A tarde caía sobre os campos de Judá com uma lentidão dourada. O sol, já baixo no horizonte, tingia as colinas de um tom de mel velho e poeirento. Elimeleque caminhava com um cansaço que ia além dos ossos; era uma fadiga da alma. Há três dias deixara para trás os muros brancos de Berseba, a casa confortável, a família. Um negócio de gado mal resolvido, palavras ásperas trocadas com o irmão, e aquela sede antiga, não por água, mas por algo que não sabia nomear, lançaram-no à estrada.
Seus pés, calçados em sandálias gastas, levantavam pequenas nuvens de poeira ocre. A estrada era familiar, mas hoje cada pedra parecia um obstáculo. Pensava na sua casa. Não na de Berseba, com seus aposentos frescos e pátio sombreado, mas em outra. Uma memória de infância: subir com seu pai as íngremes ladeiras de Jerusalém, a multidão cantando, o ar vibrante de expectativa. E então, a visão do Templo. Não a estrutura de pedra em si, mas a *sensação* que emanava dali. Era como se o próprio céu repousasse, gentil e pesado, sobre aqueles pátios. Lembrava-se de ter pensado, menino ainda, que os pardais que aninhavam nas vigas do altar eram as criaturas mais felizes da terra.
“Até o pardal encontra casa, e a andorinha, ninho para si”, sussurrou para o vento quente. A frase do salmo brotara-lhe na mente sem aviso, como água num lugar seco. Ele olhou em volta. Um pardal bicava grãos secos perto de um monturo à beira do caminho. Uma andorinha cruzou o céu em voo certeiro, rumo a seus pináculos invisíveis. E ele, Elimeleque, homem feito, sentia-se mais desabrigado que qualquer pássaro.
A jornada era para Siquém, mas seu coração, teimoso, virara-se para norte, para Sião. Era um desejo físico, uma saudade que doía no peito. “Bem-aventurados os que habitam em tua casa”, murmurou novamente. O que seria habitar na casa do Senhor? Não como sacerdote, não por um dia de festa, mas para sempre. Viver naquele estado de louvor perene. Ele imaginou uma vida inteira passada naqueles átrios, onde cada som era um cântico e cada respiração, uma oração. A ideia era tão doce que lhe apertou a garganta.
A noite o encontrou num vale estreito e árido. Os moradores chamavam-no de Vale de Baca. Um lugar de terra rachada, onde apenas tamargueiras retorcidas e alguns cardos resistiam. A fonte que ali havia secara há duas luas. Elimeleque acendeu uma pequena fogueira, e a escuridão ao redor tornou-se profunda, viva. A solidão era um manto pesado. Este era o vale da lamentação, o lugar da aridez. Sentou-se numa pedra, e o desânimo, companheiro silencioso da viagem, assentou-se ao seu lado.
Foi então que lembrou. O salmo não falava apenas dos felizes no Templo. Falava dos que *passam* pelo vale de Baca. Não dos que nele habitam, mas dos que o atravessam. E fazem dele… uma fonte. Como? Ele olhou para a terra seca, para os poços cavados e vazios. A resposta não veio como um clarão, mas como um orvalho lento, insistente. A fonte não estava no vale. A fonte era o caminhante. Ou melhor, era a força que o impulsionava através do vale. A própria sede, a própria saudade de Sião, quando entregue, transformava-se em água viva. As primeiras chuvas do outono, pensou. Não são as nuvens que as trazem? E o que eram as nuvens senão a água do mar, cansada da viagem, que sobe e se transfigura?
Uma nova força, calma e profunda, começou a brotar dentro dele. Não era alegria, era convicção. A jornada não era um castigo; era o próprio caminho para a presença. Cada passo cansado, cada sede, cada poeira engolida, era parte do culto. “Vão de força em força”, a frase ecoou. Ele sempre imaginara isso como uma sucessão de triunfos, de vitórias reluzentes. Agora, à luz bruxuleante do fogo, entendia. A força para deixar Berseba. A força para enfrentar a discussão com o irmão e reconhecer sua própria culpa. A força para atravessar o Vale de Baca nesta noite sem lua. A força para, amanhã, levantar-se e seguir. Era isso. Um degrau de cada vez, uma pequena coragem substituindo a exausta, até que, um dia, se avistassem os portões.
Ao amanhecer, o vale ainda era seco. Mas Elimeleque levantou-se com uma ligeireza que não sentia há dias. Encheu seu odre no pequeno regato que encontrava mais adiante, mas a verdadeira água era a que carregava na alma. Continuou a caminhar. Já não pensava em Siquém como destino final. Seus passos, agora, estavam orientados para uma realidade mais profunda. Cada aldeia que passava, cada rosto que via, era um átrio. O céu azul sobre sua cabeça, uma cúpula.
Quando, dias depois, os primeiros contornos de Jerusalém surgiram no horizonte, coroando os montes, Elimeleque não correu. Parou. A emoção que o invadiu não era a de um turista que chega, mas a de um filho que retorna. Um dia, pensou, um único dia nestes átrios valia mais que mil em qualquer outro lugar. Preferia ser o mais humilde servidor nesta casa, um simples guardião da porta, a festejar nas tendas da prosperidade vazia.
Subiu a cidade com o coração batendo no ritmo dos degraus. O ar mudava, ficava mais fino, mais carregado de sombras e ecos de salmos. E então, entrou. O pátio dos gentios, vasto, barulhento, cheio do cheiro de animais e pó. Mas para ele, naquele momento, era o lugar mais silencioso da terra. Caminhou até onde pôde, seu olhar fixo nas escadas que levavam ao interior, ao Santo. Não podia ir além. Não precisava.
Sentou-se à sombra de uma coluna, esgotado e pleno. Olhou para as andorinhas que riscavam o céu acima do pátio, ouvindo o murmúrio contínuo das orações, o tilintar dos levitas, o balir distante dos cordeiros. Aqui estava. Não era o fim da jornada, mas o seu verdadeiro começo. A saudade não tinha desaparecido; tinha-se transfigurada em presença. A casa não era apenas um lugar de pedra. Era o destino do coração que, através de vales áridos e estradas poeirentas, aprendera a transformar sua própria sede em cântico. E Elimeleque, o homem de Berseba, inclinou a cabeça e, pela primeira vez em muitos anos, chorou. Não de tristeza, mas de uma gratidão tão vasta e tão tranquila que parecia, finalmente, ter encontrado o ninho.




