O ar sobre Jerusalém cheirava a fogo cinzento e a desespero. Havia dezoito longos meses desde que os exércitos da Babilônia, sob o comando do próprio Nabucodonosor, haviam fechado seu cerco de ferro em torno da cidade. A primavera que chegava não trazia alívio, apenas a cruel ironia de dias mais amenos sobre uma terra arrasada pela fome. Dentro dos muros, sombras movediças que outrora foram homens arrastavam-se pelas ruas, os olhos fundos buscando em vão um grão de trigo, uma migalha de pão. Os preços eram uma piada macabra: uma cabeça de jumento, animal impuro, por oitenta peças de prata; um punhado de esterco de pombo para cozinhar, por cinco.
No palácio, o rei Zedequias, nono soberano de Judá após Josias, seu justo pai, vivia um tormento próprio. Seus olhos, herdados da linhagem de Davi, já não viam tronos, mas pesadelos. O conselho dos profetas de baixo preço, que sussurravam promessas de intervenção divina, soava agora como o zurrar dos jumentos mortos nas ruas. Ele se lembrava das palavras ásperas de Jeremias, rejeitadas, enterradas no fundo do pátio. Lembrava do pacto quebrantado. À noite, o ranger das máquinas de cerco babilônicas era o som da própria Lei sendo quebrada, pedra por pedra.
A fuga foi um ato de pânico, não de estratégia. Na calada de uma noite sem lua, enquanto a brecha no muro norte alargava-se sob o impacto constante dos aríetes, Zedequias e um punhado de homens leais – guardas, filhos, alguns oficiais – esgueiraram-se por uma porta secreta nos jardins reais, próximo ao reservatório de Siloé. O coração batia-lhe no ouvido, mais alto que o som dos seus próprios passos apressados. Deixavam para trás a cidade, o templo, o povo, o peso da coroa que já era só um círculo de espinhos. Seguiram pelo vale, na direção das planícies de Jericó, na vã esperança de atravessar o Jordão e desaparecer.
Mas o deserto é um lugar traiçoeiro e vazio. Na planície árida, perto de Jericó, as sombras se materializaram em cavalaria. Os caldeus haviam previsto a tentativa. Não houve batalha, apenas uma captura súbita e humilhante. As espadas dos filhos de Zedequias foram as primeiras a cair, uma após a outra, diante dos seus olhos. O último som que ouvira de suas vozes foi um grito abafado. Depois, o silêncio. Então, os soldados babilônicos avançaram sobre ele. Seguraram-no com força. Ele viu o brilho do metal do punhal e sentiu, antes da dor física excruciante, uma dor mais profunda, a escuridão total. Quando recuperou a consciência, estava acorrentado, o mundo reduzido a um véu de sangue seco e trevas permanentes. Nabucodonosor, em Ribla, não quis sua morte imediata. Quis que ele carregasse a última visão da sua linhagem exterminada para o resto de seus dias, que eram agora uma longa noite.
Enquanto isso, em Jerusalém, a resistência desmoronou. No nono dia do quarto mês, no décimo nono ano do reinado de Nabucodonosor, a fome era tão brutal que não restavam forças para defender a brecha. Os caldeus invadiram como uma enxurrada. Nebuzaradã, o capitão da guarda, um homem de eficiência brutal, assumiu o comando. A cidade, já moribunda, foi submetida a um ritual metódico de morte.
Um mês depois, no sétimo dia do quinto mês, Nebuzaradã entrou no Templo de Salomão. O que viu ainda devia ser deslumbrante, mesmo na penumbra: o ouro batido das paredes, os querubins de oliveira revestidos, os colossais vasos de bronze. Não houve contemplação. Homens com alavancas e martelos foram enviados para dentro. O som do bronze sendo arrancado de seus alicerces, do ouro sendo derretido ou quebrado em pedaços transportáveis, deve ter enchido o santuário com um clamor profano. Tudo foi levado: os colunas, os castiçais, as pás, as bacias, os cinzeiros, até os utensílios mais simples de ouro e prata. Uma história de fé, reduzida a peso de metal.
Depois, veio o fogo. Não um incêndio acidental, mas a aplicação deliberada de tochas. O templo, o palácio real, todas as grandes casas de Jerusalém – tudo foi consumido. As chamas subiram tão altas que devem ter sido vistas das montanhas de Moabe. As muralhas, outrora imponentes, foram despedaçadas. Pedra por pedra, até que não restasse qualquer defesa, qualquer símbolo de glória passada. Jerusalém tornou-se um monte de entulho fumegante, um amontoado de cinzas e memórias calcinadas.
O povo que havia sobrevivido ao cerco, esquelético e em choque, foi reunido. Nebuzaradã passou entre eles, um ceifeiro fazendo a colheita final. Os melhores, os mais fortes, os artesãos, os ferreiros – qualquer um que pudesse servir à máquina babilônica – foram separados. Formaram uma coluna triste de exilados, amarrados uns aos outros, olhando para trás pela última vez para a cidade que já não era cidade, apenas uma mancha negra no horizonte. O grosso da população mais pobre, os *am ha’arets*, foi deixado para trás, para cuidar das vinhas e dos campos agora pertencentes ao rei da Babilônia.
Houve ainda um último ato de vingança calculada. Alguns líderes que haviam permanecido na cidade foram presos e levados a Ribla, diante de Nabucodonosor. O sumo sacerdote Seraías, seu ajudante Sofonias, os oficiais militares, os conselheiros. Ali, longe da terra prometida, foram executados. Foi o golpe final na estrutura de Judá. O reino deixou de existir. A terra, agora chamada de província de Judá, tinha um governador babilônico, Gedalias, residente em Mispa, não em Jerusalém.
E os que ficaram, aqueles pobres entre as ruínas, tentaram refazer a vida. Sob Gedalias, houve um frágil suspiro de esperança. Mas até esse fio foi cortado por uma conspiração, um assassinato, mais medo. E um novo êxodo, um fugir para o Egito, temendo a represália babilônica que, desta vez, nunca veio. A terra ficou quieta, repousando no sábado forçado que suas leis há muito exigiam e que seus reis nunca lhe haviam permitido.
Trinta e sete anos depois, na Babilônia, um prisioneiro idoso e cego, chamado Joaquim, outrora rei, foi tirado de sua cela. O novo soberano babilônio, Evil-Merodaque, concedeu-lhe graça. Deu-lhe roupas novas e um lugar à mesa real. Joaquim comeu pão na presença do rei todos os dias, até o fim de sua vida. Era um ato de bondade, um raio de dignidade no exílio. Mas era um homem quebrado, à mesa de um monarca estrangeiro, sustentado pela clemência de quem havia destruído seu mundo. O exílio continuava. A promessa parecia um eco distante, sussurrado apenas pelo vento que agitava as palmeiras à beira dos rios da Babilônia, onde os remanescentes de Judá se sentavam e, quando se lembravam de Sião, choravam.



