Bíblia em Contos

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Bíblia

A Jornada e as Lições

A estrada que subia em direção a Jerusalém era uma trilha poeirenta e antiga, esquentada pelo sol da tarde. Uma névoa fina de calor tremulava sobre as pedras. Jesus caminhava à frente, seu passo era firme, determinado, mas seu rosto estava marcado por uma gravidade que os discípulos, acostumados a seus sorrisos e histórias, notavam com um frio na espinha. A conversa, entre eles, era entrecortada, feita de sussurros e olhares significativos. Algo no ar era diferente. O próprio destino, Jerusalém, pairava como uma sombra silenciosa.

Foi nessa atmosfera carregada que um grupo se aproximou, rompendo a poeira do caminho. Fariseus, com seus mantos franjados impecáveis, mesmo na estrada, e uma expressão que não era de curiosidade, mas de inquisição. Um deles, ajustando o talit sobre o ombro, lançou a pergunta como quem atira uma pedra num lago para ver as ondulações.

— Mestre, é lícito ao homem repudiar sua mulher?

Jesus não parou de caminhar, mas seu olhar, por um instante, pareceu medir a distância entre a Lei escrita em pedra e o coração endurecido como pedra. Quando falou, sua voz era clara, cortando o ar quente.

— O que Moisés vos ordenou?

O fariseu respondeu, quase triunfante:

— Moisés permitiu lavrar uma carta de divórcio e repudiá-la.

Jesus então parou. Virou-se para olhá-los, e seus olhos pareciam conter a dor de todos os casais separados, de todas as almas partidas desde a fundação do mundo.

— Foi pela dureza do vosso coração que ele vos deixou essa ordem. Mas, desde o princípio da criação, Deus os fez homem e mulher. Por isso o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne. Assim, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, não o separe o homem.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Os fariseus se entreolharam, desconcertados não pela lógica, mas pela força simples e primordial daquela verdade. Era uma lei escrita não em pergaminho, mas no próprio ato da criação. Eles se afastaram, murmurando entre si, enquanto o grupo de Jesus seguia caminho.

Mais tarde, já dentro de casa, longe dos ouvidos inquisitivos, os discípulos voltaram ao assunto, sussurrando. Jesus, percebendo sua confusão, foi mais direto ainda, numa clareza que não deixava espaço para negociações casuísticas:

— Quem repudiar sua mulher e casar com outra, comete adultério contra ela. E se ela, repudiando seu marido, casar com outro, comete adultério.

As palavras ecoaram na sala simples. Era um ensinamento radical, que ia ao cerne do compromisso. O dia, no entanto, ainda guardava outras lições.

A notícia de que Jesus estava naquela casa se espalhou, como sempre acontecia. E as mães começaram a chegar, trazendo seus filhos pequenos, alguns ainda de colo, outros agarrados às saias, com os olhos arregalados de curiosidade. Queriam que o Rabi tocasse neles, que abençoasse aquelas vidas tão novas. Os discípulos, talvez ainda atordoados pelas palavras duras sobre o divórcio, talvez apenas irritados com a interrupção e a algazarra infantil, começaram a repreendê-las.

— Afastem-se! O Mestre não tem tempo para criancinhas agora. Não veem que estamos em coisas importantes?

Jesus ouviu. E sua reação foi imediata e visceral. Indignou-se. Não era uma indignação silenciosa, mas uma chama que acendeu em seus olhos.

— Deixai vir a mim os pequeninos, e não os impeçais, porque dos tais é o Reino de Deus.

Sua voz, antes tão grave, suavizou-se. Ele se sentou no chão, contra todo protocolo rabínico. E um a um, as crianças foram se aproximando, tímidas no início, depois confiantes. Ele os tomou nos braços, impôs as mãos sobre suas cabecinhas desgrenhadas, e abençoou-as. A bênção não era uma fórmula decorada; era um gesto de acolhimento, um sinal de que o Reino não era uma conquista intelectual, mas uma herança recebida com a simplicidade de um coração aberto. E disse, olhando para seus discípulos ainda embaraçados:

— Em verdade vos digo: Quem não receber o Reino de Deus como uma criança, de modo algum entrará nele.

O sol já começava a declinar, lançando sombras longas, quando um homem correu na direção do grupo que agora deixava a casa. Ele era jovem, seus trajes eram finos, de um linho bom, e seu rosto transbordava uma ansiedade sincera. Ajoelhou-se no pó da estrada, diante de Jesus, bloqueando-lhe o caminho.

— Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?

Jesus fitou-o. Viu a ânsia genuína, mas viu também as amarras invisíveis.

— Por que me chamas bom? Ninguém é bom, senão um só, que é Deus. Conheces os mandamentos: Não mates, não adulteres, não furtes, não digas falso testemunho, não defraudes, honra teu pai e tua mãe.

O jovem ergueu o rosto, e seus olhos brilhavam com uma certeza quase dolorosa.

— Mestre, tudo isso tenho guardado desde a minha mocidade.

E então, o texto sagrado diz algo raro e comovente: “Jesus, olhando para ele, o amou.” Foi um olhar que penetrou além das observâncias meticulosas, até o centro daquela alma que buscava mais. E por amá-lo, lhe deu a verdade que doía, a única que poderia libertá-lo.

— Uma coisa te falta: Vai, vende tudo quanto tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; então, vem e segue-me.

O rosto do jovem, antes iluminado pela esperança, desmoronou. A palavra não foi imediata. Ele baixou o olhar para suas próprias mãos, para as roupas finas que vestia, como se visse pela primeira vez as correntes que o prendiam. A luta foi visível em seus traços. Por fim, ergueu-se. Não disse nada. Apenas se virou e foi embora, cabisbaixo, porque possuía muitas propriedades. A tristeza que o envolvia era quase física, como um manto pesado.

Jesus então olhou ao redor, para seus discípulos, e disse com uma melancolia profunda:

— Quão dificilmente entrarão no Reino de Deus os que têm riquezas!

Os discípulos ficaram atônitos. Na mente deles, riqueza era sinal do favor de Deus. Se os ricos, abençoados, não podiam entrar, então quem poderia? Jesus, lendo seus pensamentos, continuou:

— Filhos, quão difícil é entrar no Reino de Deus! É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus.

Eles ficaram ainda mais perplexos, quase em pânico.

— Então, quem pode ser salvo?

Jesus fixou neles um olhar sereno, que transcendia a lógica humana.

— Aos homens é impossível, mas não a Deus; porque para Deus todas as coisas são possíveis.

Pedro, sempre impulsivo, rompeu o silêncio que se seguiu, olhando ao redor para a pobreza que compartilhavam:

— Eis que nós deixamos tudo e te seguimos.

A resposta de Jesus não foi uma recompensa barata. Foi uma promessa de renovação total, misturada com um aviso solene.

— Em verdade vos digo: Ninguém há que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou filhos, ou campos, por causa de mim e por causa do evangelho, que não receba, já no tempo presente, o cêntuplo de casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições; e, no mundo por vir, a vida eterna. Porém, muitos primeiros serão últimos, e os últimos, primeiros.

A jornada recomeçou, agora com a sombra do monte das Oliveiras à frente. E, enquanto subiam, Jesus caminhava de novo à frente, e eles o seguiam cheios de temor. Ele então começou a lhes dizer, numa clareza brutal, o que os esperava em Jerusalém:

— Eis que subimos para Jerusalém, e o Filho do Homem será entregue aos principais sacerdotes e aos escribas; e condená-lo-ão à morte, e o entregarão aos gentios; e hão de escarnecê-lo, cuspir nele, açoitá-lo e matá-lo; mas, ao terceiro dia, ressurgirá.

As palavras eram tão chocantes, tão contrárias a qualquer expectativa de um reino terreno, que eles não conseguiram assimilá-las. Em vez de terror, uma ambição mesquinha brotou no coração de Tiago e João, os filhos de Zebedeu. Aproximaram-se dele, com um ar solene.

— Mestre, queremos que nos faças o que te vamos pedir.

— O que quereis que vos faça?

— Concede-nos que, na tua glória, nos assentemos um à tua direita e o outro à tua esquerda.

Jesus suspirou. Era como se eles não tivessem ouvido nada. A taça do sofrimento era o prelúdio da glória, e eles já disputavam os lugares de honra.

— Não sabeis o que pedis. Podeis beber o cálice que eu bebo, ou ser batizados com o batismo com que eu sou batizado?

Eles, cheios de um fervor ingênuo, responderam:

— Podemos.

Jesus assentiu, com uma expressão de infinita paciência.

— O cálice que eu bebo, bebereis, e com o batismo com que eu sou batizado, sereis batizados. Mas o assentar-se à minha direita ou à minha esquerda não me pertence concedê-lo; é para aqueles a quem está preparado.

Os outros dez, ouvindo a conversa, indignaram-se contra Tiago e João. A velha rivalidade, a fome por status, tudo havia voltado à tona, mesmo à sombra da cruz que se avizinhava. Jesus, então, os chamou a todos e sentou-se, como um professor diante de alunos teimosos.

— Sabeis que os que são considerados governantes das nações as dominam, e os seus grandes exercem autoridade sobre elas. Mas entre vós não é assim; pelo contrário, quem quiser ser grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será servo de todos. Porque o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos.

A lição ecoou no crepúsculo que caía. A estrada agora levava a Jericó, a última parada antes da subida final a Jerusalém. A cidade, um oásis de tamareiras, estava movimentada. E à beira do caminho, sentado no seu manto velho, estava Bartimeu, o cego. Seus ouvidos, aguçados pela escuridão permanente, captaram o burburho diferente da multidão, o rumor de muitos passos.

— Que é isso? O que está acontecendo? — perguntou ele, agarrando a barra da túnica de alguém que passava.

— É Jesus, o nazareno, que está passando.

Naquele instante, algo explodiu dentro de Bartimeu. Uma fé crua, desesperada, nascida de anos de escuridão. Ele começou a gritar, com toda a força de seus pulmões, rompendo o ruído da multidão:

— Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia de mim!

Muitos na frente o repreendiam, mandando que se calasse. “Cala-te, mendigo importuno! Não incomodes o Mestre!” Mas quanto mais o repreendiam, mais ele gritava, uma só palavra tornada grito de alma:

— Filho de Davi, tem misericórdia de mim!

Jesus parou. No meio daquela pressa, daquela tensão rumo ao seu destino, ele parou.

— Chamai-o.

Alguns, então, se voltaram para o cego, com uma nova atitude.

— Tem bom ânimo; levanta-te, ele te chama.

Bartimeu, num gesto rápido, lançou fora o seu manto, a única coisa que tinha para se aquecer à noite. Ergueu-se e, tateando, foi levado até onde Jesus estava. O ruído da multidão baixou a um sussurro expectante.

— Que queres que eu te faça?

A pergunta era simples. E a resposta veio direta, sem rodeios, vinda da mais pura necessidade:

— Raboni, que eu recupere a vista.

Jesus olhou para aquele rosto voltado para o vazio, marcado pela sujeira da estrada e pela esperança.

— Vai, a tua fé te salvou.

E no mesmo instante, Bartimeu viu. A primeira coisa que seus olhos, turvos depois de anos sem uso, focaram, foi o rosto de Jesus. E depois, o mundo: a poeira dourada ao pôr do sol, as folhas das palmeiras balançando, os rostos surpresos da multidão. Ele não voltou para buscar seu manto velho. Em vez disso, deu um passo, e depois outro, e começou a seguir Jesus pelo caminho, glorificando a Deus. E todo o povo, vendo aquilo, também louvava.

A estrada agora subia, serpenteando pelas colinas em direção a Jerusalém. O cego que agora via seguia o homem que caminhava voluntariamente para a escuridão. E no ar, misturado ao pó e ao canto dos grilos, estava a lição do dia inteiro: sobre o laço indissolúvel do amor, sobre a herança recebida como criança, sobre o perigo das riquezas do coração, sobre a grandeza que se ajoelha para servir e, por fim, sobre a fé gritante que, mesmo na beira do caminho, no meio do pó, consegue fazer o Caminho parar e ouvir.

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