Bíblia em Contos

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O Ídolo e o Ribeirão

O sol da tarde escorria pelas fendas da velha porta de madeira, desenhando listas de poeira dourada no chão de terra batida. Dentro da casa baixa, de parede de barro e telhado de ramos, o cheiro era de ervas secas, óleo de oliva rançoso e suor. Micalias sentia o peso dos seus sessenta anos nos ossos, mas um peso maior ainda no peito. Na sombra do canto, sobre um pequeno altar de pedra tosca, jazia o ídolo doméstico, o terafim que fora de seu pai e do pai de seu pai. Tinha o rosto desgastado, sem feições definidas, apenas um borrão de argota cozida que outrora talvez representasse um deus lar, um protetor. Agora parecia apenas um pedaço de barro mudo.

Fora, na pequena aldeia nos arredores de Jerusalém, o murmúrio era de mudança. Os que tinham voltado do exílio falavam com um fogo diferente nos olhos. Falavam de um só Deus, de uma aliança renovada, de profecias antigas que ecoavam de novo como o som da shofar nos montes. E falavam, sobretudo, de impureza, de mentiras, de ídolos que precisavam ser varridos. Micalias ouvia, e suas mãos, calejadas da lavoura, tremiam ligeiramente.

Sua mulher, Ana, tecia em silêncio perto da porta, aproveitando a última luz. “O filho de Obedias partiu hoje para a cidade”, disse ela, sem levantar os olhos da lançadeira. “Levou consigo todos os amuletos, as figuras do culto aos astros. Disse que os lançaria no vale do Cedrom. Que é tempo de purificação.”

Micalias não respondeu. Seus olhos fixaram-se no terafim. Quantas vezes, em noites de angústia, de doença dos filhos, de seca que queimava as plantações, ele sussurrara pedidos àquela sombra de barro? Sentira, ou quis sentir, um conforto? Agora, aquela presença muda parecia acusá-lo. Era como se o objeto, inerte, dissesse: “Eu não te salvei. Eu não ouvi. Tu sabias, no fundo, que eu era apenas barro.”

A profecia do velho Zacarias ecoava na aldeia, trazida pelos levitas que iam e vinham. “Naquele dia, diz o Senhor dos Exércitos, cortarei da terra os nomes dos ídolos, e deles não haverá mais memória; e também farei passar da terra os profetas e o espírito imundo.” As palavras eram duras, cortantes como foice na seara. “E acontecerá que, quando alguém ainda profetizar, seu pai e sua mãe, que o geraram, lhe dirão: Não viverás, porque falaste mentiras em nome do Senhor; e seu pai e sua mãe, que o geraram, o traspassarão quando profetizar.”

Micalias pensou nos falsos profetas que conhecera. Homens de palavras melífluas, que por uma peça de prata ou um cântaro de vinho prediziam vitórias, colheitas abundantes, bons auspícios. Viam-se sonhos onde havia apenas vento, ouviam vozes onde só havia o silêncio de Deus. E o povo, faminto por esperança, engolia as mentiras. Agora, a palavra divina prometia um tal zelo pela verdade, que até os laços de sangue se romperiam para defendê-la. Era um temor saudável, pensou ele, um fogo que queimaria a palha e deixaria o grão limpo.

Os dias se passaram, e uma tensão silenciosa foi tomando conta de Micalias. Aquele pedaço de barro no canto tornou-se uma sentinela muda de seu próprio coração dividido. Até que uma manhã, seu filho mais novo, Joel, um rapaz de rosto sério e olhos que brilhavam com a nova fé, parou diante do altar. Não disse nada. Apenas olhou para o ídolo, depois para o rosto do pai. E naquele olhar, Micalias não viu acusação, mas uma dor profunda, uma pena silenciosa. Foi aquele olhar que o traspassou mais do que qualquer discurso inflamado.

Naquela mesma noite, já alta, Micalias levantou-se. O luar entrava pela porta entreaberta, pintando o terafim com um branco fantasmagórico. Ele se aproximou, suas mãos encontraram a superfície áspera e fria. Pegou-o com firmeza. Não houve drama, nem voz do céu. Apenas o peso do objeto e o peso maior da decisão. Saiu de casa, caminhou sob as estrelas até a beira do ribeirão que corria perto da aldeia. Parou, respirou fundo o ar noturno. E então, com um gesto que foi ao mesmo tempo violento e libertador, atirou o ídolo nas águas escuras. Houve um baque surdo, um borrifo, e depois apenas o som da correnteza levando embora, para sempre, aquele pedaço mudo de seu passado.

Ao voltar, a casa pareceu mais vazia, mas o ar, mais leve. No canto, restava apenas o altar vazio de pedra, que ele decidira desmanchar ao amanhecer. Deitou-se, e um sono profundo, como há muito não experimentava, veio sobre ele.

O sol da manhã seguinte trouxe consigo a notícia que correu de casa em casa. Nabot, um velho conhecido por suas “visões” convenientes, fora encontrado pelos seus próprios familiares, vestindo um manto de pelo, a anunciar mais uma “palavra do Senhor” sobre fortuna e prosperidade para quem o sustentasse. Seu pai, um homem austero que perdera um filho na guerra por seguir conselhos falsos, confrontou-o publicamente. E, diante de todos, com uma dor que era também fúria santa, declarou: “Não viverás, porque falaste mentiras em nome do Senhor.” Não houve violência física, mas um desprezo tão cortante, uma rejeição tão completa, que Nabot, envergonhado e desmascarado, fugiu da aldeia para nunca mais ser visto. A profecia se cumpria não pelo ferro, mas pela força arrasadora da verdade reconhecida e defendida.

Micalias acompanhou tudo de longe. E compreendeu. A purificação não era apenas sobre objetos, mas sobre a alma. Sobre a fonte das palavras. Anos depois, já com os cabelos totalmente brancos, ele viu seu próprio neto, um menino de talvez oito anos, correr e cair no terreiro, rasgando o joelho numa pedra afiada. O choro foi alto, e a ferida, profunda. Ana, agora avó cansada, correu para confortá-lo. Enquanto lavava o sangue e aplicava unguentos, ouviu-se a criança dizer, entre soluços: “Vovô, ele me perguntou de onde era essa ferida…”

Micalias se aproximou, pôs a mão pesada e bondosa sobre a cabeça ensopada de suor do neto. “E o que você respondeu, meu filho?”

O menino olhou para o joelho sangrando, depois para os olhos sábios do avô. Um lampejo de algo que parecia compreensão além dos anos passou por seu rosto. Ele encolheu os ombros, num gesto simples e puro.

“Eu disse que foi brincando, vovô. Aqui em casa. Foi brincando.”

E Micalias, naquele instante, lembrou-se das palavras finais da profecia que agora moldava seus dias: “E, se alguém lhe disser: Que feridas são essas nas tuas mãos?, dirá ele: São feridas com que fui ferido em casa dos meus amigos.”

Uma paz profunda, tingida de uma solemnidade doce e triste, encheu seu peito. O menino não mentira. A ferida era real, doía, sangrava. Mas sua origem estava no aconchego do lar, nos riscos da vida comum, não em batalhas gloriosas ou condecorações vãs. Talvez, pensou o velho Micalias enquanto observava os netos brincarem sob o sol implacável da Judeia, talvez a maior purificação de todas fosse aprender a carregar nossas feridas com verdade. E reconhecer, na própria casa, no seio da própria história, o lugar onde tanto a dor quanto a graça nos moldam, até que um dia, o próprio Deus nos lave, numa fonte aberta, para purificar pecado e impureza.

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