Bíblia em Contos

Bíblia em Contos

Bíblia

O Pacto do Povo

O sol da manhã fincava suas garras de calor sobre as pedras de Jerusalém, mas na praça diante do portão das Águas, ninguém parecia notar. O ar estava carregado de um peso diferente, mais denso que a poeira que subia das sandálias da multidão. Homens, mulheres e crianças capazes de entender estavam ali, uma massa compacta de rostos sérios, vestes simples, olhos fixos na plataforma onde Neemias, o governador, se erguia ao lado dos sacerdotes e levitas.

Havia um silêncio peculiar, não o silêncio vazio, mas um que estava cheio de sussurros interrompidos e da respiração contida de uma decisão iminente. O rosto de Neemias, marcado pelas vigílias noturnas nos muros e pela fadiga da reconstrução, parecia talhado em madeira de oliveira antiga. Ao seu lado, Esdras, o escriba, segurava o rolo da Lei com uma reverência que era quase física. Os nomes dos líderes já haviam sido declarados, selando o pacto com a autoridade que lhes era conferida. Mas agora, aquela assembleia toda, o povo comum, estava sendo chamado a entrar na mesma história.

Um levita de voz clara, um jovem de nome incomum como Hasabias, ergueu-se para ler os termos. Suas palavras não eram complexas, mas cada uma caía como uma pedra no lago tranquilo daquelas consciências.

“Não daremos nossas filhas aos povos da terra, e não tomaremos suas filhas para nossos filhos.” A frase ecoou, e nos rostos muitos lembraram. Lembraram do sotaque estranho na rua, dos costumes que pareciam inocentes mas que lentamente apagavam a memória de Abraão, de Moisés, do Êgar. Lembraram de parentes em Sefela ou em Betel que já não distinguiam mais o que era do SENHOR e o que era de Moloque. Uma mulher, perto de mim, apertou a mão da filha adolescente com uma força que branqueou seus nós dos dedos.

“E se os povos da terra trouxerem mercadorias ou qualquer cereal para vender no dia de sábado, nada compraremos deles.” Ouvia-se, aqui e ali, o ruído seco de alguém mudando o peso dos pés. O sábado. Quantas vezes, na pressão da vida, o descanso parecia um luxo, um obstáculo ao comércio magro que sustentava as famílias? Um homem, cujas mãos mostravam os cortes de quem trabalhava o linho, fechou os olhos. Talvez visse os fenícios ansiosos, seus tecidos coloridos e especiarias, e a tentação de uma moeda extra. Mas ali, sob aquele sol e diante daquele pacto, o sábado ressurgia não como perda, mas como ganho: uma trégua sagrada, um respirar em uníssono com o ritmo do Criador.

A lista continuava, minuciosa, prática, penetrando nas frestas da vida cotidiana. O ano sabático, a remissão das dívidas. Um murmurinho de ansiedade percorreu a fileira dos mais abastados. Perder o fruto da terra no sétimo ano? Deixar de cobrar o que era devido? Era um risco calculado sobre a promessa de que Deus proveria. Vi o rosto de um dos líderes, um certo Pasehur, contrair-se por um instante. Sua assinatura já estava no documento. Não havia volta.

E então, veio o ponto que fez todos respiraram fundo: o imposto anual para o serviço do Templo. Um terço de um siclo. Pouco? Muito? Não era a quantia, era o símbolo. Era admitir que a casa de Deus, sua manutenção, a lenha para o altar, os grãos para as ofertas, os óleos, tudo isso dependia deles, daquela gente de mãos calejadas e bolsas não muito cheias. Era assumir a responsabilidade pelo culto, pela chama que não podia se apagar. Era dizer, com aquelas moedas, “isto é nosso, isto nos importa”.

O levita concluiu. O silêncio retornou, agora mais profundo. Neemias então avançou para a frente da plataforma. Não gritou. Sua voz era áspera, mas chegava a todos, como se fosse conduzida pelo próprio vento quente.

“Hoje”, disse ele, “nós, sacerdotes, levitas e líderes, nos vinculamos sob maldição e juramento. Mas este pacto não é uma parede que separa nós de vocês. É um muro que nos cerca a todos, que protege algo precioso: nossa identidade como povo do SENHOR. Não será um papel guardado. Será a vida de vocês. O que prometemos a Deus irá ditar com quem seus filhos casarão, como vocês gastarão suas sextas-feiras, como olharão para o seu vizheiro endividado. Será difícil. Haverá falhas.”

Ele fez uma pausa, olhando para aquele mar de rostos.

“Mas a promessa de hoje não nasce da nossa força. Nasce da misericórdia que nos trouxe do cativeiro, que nos permitiu reconstruir estes muros. Assinamos porque fomos primeiro assinados por Ele.”

Um sacerdote idoso, de nome Eliasibe, trouxe então o rolo do pacto, já com as assinaturas dos principais. Seguindo-o, outros rolos menores, de papiro, e tinteiros. Os líderes sacerdotais foram os primeiros a se adiantar. Um a um, em meio à solenidade, homens de todas as famílias, chefes de clãs, porteiros, cantores, netineus – os servos do Templo –, e “todo aquele que tinha conhecimento e entendimento”, aproximavam-se. Não era um ato rápido. Cada homem se curvava sobre o papiro, muitas vezes ajudado por um escriba, e traçava seu nome ou sua marca. O som era o do riscar da pena, ocasionalmente um suspiro, o choro discreto de uma criança no colo.

Um homem à minha frente, um tecelão chamado Maaseias, hesitou antes de assinar. Suas roupas ainda cheiravam levemente a lã tingida. Sussurrou, quase para si mesmo: “E a dívida de Azor? Devo perdoá-la no sétimo ano?”. O homem atrás dele, talvez um vizinho, tocou-lhe levemente o ombro. “Assina, Maaseias. Um passo de cada vez. Hoje, assinamos a intenção. Amanhã, com a graça do Eterno, vivemos ela.” Maaseias assentiu, e sua mão, trêmula, traçou os caracteres.

As mulheres não assinavam, mas sua presença era a ratificação silenciosa do pacto. Elas eram as guardiãs do lar, as primeiras educadoras, aquelas que decidiam o que cozinhavam e que histórias contavam. O “não daremos nossas filhas” era um juramento que seriam elas, no dia a dia, a honrar ou quebrar.

A cerimônia se estendeu até a tarde. Quando o último nome foi registrado, um cansaço solene pousou sobre o povo. Mas era um cansaço bom, como o de quem terminou de erguer uma parte fundamental do muro. Neemias ergueu o rolo principal.

“Está feito”, anunciou. “Agora, voltemos às nossas casas. Amanhã, começa o viver deste pacto. Que o SENHOR, grande e temível, que guarda a aliança e a misericórdia, nos guarde no cumprir da nossa palavra.”

A multidão começou a se dispersar, em grupos que conversavam baixo. O sol já se inclinava, projetando sombras longas sobre as pedras da cidade agora murada. Eles iam para casa com algo mais do que trouxeram. Iam com uma assinatura no coração, um compromisso que transformaria o comum em sagrado, o cotidiano em culto. O pacto de Neemias não estava apenas nos papiros; estava nos passos mais lentos daquela gente, no olhar pensativo que lançavam para as portas da cidade, e na silenciosa, firme esperança de que, desta vez, seriam fiéis.

LEAVE A RESPONSE

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *