Bíblia em Contos

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Bíblia

O Último Suspiro da Terra Antiga

A terra cheirava a ferro molhado.

Noé mal conseguia lembrar a última vez em que os pés não tinham afundado na lama do canteiro de obras que, por décadas, consumira sua vida. A arca não era mais um projeto, uma promessa esculpida em madeira de cipreste. Era um fato. Um monte absurdamente grande, escuro como um dente cariado contra o céu que, dia após dia, ia ficando mais pesado, mais baixo.

Naquela manhã, o silêncio era diferente. Não era a ausência de sons, mas uma contenção, como se o mundo prendesse a respiração. Os pássaros não cantavam, só voavam em círculos baixos e desorientados. Noé caminhou até a enorme porta lateral, suas mãos calejadas passando sobre a madeira resinosa. A orientação tinha sido precisa: ele, sua mulher, seus três filhos e as noras. E os animais.

O primeiro a chegar foi um som de patas. Muitas patas. Um ruído surdo e constante, crescendo como uma maré terrestre. De longe, surgiram as silhuetas. Não era uma debandada caótica, mas um desfile solene, quase fúnebel. Pares. Sempre pares. Dois elefantes, suas peles cinzentas parecendo trazer consigo a poeira de continentes distantes, as trombas balançando com um ritmo paciente. Duas gazelas, frágeis e de olhos arregalados, esgueirando-se entre as pernas dos maiores. Ursos, lobos, gatos selvagens – o instinto predatório suspenso por uma obediência maior, mais profunda. O cheiro era avassalante: pelo úmido, terra, folhas mastigadas, o hálito quente de centenas de criaturas.

Sem, o filho mais velho, com o rosto tenso, dirigia o fluxo para dentro do casco escuro. “Por aqui, os ruminantes! Jam, cuidado com as serpentes, ele as colocou naquelas caixas de madeira entrelaçada!” Os sons eram um coro de mugidos, grunhidos, pios, rosnados abafados. Leões se deitaram ao lado de cordeiros, não por paz, mas por uma exaustão comum, por uma submissão a um comando que todos haviam ouvido, cada um à sua maneira.

Noé observava, um nó na garganta. Via a formiga carregando sua companheira numa folha. Via os abutres, pairando por último, como se relutassem em abandonar o banquete que ainda não existia. Era uma criação inteira, reduzida aos seus pares fundamentais, entrando num útero de madeira para um novo nascimento cujo parto ele não podia imaginar.

Quando o último animal – um pequeno ouriço, que chegou enrolado e desconfiado – foi içado numa cesta, o céu começou a mudar.

Não foram nuvens que se formaram. Foi como se o firmamento, aquele azul que ele conhecia desde menino, se dissolvesse em um cinza opaco e uniforme. E então, um som. Um estalo solitário, profundo, vindo das entranhas do mundo. As comportas dos céus se abriram.

A chuva não caiu. Caiu uma cascata sólida e ininterrupta, um muro de água que apagou o horizonte em segundos. O barulho era ensurdecedor, um rugido constante que abafou o choro de uma das noras, os berros de Jam tentando amarrar a porta, o mugido dos animais assustados. A água não escorria no solo, ela se acumulava instantaneamente, formando poças que se fundiam em lagos, lagos que se tornavam um mar rasteiro e furioso.

Noé, dentro da arca agora, com a porta selada, caminhou até uma abertura estreita, uma fenda de observação. A luz que entrava era esverdeada, pobre. Ele via as árvores que conhecia, o carvalho onde brincara com os filhos, sucumbirem. Primeiro os galhos baixos sumiram. Depois os troncos foram engolfados. A água subia com uma velocidade obscena, ganhando palmos em questão de minutos. Não era uma enchente. Era uma subversão. O elemento sólido, o chão firme, estava sendo apagado.

E então começou o segundo ato. Outros estalos, mais numerosos, vindos de debaixo da terra. Grandes bolhas de ar escaparam, e das fendas do abismo, das fontes do grande oceano subterrâneo, jorraram torrentes de água quente e turva, misturando-se à água fria do céu. Era o fim de toda geografia. Os vales desapareceram primeiro. Depois as colinas. As montanhas, aqueles dentes rochosos que ele julgava eternos, tornaram-se ilhas, depois pedregulhos, depois apenas sombras sob uma superfície agitada e sem fim.

A arca, que parecia tão desajeitada em terra firme, começou a balançar. Um solavanco, depois outro. E então, com um gemido profundo de toda a sua estrutura de cipreste, ela se desprendeu. Flutuou. Não havia mais terra para a qual voltar. Apenas água, de um horizonte a outro, sob a fúria implacável da chuva.

Dentro, o mundo era de escuridão úmida, cheiros densos e sons contidos. Os animais, em seu terror, se calaram. Só se ouviam os rangidos da madeira, o impacto das ondas contra o casco, e o dilúvio lá fora, uma cortina de ruído perpétuo. Noé desceu até o porão, onde os animais de maior porte estavam. No escuro, ele sentiu o calor dos corpos, ouviu a respiração ofegante de um bovino. Colocou a mão num flanco úmido, não sabendo se era suor ou água que havia se infiltrado. A criatura não se moveu.

De volta à única área habitável, ele encontrou sua família. Estavam sentados no chão de tábuas, encostados uns nos outros, sem falar. A mulher dele, com os olhos fixos em nada, tecia mecanicamente um pedaço de lã. Sem e Jam discutiam em sussurros ásperos sobre a distribuição da ração. A nora mais nova chorava silenciosamente.

Noé olhou para eles, depois olhou para as paredes que os separavam do fim de tudo. A obediência agora tinha o gosto de sal e de medo. A arca não era mais um refúgio. Era uma prisão flutuante num cemitério líquido. A promessa de Deus era um fio tênue, um único ponto seco numa realidade toda alagada. Ele fechou os olhos e não orou com palavras. Apenas ouviu. O som da água era a única resposta, por quarenta dias e quarenta noites. O mundo de antes tinha acabado. Eles navegavam agora sobre o seu túmulo, carregando, no ventre escuro da embarcação, o germe frágil e fedorento de um mundo que ainda não existia.

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