O sol da tarde poeirava de ouro velho as pedras desgastadas do pátio do Templo. Um vento morno, carregado do cheiro seco do deserto e das cinzas de sacrifícios antigos, agitava as farrapos de um cortinado que outrora fora púrpura. Joás, com os ombros ainda estreitos para o manto real, parou diante do pórtico de entrada. Seus dedos passaram sobre uma fenda profunda na coluna de jaspe, uma cicatriz aberta por anos de abandono. O peso do silêncio era diferente de tudo; não era a paz do Shabat, mas a frieza de uma casa esquecida.
Havia sete anos desde aquele dia sufocante em que os gritos tinham cessado nos aposentos internos do palácio, e o sumo sacerdote Joiada, com suas mãos nervosas e firmes, o colocara sobre o trono. Sete anos sob a asa daquele homem velho, cuja barba branca parecia feita da mesma luz que filtrou pelos querubins do Santo dos Santos. Joiada era seu eixo, sua lei e sua voz. Mas agora, ao olhar para aquela estrutura outrora gloriosa, Joás sentiu pela primeira vez uma vontade que era só sua, um fervor que não vinha do sacerdote, mas de uma memória mais profunda: a memória do tio, do rei Davi, cujos salmos ele murmurava à noite.
Convocações foram enviadas. Não com a pompa de um decreto real, mas com o apelo urgente que Joiada sugeriu, misturando sabiamente a autoridade do trono com a solenidade do altar. Os chefes de Judá, homens de rostos calejados e olhos calculistas, compareceram. Joás falou-lhes, sua voz ainda buscando a gravidade completa da idade adulta, mas carregada de uma convicção inegável. “Por que deixastes a casa do Senhor em ruínas?” A pergunta ecoou no pátio, mais acusação do que inquérito. Ele lhes mostrou as goteiras no teto de cedro, os altares de pedra lascados pelo tempo, as cortinas roídas pelas traças. “Vede o estado das coisas. O rei Acazias, minha mãe Atalia… todos os que se desviaram negligenciaram este lugar. Não é hora de trazermos de volta a glória?”
O plano era simples, quase humilde. Uma arca de madeira de cedro, sem adornos, foi colocada à direita do altar, do lado de fora do Santo Lugar. Um buraco foi aberto em sua tampa. A ideia veio de uma tradição antiga, dos dias de Moisés no deserto. O povo, todo o povo, era convidado a trazer. Não um imposto pesado, mas a oferta do coração: o resgate da alma, meia peça de prata, conforme a lei antiga. A arca ficou ali, um receptáculo silencioso de expectativa.
Os primeiros dias foram de uma hesitação palpável. Um agricultor, suas mãos calejadas pela enxada, aproximou-se com timidez, deixou cair sua moeda. O som metálico e solitário ecoou na arca vazia. Mas então veio um mercador, cuja consciência talvez pesasse mais que suas bolsas, e ele derramou um punhado de siclos. Uma viúva, com os olhos baixos, ofereceu sua única peça. E assim, lenta e organicamente, como uma chuva fina que precede a tempestade, as ofertas começaram a fluir.
Joás observava, às vezes escondido atrás de uma coluna, outras vezes ao lado de Joiada. Havia uma beleza triste no ritual. A prata não vinha apenas dos ricos. Viam-se soldados com seus escudos maltrapilhos, artesãos com as unhas sujas de argila, mães com crianças agarradas às saias. Era uma corrente contínua e murmurante de devoção. A arca enchia-se. Quando o peso das moedas ameaçava rachar a madeira, os levitas, sob os olhares atentos do rei e do sumo sacerdote, a transportavam para uma sala lateral. Lá, sob tochas fumegantes, contavam o dinheiro. O tilintar era um cântico constante. Em seguida, a arca vazia retornava ao seu posto. Dia após dia, mês após mês. Foi um trabalho de paciência, de confiança reconquistada.
O dinheiro, então, passou das mãos dos levitas para as mãos hábeis de homens práticos. Supervisores foram nomeados. O som de martelos e cinzéis substituiu o silêncio fúnebre. Carpinteiros de Tiro, famosos por sua habilidade, foram contratados com parte do dinheiro. O aroma de cedro fresco do Líbano misturou-se ao cheiro da poeira antiga. Pedreiros trabalhavam nas fundações, seus músculos tensionados sob o sol. Ferreiros forjavam dobradiças e reforços de bronze. Era um renascimento barulhento, suado, cheio de vida. Joás percorria o local frequentemente. Parava para falar com um escultor que talhava uma romã de pedra para o topo de uma coluna, ou com um fundidor que supervisionava o derretimento do metal para um novo lavatório. Ele aprendia os nomes dos mestres de obra. Aquela não era mais apenas a casa de Deus; era o projeto dele, o sopro de seu reinado.
Os anos passaram. O Templo recuperou seu esplendor. A madeira nova brilhava com óleo de oliva, o bronze polido refletia as chamas do altar, as cortinas de linho fino azul, púrpura e carmesim balançavam graciosamente. A dedicação foi um evento de lágrimas e cânticos. Joiada, agora curvado, mas com os olhos mais vívidos do que nunca, liderou os sacrifícios. O cheiro da carne assada e do incenso subiu aos céus. Judá, por um momento, pareceu respirar em uníssono. Joás, no auge de sua juventude e prestígio, sentiu-se completo. A obra estava feita.
Mas então, como um inverno súbito após um longo verão, Joiada morreu. Foi sepultado com os reis, honra raríssima para um não membro da linhagem real. A cidade chorou. Para Joás, porém, foi mais do que uma perda; foi o desmoronamento de um mundo. A estrutura invisível que o mantinha ereto havia desaparecido. O silêncio que ficou não era o mesmo do Templo abandonado, era mais assustador: era o silêncio da própria alma, sem bússola.
Os príncipes de Judá, aqueles mesmos homens que ele havia confrontado anos antes, viram sua chance. Lentamente, como serpentes ao calor do sol, rastejaram de volta à sua presença. Suas palavras eram melífluas, cheias de bajulação. “O povo está cansado, ó rei, da austeridade dos tempos de Joiada.” “Os deuses dos povos ao redor trazem prosperidade mais… tangível.” “Não é preciso abandonar Javé, apenas… ampliar a adoração.” E Joás, cuja fé havia sido sempre mediada pelo velho sacerdote, cuja devoção estava entrelaçada com a figura paterna, ouviu. A solidão do poder é um conselheiro perverso.
As coisas degeneraram com uma velocidade que aterrorizaria seu eu mais jovem. Postos sagrados de Aserá, troncos ásperos esculpidos em formas obscenas, surgiram nas colinas. Ídolos toscos, bezerros de madeira e pedra, foram erguidos até nas sombras do próprio Templo que ele restaurara. A casa que brilhava com ouro e cedro cheirava agora a incenso estranho e à carne podre de sacrifícios profanos.
Foi então que uma voz se ergueu, cortando a névoa da apostasia como uma lâmina. Zacarias, filho de Joiada, sobre quem o espírito de Deus veio poderosamente. Ele não foi ao palácio fazer um apelo discreto. Posicionou-se no pátio mais alto, diante do povo que chegava para suas abominações, e sua voz trovejou: “Assim diz Deus: Por que transgredis os mandamentos do Senhor, de modo que não possais prosperar? Porque abandonastes o Senhor, ele também vos abandonará!”
A multidão ficou paralisada. Ousadia daquelas, vinda da linhagem do próprio homem que havia colocado o rei no trono. A mensagem era um eco direto, uma reprimenda divina. A notícia chegou a Joás, que estava em seus aposentos, talvez entediado, talvez atormentado por sonhos ruins. A raiva que surgiu nele foi instantânea, branca e cega. Não era a fúria calculada de um estadista, mas o pavio curto de um homem que sabe, no fundo, que está errado. A acusação de Zacarias era um espelho segurando diante dele a imagem do menino piedoso que havia sido. Ele odiou aquela imagem.
“Matem-no”, a ordem saiu entre dentes cerrados, um sussurro cheio de veneno. “No pátio da casa do Senhor.”
Os príncipes, seus novos conselheiros, não hesitaram. Foi uma cena de horror profano. Homens armados, os mesmos que deveriam guardar a santidade do lugar, avançaram sobre o profeta. Zacarias não fugiu. De pé sobre as pedras que seu pai havia supervisionado, olhou para o céu. Suas últimas palavras não foram de maldição, mas de um apelo devastador à testemunha final: “O Senhor há de ver e requerer!”
As pedras acertaram-no primeiro. Depois, as espadas. Seu sangue jorrou, escuro e quente, sobre o pavimento de pedra lajeado, escorrendo pelas frestas em direção às fundações. Aquele pátio, que havia ressoado com o som das moedas da restauração, ecoava agora com o silêncio pétreo de um assassinato. Algo se partiu na alma da nação naquele momento. Algo se partiu, definitivamente, em Joás.
Os anos finais de seu reinado foram um crepúsculo longo e amargo. A sífilis da idolatria consumia o reino. Então, como um juízo irônico e preciso, veio o exército sírio. Não um grande exército, mas um bando de mercenários cruéis e eficientes. Eles atravessaram as fronteiras como uma faca na manteiga. A vitória de Judá, outrora assegurada por sua fidelidade, havia evaporado. Os sírios chegaram aos portões de Jerusalém, não por um certe épico, mas quase por casualidade, tal era a desproteção. Saquearam, pilharam, e levaram os tesouros do Templo e do palácio como despojos de guerra. Todo o ouro que Joás havia reunido com tanto esforço, toda a glória que restaurara, foi carregado para Damasco.
Ferido, não no campo de batalha, mas talvez pela mão de seus próprios servos descontentes, Joás foi deixado em seu leito, em um palácio agora empobrecido e ecoando de vazio. A doença consumiu-o lentamente. Ele morreu, não como um herói ou um mártir, mas como um homem esquecido e amargurado. O povo, lembra-se o cronista com uma frieza devastadora, não queimou especiarias em sua honra, como haviam feito para seu avô Josafá, ou mesmo para o bom rei Jotão. Ele foi enterrado na Cidade de Davi, mas não nos sepulcros dos reis. Aquele espaço ao lado de Joiada, outrora um lugar de honra suprema, estava vetado.
A justiça, no fim, não é um relâmpago espetacular. É uma sombra que caminha pacientemente atrás de um homem, alcançando-o exatamente no lugar de onde ele fugiu. O menino que consertou a Casa descobriu, tarde demais, que havia deixado sua própria casa em ruínas. E o som que ficou não foi o dos martelos, nem dos cânticos, mas o eco seco e final de uma moeda, caindo sozinha no fundo de uma arca vazia.




