O sol da tarde descia sobre as colinas de En-Gedi, tingindo os cachos de videiras de um dourado quente que parecia derreter sobre as folhas. A brisa, carregada do aroma salgado do Mar Salgado misturado ao perfume das romãzeiras em flor, agitava levemente os véus de Sulamita. Ela não era mais a jovem tímida que corria atrás das sombras; seus passos, agora, tinham a medida certa da terra que pisava, firmeza de quem conhece o caminho e a meta.
Seus olhos percorreram a vinha que se estendia à sua frente, uma tapeçaria viva de verdes e cachos pesados. Lembrou-se, com um sorriso que não chegou aos lábios mas aqueceu seu peito, de um tempo distante. “Quem me dera ser para ti como irmão, amamentado aos seios de minha mãe!” pensou. Ah, a simplicidade daquela fantança… Encontrá-lo nas ruas e poder beijá-lo sem que ninguém estranhasse, sem os sussurros e os olhares de reprovação. Mas esse desejo de infância havia se transformado em algo mais profundo, uma corrente subterrânea que alimentava toda a sua vida.
Ela subiu até um ponto mais alto, onde as pedras ainda guardavam o calor do dia. Seu amado vinha da direção dos campos, sua silhueta alongada cortando a luz oblíqua. Não era uma chegada apressada ou dramática, mas a volta certa, como o crepúsculo. Quando ele chegou perto, ela estendeu a mão e tocou levemente seu braço, um gesto de posse tranquila e de entrega.
“Leva-me contigo,” disse, e sua voz era baixa, mas clara como água de fonte. “Sigamos a rédea solta do desejo.” Mas não era um desejo juvenil e cego. Era o desejo que nasce da memória partilhada, da aliança. “A minha mãe me ensinaria, e eu te daria a beber do vinho aromático, do sumo das minhas romãs.”
Ele a fitou, e nos seus olhos ela via refletida a mesma vinha, o mesmo pôr-do-sol, mas através do prisma de sua própria alma. Sem palavras, ele entendeu o convite. Era um banquete de intimidade, um retorno às origens, mas com a complexidade rica dos frutos maduros. A mão dele encontrou a dela, e os dedos se entrelaçaram. Não havia pressa. O tempo, agora, era um aliado, não um perseguidor.
Ela puxou-o suavemente para sentarem-se à sombra de uma figueira brava. “A tua mão esquerda esteja debaixo da minha cabeça, e a tua mão direita me abrace.” A petição era antiga, repetida de outros cantos, mas aqui ganhava uma solenidade nova. Era a reafirmação de um pacto que os ventos e as intempéries não haviam conseguido desgastar. E ele a abraçou, e seu abraço era como os muros de Jerusalém: fortaleza e lar.
Então, Sulamita falou, e suas palavras pareciam dirigidas a uma plateia invisível, aos irmãos hipotéticos de sua juventude, ou talvez às próprias forças da vida. “Irmã nossa é pequena, e ainda não tem seios; que faremos por nossa irmã, no dia em que ela for pedida em casamento?” Era uma lembrança, um eco de uma proteção familiar quase esquecida. E ela mesma respondia, com a sabedoria de quem já atravessou o fogo: “Se ela for um muro, edificaremos sobre ela uma torre de prata; e, se for uma porta, cercá-la-emos com tábuas de cedro.”
Ela fez uma pausa, sentindo o ritmo do coração dele contra suas costas. “Eu sou um muro,” sussurrou, desta vez só para ele. “E os meus seios são como as suas torres.” A vulnerabilidade da juventude havia se transformado em fortaleza. A entrega não era mais uma rendição, mas uma escolha sustentada por alicerces profundos. “Então, fui aos seus olhos como aquela que acha paz.”
Houve um longo silêncio, preenchido apenas pelo canto dos grilos que anunciavam a noite. Então, ele falou, e sua voz era grave, marcada pelo trabalho e pela devoção. “Teve Salomão uma vinha em Baal-Hamon; arrendou essa vinha a uns guardas; e cada um lhe devia trazer, pelo seu fruto, mil peças de prata.” Ele olhou para os vales abaixo, onde as vinhas deles próprios começavam a se perder na penumbra. “A minha vinha, que é minha, está diante de mim.”
Ela compreendeu a linguagem da economia e da posse que ele usava. Era a linguagem do mundo dos homens, dos reis e das transações. Mas ele a subvertia. A vinha dele não era um negócio distante, arrendado. Estava diante dele. Ela era a vinha dele. E ela, dona da sua própria vinha, a entregava a ele livremente. “As mil peças são tuas, ó Salomão,” disse, com um fio de ironia terna no uso do nome real, “e duzentas para os que guardam o seu fruto.”
A noite caíra de vez quando ele se voltou para ela, e seus olhos brilhavam no escuro. “Ó tu, que habitas nos jardins, os companheiros estão atentos para ouvir a tua voz; faze-me, pois, também ouvi-la.”
Ela sorriu, e neste sorriso havia toda a segurança de um amor testado. A voz dela não era mais algo a ser escondido, um segredo de alcova. Os “companheiros”, o mundo, que ouvissem. O que ela tinha a dizer era simples e eterno. Inclinou-se para perto dele, até que seu hálito se misturasse ao dele no ar fresco da noite.
“Foge, amado meu,” começou, num tom quase cantante, “e assemelha-te ao gamo ou ao filho do veado sobre os montes dos aromas.”
Era um novo “fuge”, mas diferente do primeiro, aquele dito no princípio, cheio de ansiedade e de busca. Este era um convite para a fuga perpétua, para a dança contínua de dois que se conhecem e, por se conhecerem, nunca se esgotam. Era a chave do seu cântico. O amor não era um lugar para se chegar e ficar estático. Era um movimento constante, sobre os montes dos aromas, sempre renovado, sempre perseguido e sempre encontrado.
E eles ficaram ali, entrelaçados sob a figueira, enquanto as estrelas, como pequenas fagulhas do grande selo do amor, se acendiam uma a uma no manto escuro do céu. O poema findava, mas a história, eles sabiam, era apenas um capítulo que se encerrava para que outro, nas mesmas montanhas, sob o mesmo céu, pudesse começar. Porque, como ela pensara tantas vezes, e como agora sentia na pele arrepiada pelo sereno, muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo.




