Bíblia em Contos

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O Salmo do Vale

Era o terceiro dia que a febre não arrefecia. Elitzaf, sentado à beira do estreito leito de madeira, sentia o suor escorrer pelas têmporas e se perder na barba crespa, já grisalha antes do tempo. O quarto, pequeno e sombrio, cheirava a ervas amargas e a lã úmida. Uma lamparina de barro combatia, sem convicção, a penumbra da tarde que se infiltrava pela única janela estreita. Ele, o cantor, o harpista de Davi, cuja voz já ecoara nos pátios do palácio, agora mal conseguia engolir um gole de água sem um acesso de tosse seca que lhe parecia rasgar o peito.

A doença era apenas parte do seu cárcere. A outra, mais dolorosa, vinha dos sussurros que chegavam até ele, mesmo através da espessa porta de cedro. Servos que antes lhe traziam presentes, agora passavam rápidos pelo corredor, e ele ouvia, nítido, o fragmento de uma frase: “…o próprio Senhor o abandonou.” Um amigo, Simá, aquele com quem dividira o pão e os segredos nos anos de fuga pelo deserto, não vinha mais visitá-lo. Mandara apenas um recado vago por um servo menor, desejando “rápida recuperação”, mas o tom foi frio, administrativo. Elitzaf fechou os olhos e viu, como se fosse ontem, a fogueira no acampamento de Queila, e Simá rindo, compartilhando uma tigela de lentilhas quentes. “O meu amigo íntimo, em quem eu confiava, que comia do meu pão, levantou contra mim o seu calcanhar.” A frase dos Salmos, que ele mesmo musicara, agora tinha o gosto de fel em sua boca.

A noite piorava a solidão. Na vigília, entre o delírio e a lucidez, suas memórias se misturavam. Lembrava-se do olhar do rei, nos primeiros tempos. Davi, com aquela estranha mistura de ferocidade e ternura, colocara a mão em seu ombro após ele cantar um cântico novo. “Bem-aventurado é aquele que atende ao pobre; o Senhor o livrará no dia do mal.” Ele, Elitzaf, atendera. Fora o intercessor dos levitas menos favorecidos, o que argumentara por uma parte mais justa das ofertas para os órfãos das famílias dos cantores. Fizera inimigos, é claro. Os administradores do tesouro do templo olhavam-no com desconfiança. Agora, na sua fraqueza, esses inimigos sussurravam. Espalhavam que sua doença era um castigo, um sinal de alguma impureza oculta. “Os meus inimigos falam mal de mim, dizendo: ‘Quando morrerá, e perecerá o seu nome?’”

Uma tarde, pior que as outras, ele sentiu o último fio de força se esvair. A febre era um fogo que consumia seus ossos. A língua, grudenta, parecia de palha. Em um momento de rara clareza, fitou a lamparina quase sem óleo. A chama vacilava, pequena e frágil. Como a sua vida. Um pensamento, então, brotou não como um grito, mas como um suspiro rachado, uma prece tão profunda que nem palavras tinha. Era apenas um direcionar da alma para a escuridão acima do teto, uma entrega silenciosa. “Tu, porém, Senhor, tem misericórdia de mim e levanta-me…”

Não houve visões. Nenhum anjo desceu pela fresta da janela. Mas, na madrugada seguinte, após um sono pesado e suado, Elitzaf acordou. A dor de cabeça, que era um martelo constante, amainara. A queimação da febre dera lugar a um cansaço profundo, mas limpo. Ele conseguiu se sentar na cama, com esforço, e viu o primeiro filete de luz do amanhecer cortando a escuridão do quarto. Não era a cura completa – a fraqueza ainda o prendia ao leito – mas era o recuo inequívoco da sombra.

Os dias que se seguiram foram de lenta recuperação. A força voltava aos poucos, como a água voltando a um riacho seco após a primeira chuva. A primeira visita foi de um jovem levita, neto de um homem a quem Elitzaf ajudara anos antes. Trouxe pão fresco, azeitonas e queijo de cabra. “Ouvi que o senhor estava melhor”, disse o jovem, os olhos cheios de respeito. Outros vieram, timidamente. Não eram muitos, mas eram sinceros.

E então, uma manhã, Elitzaf sentiu-se forte o suficiente para se arrastar até o pequeno banco, debaixo da janela. Pegou a sua harpa, empoeirada, e a cítara de madeira clara. Os dedos, fracos, buscaram as cordas. A primeira nota saiu trêmula, desafinada. Ele respirou fundo, e tentou novamente. Desta vez, uma melodia antiga, simples, emergiu. E com ela, as palavras. Não eram as mesmas de antes da doença. Tinham a marca do vale. “Tu me sustentas na minha integridade e me colocas na tua presença para sempre.” A voz era rouca, sem potência, mas cada sílaba tinha o peso da experiência.

Ele não cantava sobre uma vitória estrondosa. Cantava sobre ter sido sustentado. Sobre não ter sido entregue à vontade dos seus inimigos. Sobre a misericórdia que não se baseia em mérito, mas no caráter eterno do Eterno. A teologia, para Elitzaf, deixara de ser um conjunto de afirmações para se tornar o chão firme que ele sentira sob seus pés quando tudo mais escorregava.

Simá nunca reapareceu. Os boatos minguaram, substituídos por outros assuntos da corte. Elitzaf sabia que a maldade não desaparecera do mundo; apenas seu refúgio nela fracassara. A vida seguiu, mais silenciosa, mais consciente. Ele escreveu, em um rolo de couro fino, não apenas o salmo que já conhecia, mas as suas próprias anotações à margem: “A fraqueza é a lente que melhor focaliza a força de Deus. A traição dos íntimos é o selo que autentica a fidelidade do Único.”

E, ao final de seus dias, quando novamente se deitasse no leito, desta vez com a paz dos anos completos, sua última oração seria um eco daquela noite de febre. Não um grito de desespero, mas um sussurro de reconhecimento. Pois havia aprendido, na pele e na alma, que mesmo na beira do abismo, há uma mão que sustenta. E que isso, no fim de todas as coisas, era mais que suficiente. Era tudo.

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