Bíblia em Contos

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A Luta de Asafe no Calor

O sol de Jerusalém amassava as pedras da rua, tornando o ar espesso e difícil de respirar. Asafe, com os pés empoeirados e a túnica colada às costas, caminhava sem destino certo, mas com um peso no peito que era mais que o calor. Ele vinha do mercado, onde os pregões dos comerciantes pareciam ecoar uma verdade que lhe corroía a alma.

Por dias, semanas quiçá, um rumor amargo tomara conta do seu pensamento. Era uma voz sussurrante, insistente, que lhe mostrava os ímpios. Não os bandidos grosseiros das estradas, mas os outros. Os que frequentavam o templo com sorrisos polidos, cujas mãos, untadas de óleo perfumado, erguiam-se em falsa piedade. Ele os via, dia após dia. Matusal, o mercador, cujas caravanas traziam tecidos finos e especiarias raras, e cujas medidas, todos sabiam, eram falsas. A sua barriga era um odre cheio, seus filhos robustos e vestidos de linho fino. No sábado, ele ocupava um lugar de honra perto dos levitas, sua voz era a mais sonora nas amens.

E Ana, a viúva do conselheiro real. Ah, Ana… com suas joias que tilintavam suavemente, fruto de heranças duvidosas e acordos nas sombras dos palácios. Seus olhos eram frios, mas sua língua era hábil em dobrar a lei a seu favor. Ela não conhecia o infortúnio, dizia o povo. Seus passos eram firmes, seu futuro, uma tapeçaria previsível de conforto.

Asafe entrou em sua casa, uma habitação simples de pedra, fresca na penumbra. Sentou-se à mesa de madeira áspera, mas não tocou no pão azedo que lá estava. Olhou para as próprias mãos, calejadas do serviço no templo, da composição dos cânticos, do cuidado com os instrumentos. A alma dele estava em brasa. Um fogo de injustiça e de uma pergunta terrível, que não ousava formular em voz alta, mas que rugia dentro dele: “De que vale a minha integridade?”

Ele pegou um rolo de pergaminho em branco e um estilete. As palavras saíram tortas, carregadas de veneno: “Quanto a mim, os meus pés quase se desviaram; por pouco não escorregaram. Pois eu invejava os arrogantes, quando via a prosperidade desses ímpios.” Escrevia e a imagem deles vinha, nítida e ofensiva. Nenhuma dor nos seus últimos dias, corpos sadios e bem alimentados. A violência que praticavam ficava presa nas garras do poder, não voltava para feri-los. A arrogância era a sua grinalda, a violência, o seu manto.

“Da boca deles brota a soberba; ameaças de opressão estão na sua língua. Fixam os seus olhos altivos no céu, e com a língua percorrem a terra.” Asafe via os olhos de Matusal, que pareciam medir até Deus, e a língua de Ana, que percorria a cidade semeando rumores e colhendo vantagens. E o povo, o povo simples, bebia das suas palavras. “Como pode Deus saber? Existe conhecimento no Altíssimo?” Os ímpios prosperavam, e o povo, na sua fadiga, começava a duvidar. E com eles, o coração de Asafe.

Ele abandonou o estilete. Os dias se tornaram cinza. Os salmos que compunha para o culto soavam vazios em seus próprios ouvidos. Cantar sobre a justiça do Eterno era como mastigar areia. Ele cumpria seus ritos mecânico, vendo a prosperidade dos outros como um espinho cravado na córnea, turvando toda a visão. Tentou entender, raciocinar, mas era um labirinto. “Até que entrei no santuário de Deus; então compreendi o fim que os espera.”

Não foi um momento dramático. Foi um dia como outro qualquer, de serviço no átrio do templo. O sol da manhã entrava oblíquo, iluminando o véu. O aroma do incenso misturava-se ao cheiro da cera e da pedra antiga. Ele estava ajustando a harpa, seu ofício, quando o silêncio, que era diferente do silêncio da sua casa vazia, desceu sobre ele. E naquela quietude sagrada, uma percepção gelada e clara atravessou-o.

Ele não viu visões. Compreendeu. Compreendeu a natureza do chão onde os ímpios estavam firmados. Não era rocha; era lodo. Toda aquela segurança era ilusão, um castelo de areia na beira de um mar que não perdoa. A prosperidade deles não era um sinal do favor de Deus, mas sim uma sentença adiada. “Certamente os colocas em terreno escorregadio e os fazes cair na ruína.” Viram-se subitamente, na mente de Asafe, não como gigantes, mas como estátuas de sal, prestes a serem dissolvidas pela primeira chuva da verdade. Que despertar terrível lhes aguardava! Não seria uma simples reversão de fortuna. Seria o desmoronamento de um mundo inteiro, uma queda vertiginosa para o nada.

Um tremor percorreu Asafe. Não de medo, mas de um alívio avassalador, seguido de uma vergonha profunda. Ele havia sido um insensato. Um animal bruto, guiado apenas pelo que seus olhos cobiçavam. “Contudo, estou sempre contigo; tomas a minha mão direita.” A presença que ele julgara ausente estava ali, constante, sustentando-o mesmo no seu período de cegueira amarga. O conforto dos ímpios era uma miragem. A sua própria angústia, sim, aquela dor lancinante da dúvida, era um sinal de que ele não estava satisfeito com a miragem. Era fome por algo real.

“A quem tenho eu no céu senão a ti? E na terra, nada mais desejo além de estar junto a ti.” As palavras brotaram não como um hino decorado, mas como a única afirmação possível, óbvia e despojada de tudo. Toda a prosperidade do mundo, colocada numa balança, pesava menos que o pó comparada a isso: estar junto. O seu coração, que era de carne e se acabrunhara, agora se derretia em algo novo. A força deles, a saúde, o brilho falso – tudo era casca vazia.

Ele saiu do templo quando as sombras da tarde alongavam-se. A mesma Jerusalém, o mesmo calor. Mas o mundo era outro. O sucesso de Matusal não lhe era mais um espinho, era uma tragédia. A frieza de Ana, uma prisão. Ele olhou para o céu, agora de um azul profundo, e sentiu uma paz áspera, não suave. A justiça pertencia a Deus. No seu tempo. O fim da história já estava escrito no santuário da eternidade.

Mais tarde, na lamparina vacilante, ele voltou ao pergaminho. Na primeira parte, rabiscada com raiva, ele acrescentou, com uma calma letra firme: “Mas, para mim, bom é aproximar-me de Deus; fiz do SENHOR Deus o meu refúgio, para anunciar todas as suas obras.” O salmo estava completo. Não era mais um lamento, mas um testemunho. Um caminho que partiu da inveja, passou pela escuridão da dúvida, e encontrou, não uma resposta fácil para o sofrimento, mas uma Presença que transformava a própria pergunta. O peso tinha ido embora. No seu lugar, ficou o cansaço do viajante que enfim vê, ao longe, os muros da cidade para onde sempre se dirigiu, mesmo quando achava que estava perdido.

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