O dia estava morno, com aquele sol baixo do fim da tarde que alongava as sombras dos carvalhos e pintava de ouro velho as pedras de Siló. O ar cheirava a terra molhada, a feno armazenado e a fumaça distante de fogueiras. Josué sentia o peso dos anos não apenas nos ossos — um latejar surdo nos joelhos, uma rigidez nos dedos que outrora empunharam a espada com ferocidade —, mas também na alma, um peso solene e doce-amargo. A tenda do encontro estava ali, mas ele não fora para lá. Em vez disso, pedira que reunissem os principais de Israel, os anciãos, os cabeças de famílias, os juízes, ali mesmo no largo aberto, onde todos pudessem ver o céu e sentir a terra sob os pés.
Aos poucos, eles foram chegando. Homens de barbas grisalhas, faces marcadas pelo sol e pelas intempéries, vestes simples impregnadas da poeira da jornada. Alguns com olhos ainda vivos, de jovens guerreiros envelhecidos; outros com o olhar pesado da administração da paz. Sentaram-se em esteiras no chão, formando um grande semicírculo ao redor dele. Não havia trono, apenas um banco baixo de madeira de carvalho, onde Josué se assentou com um suspiro quase imperceptível. O murmúrio baixo das vozes cessou. Todos os olhos se voltaram para aquele homem cuja vida era um testemunho vivo do poder de Jeová.
Ele começou devagar, a voz um tanto rouca, mas clara, carregada de uma autoridade que vinha da experiência, não do cargo.
— Vocês viram — disse, e a frase pairou no ar, simples e avassaladora. — Vocês viram tudo o que o Senhor, o Deus de Israel, fez por causa de vocês. Viram as nações poderosas, com seus carros de ferro e suas muralhas que tocavam o céu. Viram o medo nos olhos de seus pais, a dúvida. E viram a mão que luta por vocês. Não foi a força do meu braço, nem a destreza de nossa estratégia. Foi Ele.
Josué fez uma pausa, deixando as palavras ecoarem nas memórias de cada homem ali presente. Um vento suave passou, agitando as franjas de suas vestes. Ele ergueu a mão, a pele enrugada e manchada pelo tempo, e apontou vagamente para os quatro pontos do horizonte.
— Estas nações que restam… os filisteus na costa, os gesuritas ao sul, os cananeus nos vales. Olhem para elas. Elas estão lá. Mas eu, hoje velho e avançado em dias, lhes digo: o Senhor, Ele mesmo, expulsará essas nações de diante de vocês. Ele lutará por vocês, como prometeu. A terra que ainda possuem os pagãos, ela será de vocês. Herança de Jeová.
Houve um aceno coletivo de cabeças, um brilho de esperança nos olhos de alguns mais jovens. Mas o rosto de Josué não se iluminou. A sombra na sua testa aprofundou-se.
— Portanto — e aqui sua voz ganhou um tom urgente, de corte seco — sejam muito firmes em guardar e cumprir tudo o que está escrito no Livro da Lei de Moisés. Não se desviem dele, nem para a direita, nem para a esquerda. Não se misturem com essas nações que restam. Não pronunciem o nome dos deuses delas, nem por juramento. Não os sirvam, e não se prostrem diante deles.
Ele inclinou-se para frente, como se quisesse imprimir cada sílaba diretamente em seus corações.
— Porque se vocês, de alguma forma, se voltarem para trás, e se aliarem com o que resta destes povos, e com eles contraírem matrimônio, e se associarem a eles… saibam, tenham por certo, que o Senhor, seu Deus, não expulsará mais essas nações. Elas se tornarão laços e armadilhas para vocês. Açoites nas suas costas e espinhos nos seus olhos. Até que vocês desapareçam desta boa terra que o Senhor, seu Deus, lhes deu.
Um silêncio pesado caiu sobre o largo. O canto de um pássaro soou, agudo e solitário, na distância. Josué olhou para as faces diante de si, uma a uma. Viu a fé, mas também viu a complacência. Viu a gratidão, mas também a familiaridade perigosa com a prosperidade. A terra estava boa. As cidades eram habitáveis. As vinhas davam fruto. Era fácil esquecer o deserto, fácil esquecer o maná, fácil começar a achar que a força do próprio braço havia conquistado aquilo tudo.
— Vejam — continuou, sua voz baixa, mas carregada de uma emoção contida. — Hoje estou partindo, pelo caminho de toda a terra. Vocês sabem, no íntimo da alma de cada um, que nem uma só palavra de todas as boas palavras que o Senhor, seu Deus, lhes falou, falhou. Tudo se cumpriu. Nada falhou.
Ele ergueu-se então, com um esforço visível, apoiando-se num cajado de madeira nodosa. De pé, parecia ainda mais alto, mais venerável. A última luz do sol iluminou seus cabelos completamente brancos como uma coroa de neve.
— Mas assim como todas as boas palavras se cumpriram sobre vocês, assim também o Senhor fará vir sobre vocês todas as palavras más, até que Ele vos destrua desta boa terra, se abandonarem a aliança do Senhor, seu Deus, e forem servir a outros deuses, se prostrando diante deles. Então a ira do Senhor se acenderá contra vocês, e vocês desaparecerão rapidamente desta boa terra que Ele lhes deu.
Agora, não era mais um aviso. Era um testamento. Um último e angustiado brado de um pai para filhos que ele não veria mais crescer. Josué ficou ali, imóvel, por um longo momento. Depois, sem outra palavra, fez um lento gesto com a mão, um gesto de despedida e de bênção ao mesmo tempo, e começou a se afastar, apoiado no cajado, em direção à sua tenda.
Os homens ficaram sentados, imóveis, por um tempo que pareceu interminável. O sol desapareceu por trás dos montes de Efraim, e as primeiras estrelas começaram a cintilar no céu que testemunhara tantas promessas. O ar esfriou, mas o calor das palavras de Josué, uma mistura de fogo e gelo, permanecia neles. Eles se levantaram em silêncio, um a um, e se dispersaram na penumbra, cada qual carregando para sua tenda, sua família, seu pedaço da terra prometida, o peso doce e terrível da escolha. A terra era boa. Mas a fidelidade, agora eles sabiam, era mais frágil que um vaso de argila, e exigiria de suas mãos, todos os dias, um cuidado vigilante e amoroso. A noite em Siló caiu suave e profunda, e no silêncio, parecia ainda ecoar a voz rouca do velho líder: *Escolham hoje a quem irão servir.*




