Bíblia em Contos

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A Semente em Solo Pisídio

A luz da manhã entrava pelas fendas das pesadas portas de madeira da sinagoga, trazendo consigo o cheiro poeirento das ruas de Antioquia da Pisídia e o murmúrio distante da cidade que despertava. Dentro, o ar era mais fresco, carregado do aroma envelhecido dos pergaminhos e da cera de oliva queimada. Barnabé observava, quieto num canto, enquanto os olhos de Paulo percorriam o recinto. Não era um olhar de julgamento, mas de reconhecimento, como quem revisita os contornos de uma casa outrora familiar. Os bancos de madeira rústica estavam começando a se encher: homens de barbas cuidadosamente aparadas, vestes simples mas limpas, alguns com expressões expectantes, outros com a fadiga habitual dos que carregavam o peso dos dias sob o domínio romano.

Após as leituras da Lei e dos Profetas, os chefes da sinagoga enviaram-lhes um recado pela voz suave de um jovem auxiliar: “Irmãos, se tendes alguma palavra de exortação para o povo, falai.” A frase ecoou no silêncio que se fez. Paulo ergueu-se. Seus movimentos eram contidos, mas havia uma energia contida neles, como a de uma corrente subterrânea. Ele ajustou levemente a borda do seu manto, um gesto simples, humano, que quebrou qualquer formalidade remanescente.

“Varões israelitas,” começou ele, e sua voz não era de trovão, mas clara, atingindo o fundo da sala sem esforço, “e os que temeis a Deus, ouvi.” Fez uma pausa, deixando que o silêncio se assentasse. Uma criança chorou do lado de fora e o som pareceu fazer parte da narrativa que estava por vir.

Ele não lançou mão de argumentos complexos de imediato. Começou pela história que todos ali respiravam desde o berço. Falou do Êxodo, não como um evento remoto, mas com a textura de uma memória coletiva – a dureza do deserto, a sombra das colunas de nuvem e fogo, a paciência divina com um povo “de dura cerviz”. Suas palavras pintaram Saul, o primeiro rei, como uma figura trágica, um homem escolhido cuja rejeição ainda doía na alma da nação. E então, Davi. Ao mencionar o nome do pastor-rei, algo mudou no ambiente. Era como se a própria sinagoga se inclinasse para ouvir. Paulo falou de Davi não apenas como um herói guerreiro, mas como um homem “segundo o coração de Deus”, um paradoxo de pecado e graça, de harpas e lamentos. E então, quase num sussurro que forçou todos a conter a respiração, citou as promessas feitas a ele. Promessas que não eram sobre palácios ou impérios eternos de pedra, mas sobre um descendente.

“Deste descendente,” disse Paulo, e agora sua voz ganhou uma nova cadência, “Deus, segundo a sua promessa, trouxe a Israel o Salvador, Jesus.”

O nome caiu no salão como uma pedra em águas paradas. Alguns rostos se contraíram. Outros se inclinaram para a frente, esquecidos do desconforto dos bancos. Paulo não recuou. Com uma lógica narrativa que parecia tecer os fios soltos das próprias Escrituras que eles acabaram de ler, ele conduziu-os pela história de João Batista, pelo batismo de arrependimento que muitos ali conheciam ou até haviam experimentado. E então, o núcleo da questão: a rejeição de Jesus em Jerusalém.

Aqui, sua voz não se encheu de acusação, mas de uma dor compartilhada. Ele descreveu os líderes que, por não O conhecerem nem às “vozes dos profetas que se lêem todos os sábados”, cumpriram-nas ao condená-Lo. Falou da morte na cruz com uma crueza que fez alguns homens virarem o rosto. Mas não parou aí. A ressurreição era o eixo sobre o qual tudo girava. “Mas Deus o levantou dentre os mortos,” declarou, e a frase soou menos como dogma e mais como o desvendar de um mistério há muito escondido em letras. Ele citou Salmos, ligou os pontos entre a incorruptibilidade do Santo de Deus e a tumba vazia. Era uma exposição densa, teológica, mas fluía como uma história que finalmente encontrava seu clímax.

“Seja-vos, pois, notório, irmãos, que por este se vos anuncia a remissão dos pecados.” A oferta estava posta. Clara, direta. Não era uma nova lei, mas um perdão fundamentado numa promessa ancestral cumprida. E então o aviso, solene, quase urgente: “Vede, pois, que não venha sobre vós o que está dito nos profetas…” e as palavras de Habacuque ecoaram como um badalo distante, anunciando uma incredulidade que levaria à desolação.

O silêncio que se seguiu ao término de sua fala era pesado, carregado. Não era o silêncio da indiferença, mas da terra revolvida. Quando a reunião se dissolveu, muitos rodearam Paulo e Barnabé. Seus olhos brilhavam com uma mistura de assombro e esperança. “Rogamos-vos que no próximo sábado nos faleis outra vez estas coisas,” suplicou um homem mais velho, suas mãos ásperas segurando as de Paulo.

O sábado seguinte viu uma aglomeração que se estendia para além das portas da sinagoga. Parecia que toda a cidade tinha ouvido falar dos estrangeiros e de sua mensagem disruptiva. A visão daquela multidão – judeus piedosos, prosélitos, gentios curiosos – despertou, contudo, uma centelha diferente em alguns. A inveja, amarga e verde, brotou no coração de alguns dos líderes religiosos. Eles começaram a contradizer, a argumentar com veemência, a blasfemar contra o Caminho que Paulo anunciava.

Foi então que Paulo se voltou para eles, e sua postura mudou. Não havia mais a paciência pedagógica do expositor, mas a firmeza clara do arauto. Sua voz, ainda calma, cortou o ar como uma lâmina: “Era-vos necessário que a palavra de Deus se vos pregasse primeiro; mas, visto que a rejeitais, e a vós mesmos não vos julgais dignos da vida eterna, eis que nos voltamos para os gentios.”

A declaração teve a força de um divisor de águas. Para muitos ouvintes gentios, foi um chamado direto, uma porta que se escancarava. A palavra se espalhou. Homens e mulheres, almas sedentas por um Deus que não se confinava a genealogias ou rituais, abraçaram a mensagem. A cidade ficou em polvorosa. Os oponentes, furiosos, aliciaram mulheres devotas de alta posição e os principais da cidade, levantando uma perseguição que forçou Paulo e Barnabé a partirem.

Na véspera da partida, em uma casa simples nos arredores da cidade, os dois se reuniram com um pequeno grupo dos novos crentes. O ar cheirava a pão recente e a lágrimas contidas. Não houve discursos grandiosos. Paulo, com os pés empoeirados da estrada que logo percorreria, encorajou-os a permanecer na graça, a confiar naquele em quem haviam crido. Ao se despedirem à beira do caminho, sob um céu que começava a se pintar de púrpura, os discípulos olhavam para trás com o coração apertado. Mas havia uma semente plantada em solo pisídio. Eles partiram, não como fugitivos derrotados, mas como semeadores, sacudindo o pó dos pés num gesto ao mesmo tempo de renúncia e de testemunho, enquanto a nova fé, tenra e resistente, enraizava-se em meio às pedras e aos corações daquela cidade distante.

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