Bíblia em Contos

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O Oleiro e os Cacos

A poeira da Babilônia não era como a poeira de Jerusalém. Aqui, era um pó fino e pálido, que subia em redemoinhos preguiçosos sob um sol opressor e se depositava sobre tudo, inclusive sobre a alma. Azarias sentia-o nas pregas de suas vestes, no gosto amargo da água, no peso úmido do ar ao entardecer. Sentado à sombra raquítica de uma acácia importada, olhava as águas lentas do Eufrates, mas seus olhos viam outros rios, outras colinas.

Lembrava-se dos montes em fúria. Era essa a memória que mais o assaltava, não as festas ou as pazes douradas, mas a manifestação terrível. Em sua mente, o Sinai não era uma história: era uma sensação física. O ar carregado de ozônio antes da tempestade, o silêncio espesso que pesava sobre o acampamento, depois aquele som que não era som, mas uma ruptura no tecido do mundo. O monte tremendo como uma fera viva, envolto em fumo, e o fogo que descia não como chama, mas como presença viva e devoradora. “Ah, se tu rasgasses os céus e descesses”, murmurava, e a palavra “descesse” queimava-lhe a língua. Não era um pedido de milagres cotidianos. Era um anseio por aquela ruptura catastrófica e bela, por um Deus que viesse como fogo consumidor e não como sombra distante na poeira babilônica.

Seu neto, um menino de talvez sete anos, aproximou-se e se encostou em seu ombro. “Avô, por que Deus não nos ouve?”

Azarias colocou uma mão áspera sobre a cabeça da criança. Como explicar? A culpa era um manto pesado, costurado por gerações. Olhou para as próprias mãos, calejadas pelos trabalhos impostos pelos caldeus. “Nossas justiças”, pensou, “são como trapo de imundícia.” A frase do profeta ecoava dentro dele com a força de uma revelação dolorosa. Não era apenas sobre os pecados gritantes, os ídolos de olhos vazios. Era sobre o orgulho disfarçado de piedade, a observância meticulosa da lei que esfriava o coração, as orações que haviam se tornado repetições ocas, como o bater de um martelo sobre metal frio. Eles haviam murchado, como folhas outonais, e o vento do exílio as havia arrastado para longe.

A memória do Templo era uma dor fantasma. Lembrava-se do cheiro do incenso, do brilho do ouro batido à luz das lâmpadas, do murmúrio contínuo das orações no pátio. Mas acima de tudo, lembrava-se do silêncio do Santo dos Santos, daquele véu pesado que ocultava uma presença tão intensa que parava a respiração. Agora, tudo aquilo era cinza. O fogo da ira divina, sim, aquela que descera dos montes, havia voltado-se contra a própria cidade santa. E Deus, em sua santidade impenetrável, parecia ter-se retirado para sua eternidade, deixando-os à mercê da consequência de suas escolhas.

O menino brincava com um caco de cerâmica no chão. Azarias sentiu uma onda de ternura e desespero. Esta criança nascera no exílio. Sua ideia de pátria era este rio estrangeiro, esta terra de ídolos. E, no entanto, era barro nas mãos do Oleiro. Todos eram. O profeta tinha razão: eles eram o barro, e Deus, o artífice. Mas o vaso havia se quebrado. A pergunta que latejava era: o Oleiro jogaria os cacos fora? Remodelaria a mesma massa, impura e mesclada com cisco?

A tarde caía, tingindo o rio de um vermelho ferrugem. Azarias levantou-se com dificuldade, as juntas rangendo. A oração que vinha crescendo dentro dele não era mais um lamento elegíaco. Tornara-se algo mais cru, mais urgente, uma súplica que nascia das entranhas da desgraça.

“Senhor”, sussurrou, olhando para o céu que se fechava em púrpura, “não te ire para sempre. Não guardes memória da iniquidade para sempre. Olha, por favor: todos nós somos teu povo. Tuas cidades santas são um deserto. Sião é um ermo, Jerusalém, uma desolação. A casa de nossa glória e de nossos pais, onde te louvávamos, foi consumida pelo fogo. Tudo o que tínhamos de precioso virou ruína. Diante de tudo isto, tu ainda te conterás, Senhor? Ficarás em silêncio e nos afligirás tanto?”

Não havia resposta imediata. Apenas o coaxar distante de um sapo nas margens do rio. Mas, ao voltar para a casa de tijolos de barro, Azarias sentiu um peso diferente. Não era alívio, mas uma resignação funda, uma entrega. A oração não havia aberto os céus. Mas, de algum modo, havia perfurado o céu de bronze de sua própria angústia. O Deus que escondia o rosto ainda era Pai. O Oleiro, mesmo diante do vaso quebrado, ainda segurava os cacos em suas mãos. E, naquele silêncio que seguia o grito, havia uma promessa não dita: a de que o fogo que consome também purifica, e que as mãos que moldam o barro são as mesmas que podem recolher seus fragmentos e, com paciência infinita, começar novamente.

O exílio continuaria. A poeira da Babilônia ainda cobriria tudo. Mas, naquela noite, pela primeira vez em muitos anos, Azarias sonhou não com o fogo da destruição, mas com a chama baixa e constante de um forno de oleiro, aquecendo o barro, preparando-o para ser refeito.

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