O sol de Tisri queimava como brasa sobre os telhados de Jerusalém, mas o calor que abrasava Jerusalemias vinha de dentro. Um peso úmido e pesado, como pedra molhada, assentara-se em seu peito. A palavra do SENHOR, que sempre lhe chegara como fogo nos ossos, agora se condensava em algo espesso e amargo, um fel que subia pela garganta.
Ele caminhava sem destino pelas ruas estreitas, seus pés empoeirados evitando os montes de lixo apodrecendo nos becos. O cheiro era uma mistura de excremento, especiarias fortes e fumaça distante – sempre a fumaça. De onde? Dos altares nos altos? Dos incensários no Templo? Não. Era uma fumaça mais acre, a de coisas que não deveriam ser queimadas. O ar, pesado e estático, não trazia o canto dos levitas, mas o ruído baixo e constante da cidade: o riso forçado das tabernas, o zurrar dos jumentos, o negociar áspero nos mercados, e por baixo de tudo, um sussurro. Sempre um sussurro. Palavras curtas, trocadas em esquinas, olhares que se cruzavam e rapidamente se desviavam.
Parou à entrada de uma praça. Ali, sob uma figueira raquítica, um grupo de homens conversava. Um deles, de rosto largo e mãos calejadas de pedreiro, falava com voz carregada de indignação. “…e eu te digo, Malchias, foi ele quem falou ao capitão da guarda. Para ficar com a minha vinha em Anatote. Falsas testemunhas! Tudo armado!” Jeremias se aproximou, um fio de esperança tolo brotando em seu espírito. Talvez houvesse justiça. Talvez o clamor fosse por equidade. O outro homem, Malchias, pôs a mão no ombro do pedreiro, seu rosto uma máscara de solene compaixão. “Irmão, que tragédia. Homem algum deveria passar por isso.” Sua voz era um mel escorrendo, suave e pegajoso. “Vamos resolver isso. Vem à minha casa ao pôr do sol. Traze os documentos. Buscaremos a verdade juntos.” O pedreiro, aliviado, agradeceu com lágrimas nos olhos. Malchias virou-se para outro companheiro, e um sorriso rápido, um brilho de pura satisfação, cruzou seu rosto antes que a máscara da seriedade retornasse. Era um relâmpago. Mas Jeremias viu. Viu o laço sendo armado, a mentira vestindo a túnica da piedade.
A mão do profeta agarrou a borda de seu manto, os nós dos dedos brancos. A voz dentro dele, a voz que não era sua, ergueu-se como um vendaval contido.
*Ah, se a minha cabeça se tornasse em águas, e os meus olhos, em fonte de lágrimas! Então choraria de dia e de noite os mortos da filha do meu povo.*
Não eram mortos pela espada, não ainda. Eram mortos em vida. Mortos na confiança, mortos na verdade. A cidade era um vasto sepulcro caiado, e dentro, ossos de lealdade quebrados, carniça de promessas. Ele não chorava por um exército derrotado, mas por uma alma coletiva que havia desistido de ser alma. Desejou, num ímpeto de agonia, transformar-se todo em pranto, em algo útil que pudesse lavar, ainda que simbolicamente, tanta podridão.
Fugiu da praça, subindo como um animal ferido para um ponto mais alto, um terraço abandonado com vista para os vales em volta. De longe, vinha o tilintar dos martelos sobre a bigorna. Armeiros. Sempre armeiros. Preparando lanças, afiando espadas, temperando o aço no óleo quente. “Ensinai cada um ao seu próximo, e cada um ao seu irmão, dizendo: ‘Sabeis como manejar o arco’.” A frase ecoou em sua mente com uma ironia terrível. Não era a preparação nobre para a defesa da cidade santa. Era a destreza para a traição íntima. Aprender a manejar o arco para, no escuro, quando o irmão se virasse, cravar-lhe a flecha pelas costas. A guerra não era contra a Babilônia lá fora; era uma guerra civil permanente, silenciosa, travada nos quartos escuros e nos corredores do poder.
Seu olhar percorreu o horizonte, os montes arredores, outrora cobertos de vinhas e oliveiras. Agora, entremeadas à vegetação, viam-se as marcas da ganância: clareiras irregulares onde as árvores tinham sido derrubadas, terra revolvida por mineração ilegal, pequenas fortificações erguidas por senhores locais. “Estendem a língua, como um arco, para a mentira; fortalecem-se na terra, mas não para a verdade.” A falsidade era o instrumento, e a terra, o prêmio. Aumentavam o patrimônio, diminuíam a alma. E nesse culto perverso ao progresso vazio, a verdade era o primeiro refém a ser abandonado à beira do caminho.
Uma onda de cansaço tão profundo que beirava o enjoo tomou conta dele. Era um cansaço de existir naquele ambiente, de respirar aquele ar viciado. “Por isso, assim diz o SENHOR dos Exércitos: Eis que eu os fundirei e os provarei.” A imagem não era de um ourives cuidadoso, mas de um metalurgista impiedoso. A fornalha estava acesa. A cidade, seu povo, sua elite, sua religião de fachada, tudo seria lançado no calor intenso. E o que restaria? Não um objeto de beleza, mas escória. Escória que se separa do metal puro e é jogada fora. Ele via aquela escória mental, moral, em cada sorriso calculado, em cada contrato baseado no logro, em cada sacrifício no Templo oferecido por mãos sujas de suborno.
O vento mudou, trazendo por um instante um cheiro diferente, não da cidade, mas do campo: terra, esterco, coisas simples. E com ele, veio a instrução final, clara como uma lâmina: “Assim diz o SENHOR: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem se glorie o forte na sua força; não se glorie o rico nas suas riquezas.”
A glória. Esse era o motor de tudo. A glória do intelecto que elabora mentiras complexas. A glória da força que oprime o mais fraco. A glória do ouro que compra consciências. Três pilares de uma sociedade que desabaria, porque eram falsos, erguidos sobre a areia movediça da auto-adoração.
O que, então? O vento pareceu sussurrar a resposta, e Jeremias a capturou, sua voz saindo em um murmúrio seco para o ar vazio: “Mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o SENHOR, que faço misericórdia, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado.”
Conhecer. Saber. Não um conhecimento de eruditos, de doutores da Lei que discutiam infinitamente sobre minúcias rituais enquanto seus corações estavam longe. Era um conhecimento de encontro, de relacionamento. Saber que Ele é o SENHOR. O único ponto fixo em um mundo de mentiras móveis. O padrão imutável de misericórdia, juízo e justiça. Nele, a compaixão não era fraqueza, o juízo não era vingança cega, a justiça não era um negócio. Era uma dança sagrada e perfeita, da qual seu povo havia caído, trocando-a por uma pantomima vulgar.
O sol começava a se pôr, lançando tons de sangue e ocre sobre as pedras de Jerusalém. O profeta desceu do terraço. A dor no peito não havia sumido, mas agora tinha um contorno, uma razão de ser. Era a dor do parto de uma verdade terrível e necessária. Passou por um escriba que, à luz de uma lâmpada de óleo, copiava diligentemente um rolo. Jeremias olhou para as mãos ágeis, para a tinta escura. A palavra podia ser registrada, mas poderia ser vivida? “Até os animais do campo e as aves do céu conhecem os seus tempos”, pensou, com uma amargura resignada. “Mas o meu povo não conhece o juízo do SENHOR.”
Entrou em sua cela simples. A escuridão o envolveu. Lá fora, a cidade continuava seu rumor, seu sussurro, sua preparação frenética para um destino que teimava em ignorar. E Jeremias sentou-se no chão de terra batida, seu corpo um ponto quieto no meio do turbilhão, guardando em seu espírito o peso do conhecimento que ninguém mais queria carregar: o de um Deus que chora por sua cidade, mesmo enquanto prepara o seu arado para arrancar, porque o amor, às vezes, tem a face severa do lamento.




