Bíblia em Contos

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Bíblia

Vigília na Terra Seca

O sol da tarde pesava sobre Judá como uma manta de chumbo. O ar, parado, carregava não só o calor, mas um fedor doentio que vinha da cidade baixa – mistura de lixo, suor e desespero. Eu, Efraim, viúvo e com os ossos já cansados da enxada, olhava da minha pequena parcela de terra rachada para as muralhas de Jerusalém. Não era um dia diferente de qualquer outro nos últimos anos. O rei, cercado por aqueles que sussurravam bajulações em troca de moedas, parecia cada vez mais distante. Os juízes vendiam sentenças no mercado como frutas podres. E os nobres? Estes só pensavam em construir casas maiores, com vinhedos mais extensos, mesmo que para isso tivessem de esmagar as terras dos pequenos como eu.

Lembro-me de que naquele dia, minha filha Raquel, de apenas oito anos, veio até mim com os olhos arregalados. “Pai, o velho profeta está na praça. Ele fala coisas que ninguém mais fala.” O coração, um órgão já entorpecido pela fadiga, deu uma estranha pancada dentro do peito. Isaías. Aquele homem cujas palavras eram como fogo e gelo. Deixei a enxada encostada no muro de pedras soltas e peguei a mão dela. “Vamos ouvir, filha.”

A praça principal não era um lugar de justiça, mas de exibição. Os “valentes”, como eram chamados os que tinham poder, circulavam com suas túnicas finas, planejando opressões em voz baixa e sorrisos altos. O liberal, aquele que deveria defender o direito do pobre, passava com os olhos vazios, suas mãos abertas apenas para receber subornos. E o que falava de retidão? Este estava ocupado armando ciladas com palavras melífluas, tecendo mentiras como teias para apanhar os incautos. O cenário era uma pintura viva da podridão. Um tolo era chamado de nobre, e o vil, de generoso. Tudo estava de cabeça para baixo.

E no meio daquele turbilhão de vaidade e corrupção, estava ele. Isaías. Não em um púlpito, não cercado por discípulos. De pé sobre um degrau baixo da escadaria do palácio, como se fosse uma pedra que todos evitavam pisar. Seu rosto era austero, mas não irado. Havia uma tristeza profunda em seus olhos, uma tristeza que parecia conhecer o fim de todas aquelas farsas.

Sua voz, contudo, não era triste. Era clara e cortante como uma lâmina no ar pesado.

“Até quando vocês vão celebrar a festa da própria ruína?”, ele começou, e um silêncio inquieto começou a se espalhar. “Olhem para as mulheres do povo, tão confiantes! Ouçam-me, ó filhas em segurança: dentro de um ano e alguns dias, vocês tremerão. A colheita da uva falhará, a safra não virá. Sacudam-se, ó complacentes! Estremeçam, ó despreocupadas! Tirem suas vestes, cingam-se de pano de saco, batam no peito pelos campos férteis que se tornarão espinheiros, pela videira frutífera que dará lugar ao arbusto silvestre.”

Minha mão apertou a de Raquel. Eu conseguia ver. Consegua ver os campos que eu mesmo cultivava, já tão fracos, transformados em matagal imprestável. Consegua sentir o gosto da fome, que já era um velho conhecido à porta, entrando de vez na casa. Era uma profecia de desolação pura, e ela caía sobre nós com o peso da verdade mais crua. Alguns riram, nervosos. Outros baixaram a cabeça. Um dos “valentes” cuspiu no chão e virou as costas.

Mas então, algo mudou no tom de Isaías. Não foi uma mudança súbita, mas como a primeira gota pesada de chuva após uma seca interminável. Ele ergueu o rosto, e seus olhos pareciram fixar-se em algo muito além das muralhas, além do tempo presente.

“Mas…” a palavra ecoou. “Mas um rei reinará para justiça. E príncipes governarão para o direito.” A praça ficou totalmente imóvel. Até os vendedores de água pararam seu pregão. “E aquele homem”, continuou Isaías, e sua voz agora tinha um timbre diferente, mais profundo, quase maternal, “será como um esconderijo contra o vento, um refúgio contra a tempestade. Como riachos de água em terra seca. Como a sombra de uma grande rocha em terra cansada.”

Eu senti minhas pernas fraquejarem. Era como se alguém tivesse aberto uma janela em um cômodo abafado há décadas. Um *rei*? Nossa realidade era de príncipes corruptos. *Justiça*? Era uma mercadoria rara. *Refúgio*? Só conhecíamos a exposição ao arbítrio. Minha alma, ressequida, começou a beber daquelas palavras como de um riacho que Isaías mesmo descrevia.

Ele pintou então um mundo transformado. “Os olhos dos que vêem não estarão mais fechados, e os ouvidos dos que ouvem estarão atentos. O precipitar-se do insensato será chamado de insensatez, e o vil não será mais chamado de generoso.” Era uma cura da percepção, um fim da grande mentira que governava nossas vidas. O tolo não seria mais um herói. E o mentiroso seria nomeado pelo que era. Simples. Revolucionário.

E ele falou dos verdadeiros nobres. Não os de nascimento ou roupa fina, mas os que planejam coisas nobres. E, firmes em seus propósitos nobres, permanecem. Aqueles que não se dobram ao vento da conveniência.

A profecia então desceu do trono para a terra, para o chão que eu pisava todos os dias. “E meu povo habitará em terras pacíficas, em moradas seguras, em repousos tranquilos.” Olhei para Raquel. Seu rosto, antes curioso, estava agora sereno, absorto. Ela não entendia toda a política, mas entendia a promessa de um *lugar seguro*. Isaías falou de uma tempestade de granizo que cairia sobre a floresta – a arrogância dos poderosos seria nivelada –, mas a cidade baixa, o lugar dos humildes, seria abençoada. “Felizes são vocês que semeiam junto a todas as águas, que soltam livremente o pé do boi e do jumento.”

Era uma agricultura da alma. Semear junto às águas daquele Espírito que ele prometia que seria derramado do alto. A liberdade final, até para os animais, do jugo da opressão. A paz não seria só entre os homens, mas em toda a criação.

O profeta calou-se. Aos poucos, a praça voltou a se mover, mas o ar era diferente. O fedor ainda estava lá, a poeira também. Mas agora havia uma semente. Uma semente de futuro plantada no solo árido do presente.

No caminho de volta para nossa casa, Raquel me puxou a túnica. “Pai, aquele homem falou de riachos na terra seca.”
“Falou, minha filha.”
“Nossa terra é seca, pai.”
Eu parei e olhei para o nosso pequeno campo, para as videiras minguadas. E então olhei para o horizonte, onde o sol começava a se pôr em tons de púrpura e ouro.
“É, Raquel. É muito seca. Mas ele não falou só da terra. Falou do coração. E o coração… o coração pode começar a regar a terra.”

E naquela noite, pela primeira vez em anos, cavei um pequeno sulco na borda do campo, não por obrigação, mas por esperança. Uma esperança teimosa e quieta, que não vinha dos palácios, mas de uma palavra lançada como semente em uma praça empoeirada. A justiça ainda não vinha. O rei justo ainda era uma promessa no horizonte. Mas o Espírito, aquele riacho, já começava a correr dentro de mim, tornando a espera, não mais um fardo, mas uma vigília. Uma vigília na terra seca, à espera da chuva.

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