O ar no Egito carregava um peso diferente. Não era apenas o calor, que descia como um manto de chumbo ao meio-dia, mas uma umidade densa, cheira a limo do Nilo, a especiarias fermentando nas vielas e a pó de pedra das construções faraônicas. José respirava esse ar estranho como se fosse uma condenação. O cheiro da terra de Canaã, do rebanho do pai, da fogueira ao entardecer, havia se tornado uma memória dolorosa, quase irreal.
Os ismaelitas que o venderam não foram cruéis; foram práticos. Um jovem forte, de olhos inteligentes, valia bom preço. E Potifar, oficial de Faraó, capitão da guarda, era um homem que reconhecia valor. Não comprou José por pena, mas por interesse. Percebeu, naquele hebreu desgraçado que se mantinha em silêncio, uma centelha de ordem. E ordem era algo que Potifar, um administrador de vastas posses, apreciava acima de tudo.
A casa de Potifar era um microcosmo do poder egípcio. Fresca, com altas paredes de tijolos de barro, salas adornadas com frisos de papiro e lótus, pátios sombreados por palmeiras. O burburinho era constante: cozinheiros preparando cevadas e aves, cervejeiros cuidando dos jarros, tecelãs no seu canto, administradores murmurando sobre colheitas e tributos. E no centro daquele universo, José. Não mais um sonhador vestido com túnica colorida, mas um servo de linho simples. Seus sonhos agora eram de eficiência: organizar os celeiros, supervisionar os contratos, distribuir as rações.
E algo notável aconteceu. A presença de José parecia trazer uma bênção tangível. As colheitas nos domínios de Potifar eram mais abundantes, os negócios prosperavam, a desordem doméstica se transformava em uma rotina tranquila e produtiva. Potifar, um homem religioso à sua maneira, atribuía isso à proteção de seus deuses. Mas, no íntimo, sabia que a fonte era aquele servo estrangeiro. Por isso, pouco a pouco, foi entregando a José a gestão de tudo. “Ele não precisa preocupar-se com nada do que possui”, diziam os outros servos, com uma mistura de admiração e inveja. José encontrava, no trabalho exaustivo, uma espécie de paz. Era uma fidelidade transferida: servia a Potifar com o mesmo coração com que serviria a seu pai, porque, no fundo, servia a um Senhor maior, cujo nome não podia invocar naquelas terras.
No entanto, essa mesma bênção que repousava sobre os bens de Potifar acabou por despertar atenção indesejada. A senhora da casa, mulher de Potifar, começou a observar José com um interesse que ultrapassava o doméstico. Era uma egípcia de beleza altiva, acostumada à ociosão perfumada dos aposentos femininos. O tédio era sua companhia constante. E na figura daquele hebreu administrador, eficiente, sério, diferente de todos os homens que a cercavam, ela viu uma distração.
Inicialmente, foram olhares prolongados durante os relatórios. Depois, perguntas desnecessárias, encontros casuais nos pátios sombrios. José mantinha uma cortesia impessoal, um respeito rígido. Ele via o perigo com clareza solar. Não era apenas uma questão de moral, era uma questão de aliança. Potifar lhe confiara tudo, menos a própria mulher. Traí-lo seria trair a confiança que lhe dera um refúgio, seria cuspir na bondade que encontrara no cativeiro. E, acima de tudo, seria pecar contra Deus. Era uma convicção firme, óssea: “Como poderia eu cometer tamanha maldade e pecar contra Deus?”
A insistência dela, porém, foi se tornando uma pressão diária. Os encontros “acidentais” se transformaram em investidas diretas. “Deita-te comigo”, ela dizia, sem rodeios, o desejo brilhando em seus olhos pintados com kohl. A recusa de José era sempre a mesma, um refrão de integridade: “Meu senhor não preocupa comigo coisa alguma nesta casa, e tudo o que tem entregou em minhas mãos. Ele não é maior do que eu nesta casa, e a única coisa que me negou foste tu, porque és sua mulher. Como, pois, poderia eu cometer esta grande maldade e pecar contra Deus?”
Ela ouvia, irritada, mas também fascinada por aquela resistência. A obstinação dele era um desafio à sua própria vaidade. O assédio tornou-se uma guerra silenciosa nos corredores daquela casa abençoada.
Até que veio o dia inevitável. Um dia abafado, em que a casa parecia vazia, tomada por uma sonolência pesada. José entrou para tratar de uns assuntos, vestido com seu linho prático. E ela estava lá, no aposento mais fresco, vestida apenas com um leve véu. Não havia servos por perto, nem ruídos. A oportunidade, para ela, era perfeita. Agarrou-o pela túnica, suas palavras um sussurro urgente e imperioso. “Deita-te comigo.”
O terror e a repulsa tomaram conta de José de uma forma quase física. Não pensou. Girou-se com força, deixando a túnica nas mãos dela, e fugiu. Correu como um animal acuado, para fora da casa, para o pátio escaldante, seu coração batendo com fúria no peito. O ar livre, pesado como estava, pareceu-lhe puro.
Dentro do aposento, a mulher de Potifar ficou parada, a túnica de linho na mão, a respiração ofegante de raiva e humilhação. O desejo transformou-se em ódio instantâneo, um ódio calculista. Ele a rejeitara. Ele a humilhara. E agora ela tinha em suas mãos a prova que precisava.
Chamou os servos da casa, sua voz um lamento teatral e afiado. “Vejam! Trouxe-nos um hebreu para nos insultar! Entrou aqui para se deitar comigo, e eu gritei com toda a força. Quando ele ouviu que eu levantava a voz e gritava, deixou sua túnica ao meu lado e fugiu para fora.” Mostrava a túnica como um troféu macabro, sua história urdida com a velocidade do instinto de preservação e da vingança.
Quando Potifar chegou ao final do dia, ela repetiu a performance, com lágrimas de indignação ferida. “Aquele servo hebreu, aquele que nos trouxeste, veio a mim para me insultar! E quando levantei a voz e gritei, ele fugiu, deixando para trás esta túnica.” A evidência era irrefutável. A palavra de uma nobre egípcia contra a de um escravo estrangeiro.
A fúria de Potifar foi uma coisa terrível e silenciosa. Não era apenas ciúme; era a sensação de ter sido enganado no seu julgamento mais essencial. Aquele homem em quem depositara toda confiança, a fonte daquela bênção inexplicável, revelara-se um animal traiçoeiro. A decepção fermentou em ira pura.
Mas, mesmo na sua raiva, algo restringiu Potifar. Talvez um vestígio de dúvida, talvez um respeito residual pela “sorte” que José trazia. Não ordenou a execução sumária, como teria direito. Em vez disso, mandou prendê-lo no lugar onde o rei mantinha seus prisioneiros: a fortaleza.
E assim, pela segunda vez, José foi despojado de tudo por uma mentira. A túnica, outra vez, era a testemunha muda de sua desgraça. Das cortes frescas e movimentadas de Potifar, ele foi arrastado para a escuridão úmida e o fedor a suor e desespero da prisão. Os grilhões fecharam-se em seus pulsos com um ruído final. O silêncio que veio depois era diferente do silêncio do deserto ou da casa movimentada. Era o silêncio do abandono.
Deitado na palha podre, ouvindo os gemidos de outros condenados, José poderia ter se entregado. A injustiça era absoluta. Não havia apelação. Mas o texto, com uma simplicidade que corta como uma faca, diz apenas: “O SENHOR, porém, estava com José, e lhe foi benigno, e lhe deu graça aos olhos do carcereiro.”
E ali, no fundo do poço, começou uma nova estranha forma de prosperar. O carcereiro, um homem calejado, viu naquele prisioneiro hebreu a mesma centelha de ordem que Potifar vira. Não havia bênção visível em uma cela, mas havia confiança. E José, mais uma vez, começou a servir. A administração do caos se transferiu das despensas e dos campos para os corredores escuros daquela fortaleza. E, mesmo ali, na mais completa obscuridade humana, ele não estava sozinho. A presença que o acompanhara desde os poços de Canaã até o mercado de escravos, até a casa de Potifar, não o abandonara. Estava com ele, agora, no cheiro de mofo e esperança perdida da prisão. O curso da história, embora ele não soubesse, estava apenas fazendo uma curva fechada e necessária.




