Bíblia em Contos

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Bíblia

O Peso da Graça em Corinto

O sol da tarde pesava sobre Corinto como uma manta úmida. De dentro do meu canto, um vão de parede onde a sombra ainda teimava em resistir, eu via o movimento da Ágora diminuir. O cheiro de peixe seco, óleo de oliva e poeira antiga subia até mim. Minhas costas doíam contra a pedra áspera, um lembrete constante da última vez que os bastões encontraram minha carne. Aquela dor era um companheiro íntimo, quase um amigo.

Minhas mãos, calejadas da fabricação de tendas, seguravam um rolo de papiro que me consumia. Não era um texto oficial, limpo e copiado por um escriba. Era a minha própria letra, torta e apressada, manchada de viagens e noites em claro. As palavras do apóstolo Paulo dançavam diante dos meus olhos cansados, mas não como uma lição. Como um espelho.

“…em tudo recomendando-nos a nós mesmos como ministros de Deus: na muita paciência, nas aflições, nas necessidades, nas angústias…”

Lembrei-me do dia anterior. Tentando vender uns remendos de couro perto do porto de Lechaion, fui abordado por um mercador romano. Ele viu a marca simples no lintel da minha porta modesta – um peixe, esboçado com carvão – e seu rosto franziu-se em desdém. “Vocês, cristãos”, cuspiu a palavra como se fosse azeda. “Vivem de promessas de um mundo que não veem, enquanto negligenciam os deuses que garantem o comércio e o vento a favor.” Sua acusação não era nova. Mas naquela hora, com o estômago roncando de fome porque as vendas tinham sido escassas, ela pesou como chumbo. *Negligenciar*. Como se minha fé fosse uma preguiça, e não um combate diário.

“…nos açoites, nas prisões, nos tumultos, nos trabalhos, nas vigílias, nos jejuns…”

Uma mosca insistente zumbia perto do meu ouvido. Deixei o rolo descansar no colo e ergui a túnica um pouco. Na perna, uma cicatriz roxa e feia, herança de uma pedrada atirada por uma multidão incitada em Filipos. Não era uma marca de heroísmo. Era feia, dolorida, e cheirava a humilhação. Às vezes, no silêncio da noite, eu me perguntava: onde está a glória nisso? Onde está o poder do Messias ressurreto nesta miséria cotidiana? Paulo escrevia sobre ser “entristecidos, mas sempre alegres”. A alegria, naquele momento, parecia uma moeda perdida no fundo do mar.

Um barulho me fez levantar os olhos. Era o velho Lúcio, o vendedor de azeitonas, arrastando sua esteira de junco. Ele parou, ofegante, e me encarou. Seus olhos eram como uvas passas, enterrados em um rosto enrugado como pergaminho velho.

“Ainda decifrando cartas do seu mestre, hein, Marcos?” Sua voz era áspera. “Palavras bonitas. Mas elas enchem o estômago? Acalmam os soldados? Trazem a chuva?”

Era a pergunta não dita de toda a cidade. A pergunta que, em momentos de fraqueza, eu mesmo fazia. Sorri, um sorriso que não atingiu os olhos. “Nem sempre, Lúcio. Mas elas dão um porquê para o estômago vazio. Dão um nome para o medo dos soldados.”

Ele resmungou algo e seguiu arrastando seus fardos. E eu voltei ao papiro. Minha leitura pulou adiante, para as palavras que queimavam como ferro em brasa:

“Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis…”

Aqui, minha respiração ficou presa. Porque não era apenas sobre ídolos ou templos pagãos. Era sobre o mercado. Era sobre a proposta tentadora que Demétrio, o fabricante de ídolos, me fizera na semana passada. Ele precisava de couro de qualidade para bases de estátuas de Afrodite. O pagamento era generoso. Era a chance de sair daquela pobreza constante. “O que importa?”, ele argumentara, com um sorriso fácil. “Você molda o couro. A intenção do compor é problema dele. Os deuses, se existem, não se importam com a matéria-prima.” Um jugo desigual. Uma parceria onde a luz e as trevas tentam dividir o mesmo espaço. Eu quase aceitei. Quase.

Paulo não oferecia uma saída fácil. Não prometia riqueza repentina por obedecer. Em vez disso, ele descrevia uma separação que doía: “Portanto, saí do meio deles, e apartai-vos, diz o Senhor…” Era um exílio dentro da própria cidade. Um estranhamento consciente.

O sol começava a se por, tingindo as colunas de mármore do templo de Apolo com um dourado que parecia irônico. A luz era linda, mas eu sabia o que acontecia naquelas sombras. Sacrifícios, prostituição sagrada, negócios que misturavam devoção e ganância. *Que ligação há entre o templo de Deus e os ídolos?* A pergunta de Paulo ecoava. Nenhuma. A resposta era clara e cortante como uma faca de ourives.

Então, quase no fim, as palavras mudaram de tom. A lista de sofrimentos deu lugar a uma abertura vertiginosa, um convite que era um paradoxo: “Nossa boca está aberta para vós, coríntios; o nosso coração está dilatado.”

Meu próprio coração, tão apertado pelo cansaço e pelo medo, pareceu responder aquele chamado. A dilatação não era para mais conforto. Era para mais dor, a dor de amar uma igreja cheia de problemas, de abrir-se e ficar vulnerável. E depois, a súplica final, que lia como um eco da voz do próprio Cristo: “Não receais o amor de Deus em vão.”

Foi então que entendi. Ou pensei que entendi. O apóstolo não estava apenas listando credenciais. Estava descrevendo o *lugar* onde a graça acontece. Não no sucesso, não na aceitação tranquila pelo mundo. Mas nos buracos deixados pelos açoites, no vazio das vigílias, na estreiteza das prisões. Era ali, nessa fraqueza total, que o poder de Cristo achava morada. A paciência não era resignação; era a arena onde a perseverança de Deus se mostrava. A pureza não era um isolamento estéril; era a condição para enxergar Deus no meio da lama.

Dobrei o papiro com cuidado. A noite caía, e o primeiro frio da noite roçou minha pele. Levantei-me, os ossos rangendo. A cicatriz na perna latejou, mas o pensamento em Demétrio e seu couro para ídolos já não tinha a mesma atração. Era um jugo. Um jugo desigual.

Ao descer em direção à minha humilde oficina, passando por becos onde as luzes já começavam a brilhar atrás das portas, senti um peso diferente. Não era o peso da opressão. Era o peso de uma filiação. “Serei vosso Pai, e vós sereis meus filhos e filhas, diz o Senhor Todo-Poderoso.” A frase finca, que eu decorara, veio à mente.

Eu não era um herói. Era um homem cansado, com roupas sujas e mãos calejadas. Mas naquele cansaço, havia uma paciência que não era minha. Naquela rejeição, uma separação que era sagrada. A alegria, aquela moeda perdida, talvez não estivesse no fundo do mar, mas cunhada no metal áspero da obediência cotidiana.

Entrei na minha casa-oficina. O cheiro familiar de couro cru e linho trouxe uma ponta de paz. Acendi uma lâmpada de azeite. A pequena chama tremeluziu, lutando contra a escuridão que se infiltrava pela janela. Era uma luz pequena. Insignificante para a cidade. Mas naquele quarto, ela era suficiente. E, naquele instante, era tudo o que eu precisava ser. Um vaso de barro. Rachado, mas ainda assim, um vaso. E dentro dele, um tesouro.

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