Bíblia em Contos

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Bíblia

Leis que Alimentam a Alma

Era um fim de tarde quente em Judá, nos dias do rei Josias, quando o velho Eliabe resolveu sentar à sombra da figueira torta que crescia à entrada de sua casa. O calor do dia começava a ceder, substituído por uma brisa que trazia o cheiro do orvalho e da terra seca. Seus netos, dois meninos de olhos arregalados e pés sujos de poeira, se aproximaram, sabendo que aquela hora era propícia para histórias.

“Vovô, o senhor falou que ia nos contar sobre as leis da comida”, disse o mais velho, Joás, puxando a barra desgastada da túnica do avô.

Eliabe sorriu, uma rede de rugas se formando ao redor de seus olhos claros. Seus dedos nodosos, calejados de uma vida lidando com a terra e com o gado, acariciaram a barba grisalha. “Ah, sim. As leis. Não são apenas listas, meninos. São… a textura da nossa vida com o Eterno. São como os sulcos que guiam a água para as raízes, para que a árvore não morra de sede.”

Ele fez uma pausa, deixando o som dos grilos preencher o ar. “Lembro-me de meu pai, Obed, num dia como este. Nós tínhamos um novilho, bonito, forte, primogênito do nosso pequeno rebanho. E chegou o tempo de levar as primícias ao santuário. Mas antes, tivemos que separar o que era puro do que era impuro. Ele me pegou pelo ombro, eu era mais novo que você, Joás, e me levou até o animal.”

A descrição que se seguiu não foi uma mera recitação de regras. Eliabe pintou com palavras o cenário: o cheiro adocicado e pesado do estábulo, misturado ao aroma do feno seco; o calor do corpo do animal; o olho úmido e tranquilo do novilho. “Meu pai apontou para o casco fendido, me fez tocar. ‘Vê, Eliabe? Ele rumina e tem o casco dividido. Isto é puro. É da nossa mesa e do nosso altar.’ Aquilo era teologia nas pontas dos dedos. Não era só sobre comer ou não comer. Era sobre discernir. A vida é cheia de divisões, meninos: entre o santo e o comum, entre o que edifica e o que contamina.”

Ele então falou dos outros animais, não como uma enumeração seca, mas com as histórias que os envolviam. O javali, que o tio Asaiel uma vez caçou na serra, feroz, destruindo as plantações. “Seu casco era só uma unha dura, não dividida. E ele não ruminava, devorava tudo vorazmente. Meu tio o trouxe, orgulhoso, mas meu pai apenas balançou a cabeça. ‘Não é para nós, Asaiel. Sua carne é robusta, mas não nos fortalece. Nos confunde.’ Na época, eu não entendi bem. Anos depois, vi um mercador fenício comendo tal carne com avidez, e lembrei daquela lição: somos o que consentimos em nos tornar.”

Os olhos dos meninos brilhavam. O mais novo, Natã, perguntou sobre os peixes. Eliabe riu. “Ah, os peixes! Isso me leva ao lago de Quinerete, onde pescava com seu bisavô. A água gelada de amanhecer, as redes pesadas… Ele me ensinou: ‘Preste atenção nas escamas e nas nadadeiras. O bagre, liso, esguio, que se enterra na lama do fundo… não é para o povo da aliança. Mas a tilápia, com suas escamas prateadas refletindo o sol, nadando livre nas águas limpas… esta sim.’ Era como se o próprio Eterno nos ensinasse a escolher a cleanness, a integridade, até no que tiramos das profundezas.”

Quando chegou nas aves, a narrativa se encheu de plumagem e voo. Ele descreveu o abutre, um ponto negro e paciente no céu azul impiedoso, e a cegonha, de pernas finas nas margens do rio. “Há uma solidão nessas aves, uma estranheza. Elas não são como a rolinha que faz seu ninho em nosso telhado, ou a perdiz que chamamos com assobio ao entardecer. O Eterno, em sua sabedoria, marcou algumas criaturas com um sinal de distância. Respeitamos o sinal. É um exercício de humildade. Reconhecer que não dominamos tudo, não consumimos tudo. Há coisas no mundo que devem permanecer… de fora.”

O sol já se punha, tingindo as nuvens de roxo e laranja. Eliabe falou então do dízimo, e sua voz ganhou um tom solene e ao mesmo tempo jubiloso. “E o melhor, filhos, é que depois de aprender a separar, a gente aprende a reunir. Uma vez por ano, a viagem a Jerusalém. Não era um fardo! Era uma festa! As jumentas carregadas com os melhores grãos, o vinho mais doce, o azeite mais puro. A estrada poeirenta ficava cheia de famílias cantando os cânticos de subida. E em Jerusalém… ah, Jerusalém! O cheiro do incenso, o som dos levitas, a multidão do povo da aliança.”

Seu olho se umedeceu. “E aí, você usava o dinheiro do dízimo, se a viagem fosse longa demais, e comprava o que seu coração desejasse: um cordeiro tenro, vinho forte, mel da região montanhosa. E comia ali, na presença do Senhor, com sua família, com o levita que não tinha herança. Era uma refeição que sacramentava tudo. Mostrava que a obediência nas coisas pequenas – no que você põe no prato – leva a uma comunhão grandiosa, a uma alegria coletiva.”

Ele se calou, exausto e feliz. A noite começava a cair, a primeira estrela cintilando timidamente. Joás olhou para as mãos do avô, depois para o céu. “Então… não é só uma lista de ‘pode’ e ‘não pode’.”

Eliabe acariciou a cabeça do neto. “Nunca foi, meu menino. É um mapa. Um mapa para um povo que quer andar com um Deus santo em meio a um mundo cheio de opções. Cada animal limpo, cada festa do dízimo, é um passo no caminho. Um lembrete de que fomos separados para Ele. E que essa separação, no fim, não nos isola. Nos une, uns aos outros e a Ele, no lugar onde Ele escolheu para fazer habitar o seu nome.”

Na quietude que se seguiu, os meninos não precisavam de mais explicações. A lei havia se tornado, naquela tarde sob a figueira, uma história viva. Cheirava a estábulo, a rede de pesca molhada, a fumaça de altar e a pão fresco partido em família. Era muito mais do que regulamento. Era o ritmo da identidade de um povo, pulsando no dia a dia mais comum, desde a escolha do jantar até a jornada de festa para a Cidade Santa. E assim, naquele pátio empoeirado, Deuteronômio catorze respirou, mais uma vez, pela memória e pelo afeto.

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