Bíblia em Contos

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A Semente Dourada no Monte Moriá

O ar sobre o monte Moriá estava carregado de um silêncio diferente. Não era o silêncio vazio do deserto, mas um peso sólido, uma expectativa que parecia emanar da própria rocha. Hirão, o artífice de Tiro, já velho e de costas arqueadas por décadas de trabalho em madeira e bronze, fitou a extensão preparada. Não era apenas um terreno aplainado. Era o eixo do mundo, o lugar onde a foice do anjo havia parado, onde um pai levantou um altar para um filho poupado. Agora, Salomão, o rei de paz, daria sequência ao sonho do pai, Davi.

Os alicerces já estavam lançados, enormes pedras lavradas, encaixadas sem o ruído de martelo no canteiro. Hirão viu os homens começarem a erguer as paredes. A descrição que recebera era precisa, mas só agora a compreendia na prática. Sessenta côvados de comprimento, vinte de largura. A proporção não buscava a grandiosão esmagadora dos palácios assírios, mas uma nobreza contida, uma geometria sagrada. As paredes subiam com pedras selecionadas, de um branco azulado, cortadas com tal precisão que as juntas quase desapareciam à vista. O sol, batendo nelas ao amanhecer, fazia o templo brilhar como uma ossada gigante e pura, antes mesmo de qualquer revestimento.

E então veio o ouro. Não era um detalhe, um ornamento. Era uma inundação. Hirão supervisionou os homens que aplicavam as lâminas de ouro batido, cobrindo não apenas as paredes internas, mas também o teto de vigas de cedro. O trabalho era lento, meticuloso. O cheiro do cedro, doce e resinoso, misturava-se ao odor metálico do pó de ouro no ar. A luz das lamparinas, ainda durante a obra, refletia-se nas superfícies, criando um caos dourado e tremeluzente, como se o próprio espaço estivesse pegando fogo de forma controlada, domesticada. Cobriram tudo: as paredes, os caibros, os umbrais. O lugar estava se tornando, literalmente, um santuário de ouro.

Mas foi no *Debir*, no Santo dos Santos, que o trabalho assumiu um tom de terror reverente. Um cubo perfeito de vinte côvados. Ao entrar naquele espaço ainda vazio, Hirão sentiu um frio súbito, uma opressão no peito que não tinha a ver com o ar, mas com a consciência do que aquele lugar representaria. A cobertura ali foi um trabalho à parte. Ouro sobre ouro. Eles aplicaram pregos de ouro, cada um pesado, cravado com um cuidado que beirava o ritual. O piso, também de ouro, brilhava com um reflexo opaco e profundo, como um lago estático de metal precioso. A luz não dançava ali; assentava-se, pesada e densa. Era uma preparação, um casulo metálico para algo inefável.

Fora, diante do *Hekal*, o Lugar Santo, o trabalho ganhava outro caráter. Aqui, a madeira voltava a falar. Dois querubins. A ordem era clara, mas a execução era arte pura, teologia em forma de madeira de oliveira. Hirão escolheu os troncos ele mesmo, velhos, de veios profundos. Não seriam estátuas assustadoras como as dos babilônios. A concepção era outra. Com suas ferramentas mais afiadas, ele e seus melhores ajudantes começaram a esculpir. As figuras cresciam, altas, de dez côvados cada uma. As asas não eram apenas apêndices, mas extensões majestosas da forma. Uma asa de cada querubim tocava, com sua ponta, a parede do santuário. A outra asa tocava a asa do irmão, no centro da sala, formando um arco, um dossel vivo de madeira e, depois, de ouro batido. As faces não eram humanas, mas possuíam uma serenidade poderosa, voltadas para a grande sala, como guardiões que não precisam da fúria para intimidar; sua presença, sua quietude, era guarda suficiente.

Os véus que depois seriam pendurados, de linho fino com querubins bordados, ainda estavam por fazer. Mas a estrutura já contava sua história. As colunas na frente, Jaquim e Boaz, levantavam-se como gigantes fundidos em bronze, com capitéis intricados de romãs e correntes, uma linguagem simbólica de estabilidade e frutificação.

Hirão, ao final de um longo dia, saiu para o pátio. O templo, inacabado mas já com sua forma definitiva, erguia-se contra o céu crepuscular. Não tinha a obscena grandiosidade dos zigurates, nem a leveza enganosa dos templos gregos que ele ouvira falar. Era sólido, retilíneo, revestido de uma luz que não era sua, mas refletida. Aquele monte de pedra, madeira e ouro parecia mais uma semente plantada na rocha do que um edifício. Uma semente de promessa. Ele pensou nas palavras do velho rei Davi, que nunca pôde construí-lo, e no rosto sério de Salomão, carregado do peso de uma bênção. O templo não era um ponto final. Era uma pausa gravada no ouro, uma espera arquitetônica. A glória que habitara uma tenda móvel no deserto agora teria uma casa. Mas, olhando para a porta escura do Santo dos Santos, Hirão sentiu que a casa, no fundo, continuaria uma tenda. Um lugar fixo para um Deus que nunca se fixa, um trono de querubins dourados aguardando um Rei que não se senta em trono algum que o homem possa forjar. O vento frio da noite soprou, fazendo um andaime de madeira ranger. Era o único som. O templo, em seu esplendor mudo, apenas esperava.

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