A palavra do Senhor veio a Jonas pela segunda vez. Desta vez, ele não discutiu. O sabor amargo de água salgada e a escuridão vegetal do ventre do grande peixe ainda eram memórias vívidas em sua boca e em sua pele. Uma obediência resignada, cinzenta como o céu da manhã que se formava sobre o mar, o moveu. “Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive e proclama contra ela a mensagem que eu te direi.”
A jornada foi longa, uma sucessão de poeira, sol inclemente e o cheiro constante de terra queimada. Nínive não era apenas uma cidade; era uma presença. Antes mesmo de avistar seus muros, Jonas sentia seu peso no ar. O cheiro chegava primeiro: uma mistura complexa de fumaça de forja, especiarias exóticas, animais em multidão e o dulçor pesado de frutas em fermentação. Depois, o som. Um zumbido profundo, como o de um enxame gigantesco, feito de milhares de vozes, rodas rangendo sobre pedra, martelos batendo, animais gritando. Era o som do poder, bruto e autoconfiante.
Quando finalmente a avistou, erguendo-se da planície como uma montanha feita por mãos humanas, Jonas sentiu um frio no estômago. Os muros eram tão altos que três carruagens poderiam correr lado a lado em seu topo, dizia-se. Torres imponentes cortavam o horizonte. Por seus portões, largos como desfiladeiros, fluía uma torrente incessante de humanidade: soldados assírios de armaduras brilhantes e expressões duras, mercadores de rostos cansados de dez nações, escravos com olhos baixos, sacerdotes de deuses sanguinários carregando estranhos emblemas. Era uma cidade que respirava violência e opulência na mesma respiração.
Jonas entrou pelo Portão do Sol. A aglomeração era sufocante. O ar, parado e quente, carregava fragmentos de todas as línguas do mundo conhecido. Ele não procurou o palácio real, nem as praças principais. Sentiu uma urgência, uma pontada antiga e conhecida no peito, que o levou para um dos bairros mais pobres, onde as casas de tijolos de barro se amontoavam umas sobre as outras e o lixo corria em pequenos regatos pelas vielas. Ali, onde o cheiro do poder se misturava ao da miséria, ele parou.
E respirou fundo. A voz que saiu não era a sua. Era áspera, carregada de uma autoridade que lhe arranhava a garganta.
“Quarenta dias!” rugiu, e o barulho local pareceu aquietar-se um pouco. Alguns rostos se voltaram, curiosos. “E Nínive será destruída!”
As palavras ecoaram contra as paredes de barro. Não eram um discurso elaborado. Não havia argumentação, nem apelo. Era um anúncio puro, simples e terrível como a queda de uma pedra. “Destruída!” repetiu, começando a caminhar. “Em quarenta dias, a ira do Senhor, o Deus do Céu e da Terra, o Deus de Israel, se abaterá sobre este lugar! Tudo será virado do avesso! Estas paredes, estas torres, tudo será pó!”
Algo na crueza da mensagem, na estranheza daquele homem vestido com roupas empoeiradas de viagem, com o rosto marcado por um sol que não era o da Assíria, fez com que as primeiras pessoas parassem. Uma mulher com um cântaro na cabeça congelou, os olhos arregalados. Um ferreiro, seu martelo suspenso no ar, olhou para as chamas de sua forja como se visse nelas um presságio. A notícia começou a se espalhar. Não como um decreto oficial, mas como um fogo em palha seca, de boca em boca, com a velocidade do terror.
“Um profeta estrangeiro…”
“Destruição total…”
“Quarenta dias… o Deus de Israel…”
Jonas caminhou um dia inteiro pela cidade, do nascente ao poente, repetindo a mesma sentença. Não sorria. Não gesticulava. Era um monumento ambulante ao juízo. E a cidade, lentamente a princípio, depois com uma velocidade assustadora, começou a se dobrar. Não começou pelo palácio. Começou nas vielas, nas casas comuns. A mulher do cântaro caiu de joelhos, e a argila se quebrou no chão, a água se espalhando na poeira. O ferreiro apagou seu fogo. Um comerciante começou a retirar as mercadorias de sua tenda, não para vender, mas como se fossem já cinzas.
A convicção era inexplicável, um vento de temor que soprava do espírito. Os ninivitas, por todas as suas crueldades, eram um povo profundamente religioso, acostumado a aplacar deidades iradas com sacrifícios. Mas isto era diferente. Era a simplicidade absoluta da mensagem. Não havia ritual que comprasse mais quarenta dias. Só restava uma coisa.
O rumor chegou aos ouvidos dos nobres, e destes ao próprio rei da Assíria. O monarca, um homem habituado a decretar a morte de nações inteiras, levantou-se de seu trono de ébano e marfim. Saiu para a varanda do palácio, olhando para sua imensa cidade. E o que viu o deixou sem fôlego. O zumbido habitual tinha cessado. Em seu lugar, um silêncio pesado, quebrado apenas por gemidos e súplicas. Em cada rua, em cada praça, o povo se vestia de saco – desde o maior até o menor. Até os animais, os grandes bois que puxavam os carros de guerra, os rebanhos de ovelhas, estavam cobertos com panos ásperos, e mugiam baixinho, como se sentissem o peso no ar.
O rei rasgou suas vestes reais, vestiu-se de saco e sentou-se diretamente sobre as cinzas, no chão do terraço, à vista de todos. Então, decretou, mas não um decreto de guerra. Um decreto de rendição.
“Por ordem do rei e de seus nobres: Homem e animal, bois e ovelhas, não provem coisa alguma; não pastem, nem bebam água. Cubram-se de pano de saco, homem e animal, e clamarão a Deus com força. Que cada um se converta do seu mau caminho e da violência que há nas suas mãos.”
A teologia da ordem era impressionante. Não era apenas um ritual de penitência. Havia um lampejo de compreensão: “Quem sabe?” dizia o decreto. “Quem sabe se Deus se voltará, se arrependerá do furor da sua ira, de modo que não pereçamos?”
A cidade inteira entrou em paralisia sagrada. Não se ouvia o som da forja, do comércio, da música. A fumaça que subia ao céu não era mais a dos sacrifícios aos ídolos, mas a da fervorosa oração de um povo que, de repente, se via nu diante da possibilidade do nada. O cheiro no ar mudou. Agora era o cheiro de pó, de cinzas, de lágrimas e de uma esperança frágil, tecida de arrependimento.
Jonas, de um outeiro nos arredores, observava a cidade silenciosa. O sol se punha, tingindo os altos muros de Nínive de um dourado sanguíneo que, aos poucos, dava lugar ao roxo da noite. Dentro dos muros, nem uma fogueira se acendia. Era um jejum de luz e de som. Ele respirou o ar da noite, mais fresco agora. A sentença estava dada. A cidade havia respondido. E no coração do profeta, misturado a um alívio obscuro, havia um mal-estar profundo. Porque ele conhecia, melhor do que ninguém naquela planície, a natureza daquele a quem clamavam. Um Deus lento em irar-se, mas grande em amor. Um Deus que poderia, de fato, mudar de intento.
E no céu, acima da cidade silenciosa e vestida de saco, as primeiras estrelas apareceram, frias e distantes. A sentença dos quarenta dias pendia sobre Nínive, mas outra sentença, mais antiga e mais profunda, a da compaixão divina, já começava a ser escrita no silêncio da noite. O destino da grande cidade agora não estava mais nas mãos de seu rei, nem em seus exércitos, nem mesmo em seu arrependimento. Estava nas mãos daquele que vira o saco, as cinzas, e ouvira o clamor que subia das trevas.



