O sol da tarde batia no rosto de Agur com um peso quase físico, como se o próprio calor tivesse textura e densidade. Ele limpou a poeira do pergaminho grosseiro com a manga do manto, já desbotado e áspero ao toque. A tinta, feita de fuligem e goma, parecia tremular no ar quente que subia das pedras. Não era um escriba famoso, nem um sábio das cortes de Jerusalém. Apenas um homem cansado, com os dedos calejados não pela pena, mas pelo trabalho da terra e pelo ofício modesto de cortar pedras para moinhos. A sabedoria, para ele, não tinha o cheiro de papiro novo e incenso, mas sim o odor seco do orvalho que evapora antes do amanhecer e o cheiro ácido da sujeira sob as unhas.
Ele começou a escrever, e as palavras saíram como um suspiro rouco, não como uma declamação. “Palavras de Agur, filho de Jaque. Dizei a este homem: Fatiguei-me, ó Deus, fatiguei-me e estou exausto.”
Era uma confissão, não um prelúdio. A fadiga não era do corpo, embora essa também existisse. Era uma exaustão da alma, da tentativa de alcançar um entendimento que sempre escorria entre os dedos da mente, como água de um odre furado. Olhava para o horizonte, onde o azul do céu se encontrava com o marrom-avermelhado das colinas, e sentia uma pequenez vertiginosa. Que saberia ele, criatura de um dia, dos segredos que antecederam a fundação do mundo? Que compreensão teria do Autor de todas as coisas, Aquele que recolhe os ventos no punho e envolve as águas do mar em um manto?
“Não aprendi a sabedoria”, rabiscou, e a letra era irregular, sincera em sua imperfeição. “Nem tenho o conhecimento do Santo.” Era a humildade mais profunda, a que precede qualquer verdadeiro conhecimento. Antes de tentar escalar os céus, era preciso reconhecer o chão de barro sob os próprios pés.
Sua mente vagou, longe do pergaminho. Lembrou-se de uma cena comum, trivial: uma formiga-carregadeira, um ser minúsculo e frágil, arrastando uma semente três vezes maior que seu corpo, subindo tenazmente por uma fenda na rocha. Nenhum rei, por mais poderoso, demonstrava uma determinação tão concentrada, uma previsão tão clara para o inverno que estava por vir. A sabedoria estava ali, não em tratados complexos, mas na ordem silenciosa e insistente da criação. Depois, os *schepham*, aqueles híbridos estranhos, nem totalmente isso, nem totalmente aquilo. E os abutres, mestres dos céus, planando em círculos perfeitos sobre o vale, enxergando a carniça a léguas de distância. A terra estava cheia de maravilhas que desafiavam a categorização fácil, que escapavam à compreensão completa. Havia uma beleza terrível e uma ordem misteriosa em tudo.
Um sorriso cansado lhe tocou os lábios. Dois pedidos. Apenas dois. Diante da vastidão do desconhecido, ele reduzia seu desejo ao essencial, ao que poderia sustentar uma vida inteira sem desmoroná-la. “Afasta de mim a falsidade e a mentira”, murmurou para o ar silencioso. A mentira era um peso, uma névoa que turvava a alma e separava o homem da realidade crua e bela das coisas como são. E depois, o pedido mais profundo, aquele que equilibrava no fio da navalha entre a necessidade e o excesso: “Não me dês nem a pobreza nem a riqueza; dá-me apenas o pão de cada dia.” Conhecia a fome, a sensação de vazio que latejava nas entranhas. Conhecia, por observação, a arrogante saciedade dos ricos, que podiam chegar a blasfemar, acreditando-se autossuficientes, donos de seu próprio destino. Mas a pobreza extrema também era um perigo, um convite ao desespero que podia levar um homem a roubar e a macular o nome do seu Deus. O pão de cada dia. A medida exata da provisão divina. Nem um resto mofado, nem um banquete que entorpece os sentidos. Apenas o necessário, a porção diária de maná que mantinha o caminho aberto e o coração dependente.
Ele ergueu os olhos do texto. Lá fora, o vento começava a sussurrar, arrastando folhas secas pelo chão. Pensou nos filhos de sua época, naquela geração que se considerava pura aos próprios olhos, mas que jamais se lavou da própria sujeira. Uma geração de olhos altivos, de dentes afiados como espadas para devorar os humildes da terra. Viu, em sua mente, figuras grotescas e vorazes, insaciáveis em seus apetites. A sanguessuga com suas duas filhas que gritam “Dá! Dá!”. A terra que nunca se diz satisfeita com água, o fogo que nunca diz “Basta!”. Eram imagens vívidas, quase cômicas em sua crueza, de uma avareza e uma ambição que corrompiam tudo.
E então, vieram os pequenos enigmas, as coisas “demasiado maravilhosas” que ele não podia entender. O caminho da águia no céu, um rastro invisível de intenção e poder. A serpente deslizando sobre a rocha lisa, um movimento impossível, sem deixar marcas. O navio no meio do mar, uma casa de madeira desafiando abismos. E o caminho do homem com uma jovem. Este último o fez pausar, a pena pairando sobre o pergaminho. Havia um mistério tão profundo no despertar do amor, na atração que vence convenções e cálculos, um caminho oculto e poderoso como as forças da natureza. Eram mistérios que não se desvendavam, apenas se contemplavam com um misto de assombro e reverência.
Por fim, as observações finais, agudas como estilhaços de pedra. A terra que estremece com o peso de um servo que subitamente se torna rei. O insensato entupido de comida, cuja arrogância incha como um odre prestes a estourar. A mulher desprezada que, por destino ou astúcia, encontra um lar. E os quatro seres pequenos, mas sábios: as formigas, os *schepham*, os gafanhotos, e o lagarto que se infiltra nos palácios. A sabedoria nem sempre estava com os fortes, com os grandes, com os que ostentavam poder. Muitas vezes, residia na adaptação silenciosa, na perseverança obscura, na união discreta.
Agur enrolou o pergaminho, amarrando-o com um cordão de linho gasto. As palavras estavam lá, um reflexo de sua luta, de suas dúvidas, de seus lampejos de claridade. Não era um sistema teológico completo. Era o registro de um homem que olhou para o mundo, para o céu, e para dentro de sua própria alma, e encontrou, na própria perplexidade e no pedido pelo pão de cada dia, um tipo de sabedoria diferente. Uma sabedoria que não exclui o mistério, mas que nele se apoia; que não busca dominar o divino, mas receber dele, a cada novo dia, a medida exata de luz necessária para o próximo passo. O vento fresco da noite começava a soprar, limpando o ar do calor. Ele saiu da sombra da rocha onde escrevera, e o vasto céu estrelado se abriu sobre ele, um silêncio eloquente e infinito. Sua fadiga ainda estava lá, mas agora havia uma paz mesclada a ela, a paz de quem, finalmente, parou de tentar segurar o oceano em suas mãos.




