Bíblia em Contos

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Memorial de Trinta e Um Tronos

A fogueira crepitava baixo, reduzida a brasas alaranjadas que pintavam de sombras dançantes os rostos cansados ao seu redor. O acampamento em Gilgal repousava sob um manto de silêncio pesado, o tipo de quietude que só vem depois de muita luta. No ar, um cheiro misturado de terra molhada do Jordão, fumaça lenhosa e o sal indescritível do suor secado.

Eldade, o mais idoso dos levitas presentes, passou os dedos nodosos, quase transparentes à luz do fogo, sobre o couro grosso de um rolo. Seus olhos, profundos como poços no deserto, não liam os caracteres. Eles viam além. A assembleia ali reunida – homens cujas mãos ainda conheciam o peso da espada e o choque seco do bronze contra bronze – esperava. Não por uma lei, ou por uma ordem, mas por uma memória. Por um entendimento.

“Não é apenas uma lista”, sua voz saiu áspera, carregada da areia de muitos anos e muitos caminhos. “Um escriba apressado, olhando de fora, veria apenas nomes. Rei de Jericó, rei de Ai, rei de Jerusalém… palavras sobre pele de animal. Mas vocês… vocês que cavaram com as próprias mãos os alicerces de suas casas nesta terra… vocês sabem que cada um desses nomes era um mundo. Um mundo que caiu.”

Ele fez uma pausa, deixando o estalar da lenha preencher o vazio. Um vento noturno sussurrou nas palmeiras, trazendo um frescor do rio.

“Antes de atravessarmos o Jordão, quando ainda víamos esta margem como uma miragem distante, outros braços já haviam lutado. Moisés, o homem com quem Deus falava face a face, não nos trouxe até aqui. Mas ele abriu o caminho com vitórias do outro lado do rio. Vocês lembram das histórias que seus pais contavam? Sihon, o rei amorreu em Hesbom. Orgulhoso como um touro no alto da colina. Sua terra ia desde Aroer, na beira do ribeiro do Arnom, passando pelo meio do vale, até Gileade. Ele saiu para nos enfrentar com todo o seu povo, em Jahaz. E o SENHOR o entregou em nossas mãos. Ele, seus filhos, todo o seu povo. Não sobrou ninguém. E depois, Ogue, rei de Basã. O último dos refains, diziam. Um gigante, cuja cama de ferro ainda está em Rabá, para quem tem coragem de olhar. Ele reinava em Asterote e em Edrei. Também lhe aconteceu o mesmo. Moisés derrubou esses dois, e a terra deles foi dada às tribos de Rúben, de Gade e à meia-tribo de Manassés.”

Eldade fechou os olhos, como se visse as planícies de Moabe, os contrafortes de Gileade, não como geografia, mas como um grande campo de batalha silencioso.

“E então… então veio o Jordão.” Sua voz baixou para um tom quase íntimo. “As águas amontoadas como um muro. A arca sobre os ombros dos sacerdotes. A sola dos nossos sapatos sentindo o leito seco do rio. E Jericó.” O nome saiu como um suspiro. “A primeira. A cidade forte, fechada e trancada. Nada saía, nada entrava. Por seis dias, o silêncio de nossos passos ao redor. No sétimo, o clamor, o som dos chifres de carneiro, um grito rasgando o céu… e os muros, aqueles muros imensos, desabando rente ao chão. O rei de Jericó. Um nome na lista. Mas para nós que estivemos lá, era o fim de um terror antigo. Era a prova de que o impossível obedecia à voz do SENHOR.”

Um homem mais jovem, com uma cicatriz recente cortando sua sobrancelha, assentiu lentamente, seus olhos fixos nas brasas, vendo outra coisa.

“Ai veio depois”, continuou Eldade, e um sorriso amargo tocou seus lábios finos. “Por nossa presunção. Por achar que era pela força da nossa mão. Aprendemos ali, com o sangue de trinta e seis irmãos regando a colina, que cada batalha era Sua. E depois, corrigido o erro, o rei de Ai pendurado num madeiro até o cair da tarde. Mais um nome. Mais um trono vazio.”

Ele começou a enumerar, mas não como uma recitação. Como quem coloca pedras preciosas e pesadas sobre um pano, uma a uma, cada uma com seu brilho e seu peso morto.

“O rei de Jerusalém. A cidade alta, de pedras cor de mel. O rei de Hebrom, cidade dos patriarcas, tomada por Calebe com a força de sua fé juvenil em coração de octogenário. O rei de Jarmute, o rei de Laquis… em Laquis, lembro, cercamos a cidade por dias. No último, quando as muralhas cederam, era como ver um formigueiro inundado. O rei de Eglon… ali a luta foi nos vales, embaixo de um sol de ferro. O rei de Gezer… que veio como socorro e encontrou seu fim. O rei de Debir, outrora Quiriate-Sefer, a cidade que Otoniel, o primeiro dos juízes, conquistou como dote.”

A lista fluía, mesclada à paisagem e ao suor da memória. O rei de Geder, o rei de Hormá, o rei de Arade, o rei de Libna, o rei de Adulão… cada um evocava uma tática, um terreno, um momento de pavor ou de bravura coletiva. “O rei de Maqueda… quantas noites dormimos sob as estrelas, vigiando suas luzes nas colinas? O rei de Betel, a casa de Deus, que Jacob conheceu, agora livre. O rei de Tapua, o rei de Hefer, o rei de Afeque… em Afeque, a chuva de pedras do céu que confundiu mais que os nossos exércitos. O rei de Lasarom, o rei de Madom, o rei de Hazor… Hazor. Aquela foi diferente. Jabin, seu rei, tinha congregado tantos outros, tantos reis do norte, com seus cavalos e carros numerosos como a areia do mar. Um exército que brilhava ao longe como um lago de bronze. Mas o SENHOR disse: ‘Não temas’. E não tememos. Queimamos Hazor até às suas fundações. Só Hazor.”

Eldade abriu os olhos e fitou os homens à sua volta. A fogueira estava quase apagada.

“Trinta e um reis”, ele disse, a voz agora plana, exausta. “Trinta e um mundos. De onde? Do sul, o Neguebe e a Sefelá. Do centro, as montanhas. Do norte, a Galileia e os vales. Do leste, o lado de lá do Jordão. Reis amorreus, heteus, ferezeus, cananeus. Trinta e um nomes que um dia significaram poder, medo, deuses estranhos e jugo pesado. Hoje significam… terra. Terra que agora respira. Terra que espera por vocês. Por suas sementes, por seus rebanhos, por seus filhos.”

Ele enrolou lentamente o rolo de couro, amarrando-o com uma tira de linho.

“Não guardem esta lista como um troféu. Guardem-na como um memorial. Para que, quando seus netos pisarem esta mesma terra, plantando suas videiras e construindo seus muros de paz, eles saibam. Saibam que cada sulco deste solo foi aberto pela promessa de um Deus fiel. E que estes trinta e um nomes são a prova silenciosa de que nenhum muro, nenhum gigante, nenhum exército pode resistir quando o SENHOR decide cumprir a sua palavra.”

A última brasa se apagou, mergulhando o círculo em uma escuridão azulada, pontilhada pelas primeiras estrelas. Ninguém se moveu por um longo tempo. A lista não era mais apenas um registro. Era a própria textura da terra sob seus pés, comprada não com ouro, mas com memória e sangue santificado. E o silêncio que se seguiu não era de vazio, mas de uma plenitude solene e terrível.

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