O sol da colheita pesava sobre as espigas douradas de trigo, mas o ar em Samaria não trazia o cheiro doce da fartura. Trazia o cheiro acre do suor misturado ao incenso estranho que queimavam nos altos. Efraim, um homem de ossos largos e olhos fundos de quem muito trabalhou a terra, observava a multidão se agitando rumo ao templo de Baal-Peor. Segurava um feixe de trigo com as mãos calejadas, mas seus dedos não sentiam o peso dos grãos. Sentiam um vazio, como a terra no auge do verão quando as primeiras nuvens de gafanhotos aparecem no horizonte.
Era tempo de festa, de festa do Senhor, mas eles haviam trocado a festa. A alegria que ecoava não era a alegria do povo salvo, era a risada espalhafatosa de quem corre para o abismo de olhos vendados. Sua mulher, Ana, havia se pintado os olhos e vestido as roupas coloridas dos fenícios. “É só uma festa, Efraim,” dissera, com um brilho estranho no olhar. “Todos vão. O que há de mal em celebrar a colheita?” Ele não soube responder. As palavras dos profetas ecoavam em sua mente como trovões distantes, mas eram abafadas pelo som dos tambores e das flautas.
Naquela noite, deitado no leito de pedra de sua casa simples, Efraim não conseguiu dormir. A visão do profeta Oseias, aquele homem de dores, passou diante dele como um relâmpago. O profeta falava de um amor ferido, um amor matrimonial pisoteado. E o Senhor dizia, através daquela boca ressecada pela verdade: “Não te alegres, ó Israel! Não exultes como os povos!”. As palavras ecoaram em seu peito. A alegria deles era doentia, um fruto apodrecido ainda no galho. Celebravam como quem já está condenado, dançavam sobre a própria cova.
Os dias que se seguiram foram de uma calma opressiva. O céu permaneceu de um azul implacável, mas o vento começou a soprar do deserto, quente e áspero. A primeira praga não foram os gafanhotos, foram as notícias. Rumores de que a Assíria mexia seus exércitos como um homem que afia a faca antes do abate. Os ricos de Samaria falavam de alianças, de ouro enviado ao Egito, aquele antigo cárcere do qual o Senhor os arrancara com mão forte. Efraim ouvia e lembrava: “Efraim voltará para o Egito, e à Assíria comerá comida imunda”. Um calafrio percorreu sua espinha. Não era um cativeiro físico apenas, era um cativeiro da alma. Estavam voltando para a miséria de onde vieram, trocando a glória pelo lodo.
A colheita, tão promissora, começou a definhar. Os grãos que pareciam tão cheios ao sol estavam chochos por dentro. Um mofo cinzento apareceu nas espigas, começando pelos cantos dos campos, onde os ídolos dos altos eram mais numerosos. A terra, outrora generosa, parecia envergonhada, retraindo sua fertilidade. A mesa, que deveria estar farta, começou a mostrar visões de escassez. Pães pequenos e escuros. Azeite ralo. Vinho azedado antes do tempo. Era como se a própria criação gemesse, recusando-se a participar da festa profana.
Ana começou a definhar também. O brilho nos olhos deu lugar a um medo surdo. O filho mais novo, o pequeno Benoni, caiu doente. A febre queimava sua testa, e seus olhos vidrados pareciam fitar algo que os adultos não podiam ver. Efraim sentou-se ao lado do leito de palha, esfregando as mãos impotentes. Lembrou-se então das palavras mais cortantes: “E seus filhos e filhas cairão pela espada”. Não era uma maldição lançada de fora. Era uma consequência que brotava de dentro, como o veneno de uma planta regada com água salgada. Eles haviam semeado vento. Agora, colhiam o vendaval. E o vendaval levaria os mais frágeis primeiro.
A glória partiu. Efraim percebeu isso num dia comum, enquanto consertava uma cerca. Um silêncio diferente pousou sobre a terra. Não era paz. Era ausência. A presença do Senhor, que outrora pairara sobre as montanhas como um ar de proteção, havia se retirado. O profeta dizia: “Eles não habitarão na terra do Senhor”. Não era uma expulsão futura. Era um exílio presente. Já não habitavam na terra *do Senhor*. Habitavam num pedaço de terra qualquer, sujeita a qualquer vento, a qualquer invasor. A casa estava vazia, embora as pessoas ainda se movimentassem dentro dela.
O inverno chegou cedo e cruel. As chuvas foram escassas, e o que veio foi frio cortante. A alegria barulhenta das festas dos altos se transformara num silêncio pesado, quebrado apenas pelo choro das crianças com fome e pelo murmúrio seco dos velhos, que lembravam os tempos antigos. Efraim, olhando para o vale outrora verdejante, agora coberto por um manto marrom e ressequido, entendeu o fim. O profeta havia gritado, e ninguém ouviu. Agora, só restava o sussurro do juízo, que era o eco do próprio pecado.
A história de Israel não terminaria ali, ele sabia. O profeta falava de um amor mais forte que a morte, de um retorno após muitos dias. Mas aquele capítulo, aquele tempo de ceifa apodrecida e ventres estéreis, estava escrito com letras de fogo na paisagem de sua vida. Efraim pegou um punhado de terra seca e deixou que escorregasse entre seus dedos. Era pó. Tudo havia voltado a ser pó. E o pó, soprado pelo vento quente do deserto, não tinha direção, nem lar.




