Bíblia em Contos

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A Administração da Graça

O sol da primavera atravessava as finas lâminas de alabastro das janelas altas, espalhando um brilho leitoso sobre os tapetes da sala do trono. O ar cheirava a cedro do Líbano, madeira que revestia cada parede, e a um travo seco de tinta e papiro. Salomão, ainda jovem mas com um peso nos ombros que o tempo ainda não colocara lá, não estava sentado no grande trono de marfim. Caminhava lentamente ao longo de uma mesa comprida, onde rolos abertos repousavam como aves de asas estendidas.

Seus dedos passaram sobre os nomes, os números, as demarcações. O reino herdado de Davi, seu pai, não era mais apenas um sonho de unidade tribal, uma promessa divina gravada em profecia e sangue. Agora era uma máquina de governar, respirando, pulsante, complexa. E ele, Salomão, era seu regente. O Senhor lhe dera um coração sábio e entendido, e aquela sabedoria, ele percebia, não era só para discernir entre o certo e o ervo em disputas. Era para perceber quantos jarros de farinha de trigo eram necessários para sustentar um palácio por um mês. Quantos cavalos de guerra poderiam ser mantidos nas cercas de Megido. Quantos homens eram precisos para cortar as gigantescas árvores de cipreste nas encostas do Hermon.

O texto pedia uma história baseada em 1 Reis 4. Aquele capítulo seco, quase administrativo. Listas. Nomes de oficiais, de províncias, de provisões. Mas por trás de cada nome, havia uma história. Azarias, filho de Zadoque, o sacerdote. Sim, aquele homem de fala mansa e olhos que pareciam ver além do sacrifício de animais, para o coração do próprio sacrificante. Ele e os dois escribas, Eliorefe e Aías, filhos de Sisa. Homens cujas mãos cramavam, cujas costas doíam ao final do dia, transformando decretos reais em registros permanentes. Salomão os imaginava, à luz bruxuleante das lamparinas de azeite, conferindo os rolamentos das caravanas que chegavam de Arã, carregadas de lingotes de prata e cavalos selecionados.

E os doze intendentes. Doze nomes, doze regiões. Cada um responsável por prover a casa do rei por um mês. Ben-Hur, nos montes de Efraim. Ben-Dequer, em Maaz, Shaalbim, Bete-Semes e Aim-Bete-Hanã. Outros, em lugares cujos nomes soavam como canções antigas da terra: Dor, Naftali, Gileade. O rei parou diante da janela, olhando para os jardins abaixo, onde árvores frutíferas do Egito floresciam, uma maravilha transplantada. Cada mês, de uma dessas regiões, vinham carroças pesadas. Trinta cors de flor de farinha, sessenta cors de farinha comum. Dez bois cevados, vinte bois de pasto, cem ovelhas. E além disso, veados, gazelas, cabritos monteses e aves cevadas.

Era uma carga imensa. Um fardo? Talvez. Mas também era um símbolo. A paz. “Judá e Israel eram muitos, como a areia que está à beira do mar”, lembrava o escrito. Comiam, bebiam e se alegravam. A segurança era tão profunda que cada homem podia sentar-se debaixo da sua videira e da sua figueira, de Dã a Berseba. Essa era a promessa cumprida. O imposto, a provisão, não era extraída de um povo gemendo sob jugo, mas da abundância de uma terra em descanso. Um ato de administração, não de opressão. Pelo menos, era isso que sua sabedoria tentava garantir.

Ele se virou, e seu olhar encontrou o grande escudo de ouro polido pendurado na parede ao fundo, refletindo a luz de forma distorcida. Seu reino se estendia. Do Eufrates à terra dos filisteus, até a fronteira do Egito. Reis distantes, de Hama a Gaza, traziam presentes e serviam a Salomão todos os dias da sua vida. Cavalos da Cilícia, carros do Egito. A prata era tão comum em Jerusalém como as pedras. Os cedros, como os sicômoros da Sefelá.

Mas no meio de toda essa glória administrativa, Salomão sentia um frio súbito, uma pontada no espírito. A sabedoria era um dom. A paz, uma concessão. A organização, uma necessidade. Tudo aquilo – a lista de intendentes, a conta dos cavalos, a medida da farinha – era a estrutura de barro e palha que sustentava o verdadeiro templo: um povo vivendo em fidelidade. Ele se ajoelhou, ali mesmo, no chão frio de pedra, longe do trono. A oração não foi de gratidão pela grandeza, mas de súplica por lembrança. “Guarda-me, Senhor, para que estas cifras não substituam o coração. Que estes celeiros não ofusquem o altar. Que esta paz não gere esquecimento.”

Quando se levantou, o sol já se inclinara, e as sombras alongadas dos cedros riscavam o chão da sala. Os escribas haviam entrado em silêncio, aguardando. Salomão olhou para eles, para os rolos, para o mundo de responsabilidade que aqueles símbolos representavam. E, com um suspiro que era tanto cansaço quanto propósito, começou a ditar. Não apenas ordens sobre tributos, mas instruções para que nos registros das provisões, em cada mês, fosse anotado também o nome do Senhor, a quem toda aquela abundância, no fim das contas, pertencia. A história de 1 Reis 4 não era apenas um relato de governo eficiente. Era o retrato de um momento fugaz, dourado e precário, em que a sabedoria de um homem tentava, com listas e medidas, administrar a graça de Deus sobre uma nação. E naquela sala perfumada de cedro, sob a luz que minguava, o rei-escritor procurava, entre números e nomes, a linha tênue que separava um ministério abençoado de uma máquina impessoal. O desafio era fazer com que a primeira nunca se tornasse a segunda.

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