O rio era largo, lamacento e estranho. Suas águas não tinham a voz familiar do Quisom, nem o frescor dos regatos que desciam das colinas de Judá. Aqui, na Babilônia, o Eufrates movia-se com uma preguiça opressora, carregando em suas correntes a poeira de um império que não era o nosso. O calor da tarde pesava sobre nós como um manto úmido, misturando-se ao cheiro de terra alagada e especiarias distantes.
Nós nos assentávamos à sua margem, não por vontade, mas por um hábito vazio. Era um lugar aberto, longe dos olhos curiosos e dos ouvidos ávidos por espetáculo dos nossos captores. As palmeiras, altas e imperiais, lançavam sombras compridas que pareciam querer nos prender ao chão. Meus dedos, calejados de anos de trabalho nas obras dos caldeus, passavam sem sentir sobre as cordas da minha lira. O instrumento estava empoeirado, ressecado. Parecia um corpo estranho em minhas mãos, um ossário de memórias.
Foi então que eles vieram. Não os soldados, mas alguns dos nossos, os mais jovens, os que já começavam a esquecer o sotaque de Jerusalém. Seus rostos estavam marcados mais pela confusão do que pela dor. Um deles, de olhos claros e inquietos, apontou para a lira.
— Canta para nós — pediu, e a voz dele tinha uma fome que me cortou. — Uma das canções de Sião. Uma daquelas que falavas ao cair da noite, antes de o sono nos levar.
O silêncio que se seguiu foi mais denso que o ar quente. Olhei para os homens ao meu redor, meus companheiros de exílio, de cabelos grisalhos prematuros e olhos fundos. Vi a mesma tempestade se formando neles. Um deles, Abias, que perdera três filhos no cerco, fitava o rio como se pudesse ver seus mortos flutuando na correnteza lenta.
— Como entoaremos o canto do Senhor — minha voz saiu rouca, farinhenta — em terra estranha?
A pergunta pairou. Não era retórica. Era uma ferida aberta. Cantar ali, naquele lugar de ídolos de barro e ouro, sob aquele céu tão azul que parecia falso, seria como profanar cada memória. Seria reduzir o júbilo do Templo, a solenidade das festas, o clamor dos peregrinos, a um entretenimento para matar o tédio do cativeiro. Seria como vestir as vestes sagradas para uma pantomima.
Os jovens não entenderam. O de olhos claros insistiu, com uma leve impaciência:
— É só uma canção. Nos trará um pouco de alegria.
Foi quando Abias se virou. Seus olhos, normalmente mortiços, brilharam com uma chama seca e terrível.
— Alegria? — cuspiu a palavra. — Que tu tua mão direita se paralyse, que tu tua língua se cole ao teu paladar, se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém. Se eu não preferir Jerusalém à minha maior alegria.
As palavras dele, ecoando o lamento que todos carregávamos no peito, caíram como uma maldição solene. Os jovens recuaram um passo, intimidados não pela raiva, mas pela imensidão daquela dor que eles ainda não tinham aprendido a nomear. A canção não era apenas melodia. Era geografia sagrada. Era o som dos degraus do Templo, o eco nos átrios, o rumor do mercado na cidade de Davi. Cantá-la aqui seria arrancá-la de seu solo, e ela murcharia, tornando-se um fantoma de som.
Lembrei-me então, não de um evento, mas de uma sensação: o cheiro do incenso no ar fresco da manhã, misturado ao aroma do pão assado nas portas da cidade. Lembrei do peso da lira quando a tocava não por obrigação, mas porque a alegria transbordava e precisava de um rio por onde correr. Agora, o rio era este, o Eufrates, e suas águas só carregavam o peso do nosso silêncio.
Os opressores, é claro, adorariam ouvir nosso canto. Seria a prova final da nossa derrota, a domesticação final do nosso espírito. “Vejam”, diriam, “os prisioneiros se divertem! Adaptaram-se.” E bateriam palmas ao ritmo de uma música cujo significado profundo lhes escaparia completamente. Seria a nossa humilhação vestida de entretenimento.
A tarde começou a morrer, tingindo o rio de um sangue escuro. O jovem de olhos claros já se fora, desiludido. Ficamos nós, os velhos, os que carregávamos Jerusalém não como uma lembrança, mas como um membro fantasma que ainda doía. Abias sussurrou, mais para o vento que para mim:
— Filha de Babilônia, devastadora… Feliz aquele que te retribuir o mal que nos fizeste. Feliz aquele que pegar teus pequeninos e esmagá-los contra a rocha.
As palavras eram ásperas, venenosas, nascidas de uma dor que não encontrava chão para escorrer senão no desejo de uma vingança cósmica e terrível. Não eram uma oração elegante, não eram um salmo bem comportado. Eram o grito gutural de um homem que vira o santuário profanado e seus filhos tombarem. A teologia daquela hora não cabia em doutrinas tranquilas. Era a teologia do pranto preso na garganta, da fé que, sem deixar de ser fé, roía as próprias entranhas de revolta.
Guardei minha lira no pano grosso. O som que ela faria ali não seria música, seria apenas o ruído seco de uma madeira ressecada. A verdadeira canção estava suspensa, guardada num lugar que nenhum exílio podia tocar. Ela esperaria. Esperaria até que os pés, estes mesmos pés calejados e empoeirados, voltassem a pisar, nem que fosse só uma vez, nas pedras irregulares dos caminhos que levavam a Sião. Só então as cordas vibrariam de novo, e a voz, livre do nó do cativeiro, encontraria sua melodia. Até lá, tínhamos o rio, o silêncio, e a memória inegociável que era, ao mesmo tempo, nosso fardo e nossa única posse verdadeira.




