste-a como moeda. Em cada esquina, construíste um altar para outros. De cada pano fino que te dei, fizeste bandeiras para ídolos. O ouro e a prata que te ofereci, você fundiu, moldou em figuras de homens, e prostrou-se diante deles. E não foi uma prostituição qualquer, foi uma entrega desmedida, frenética. Você dava presentes aos teus amantes – o meu pão, o meu azeite, o meu incenso. Você sacrificava os meus filhos, os frutos da nossa aliança, fazendo-os passar pelo fogo daquele deus de ferro, Moloque.

Lembras-te dos teus amantes? Os assírios, de braços grossos e tratados escritos em tábuas de argila? Os babilônios, com seus tecidos azuis e ciência das estrelas? Até os egípcios, com sua cobiça antiga, você os chamou. Multiplicaste as tuas prostituições até que a terra se encheu do rumor dos teus encontros nas colinas, sob cada árvore frondosa. A criança abandonada que eu vestira de púrpura tornou-se notória, uma meretriz que pagava aos amantes, em vez de receber pagamento.

Por isso, eis que reunirei todos os teus amantes, aqueles que você achava tão doces, e aqueles que você odiava. Reuni-los-ei contra ti, de todos os lados. E eles virão, não com beijos, mas com armas. Arrancarão as tuas roupas, levarão as tuas joias, deixar-te-ão novamente nua e exposta. E apedrejarão as tuas casas, e passarão ao fio da espada os que estão dentro. Farão um grande fogo no meio de ti, e queimarão as tuas casas à vista de muitas mulheres – das outras cidades, das outras nações. E você cessará de ser prostituta; até o pagamento cessará.

Porque eu agirei com o furor do ciúme, do marido traído. Eles executarão sobre ti o juízo. E você se lembrará. Lembrarás dos teus dias de menina, quando estavas nua e em sangue no vale. E terás vergonha. E ficarás em silêncio.

Mas a palavra do Senhor não termina no fogo.

Porque eu me lembrarei do meu pacto, feito contigo nos dias da tua juventude. E estabelecerei contigo uma aliança eterna. E você se lembrará do teu caminho, e terás vergonha, quando receberes as tuas irmãs, mais velhas e mais novas – Samaria, a do norte, e Sodoma, a do sul – e as darei a ti como filhas. Não por causa da tua aliança, mas por causa da minha. E purificarei você de toda a tua impureza.

Então você saberá, cidade sobre os montes, menina do vale, que eu sou o Senhor. Para que você se lembre, e te envergonhes, e nunca mais abras a boca por causa da tua vergonha, quando eu te perdoar tudo o que fizeste.”

A voz calou-se. O braseiro no peito do profeta arrefecia um pouco. E a cidade, lá fora, sob o sol da tarde, continuava a sua vida barulhenta, ignorante do seu próprio nascimento no sangue, e da nudez que, um dia, lhe seria devolvida. Só o silêncio, pesado e profético, guardava a memória do vale e a promessa terrível e doce do perdão que ainda viria, não por mérito, mas por aquele primeiro amor que não sabe desistir de uma criança abandonada à beira do caminho.

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