Bíblia em Contos

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A Torre à Beira do Abismo

O peso da palavra veio num dia em que o céu sobre o rio Quebar parecia de bronze fundido. Não era o calor, era uma opressão que descia, uma mão fechando-se sobre o peito. Ezequiel sentiu o familiar aperto no espírito, aquela convergência de vozes que não eram vozes, mas uma só Verdade cortando sua alma como uma faca quente. A palavra do SENHOR não era um som, era um peso, um fardo que se instalava em seus ossos antes de encontrar forma.

“Filho do homem,” ecoou dentro dele, “porque Tiro disse sobre Jerusalém: ‘Ah! Ah! Ela está quebrada, a porta dos povos! Para mim ela se voltou; eu me encherei, agora que ela está em ruínas!’”

A visão não chegou como um quadro, mas como uma geografia de condenação. Ele viu a cidade, não com os olhos, mas com a memória de Deus. Tiro, a rainha do mar, a insolente, a que habitava na entrada do mar e negociava com os povos até as costas mais distantes. Suas torres altaneiras não eram de pedra, mas de arrogância tecida com fios de ouro e púrpura. Seu porto, um sorriso cínico voltado para o mundo. Ela olhara para a desgraça de Jerusalém, a irmã montanhosa, e vira apenas oportunidade. O comércio que antes fluía para os gates de Judá agora viraria para suas docas. A queda de uma era a ascensão da outra. E nisso, celebrava.

A voz do SENHOR continuou, rolando como pedregulhos nas profundezas: “Portanto, assim diz o SENHOR Deus: Eis que eu estou contra ti, ó Tiro. Farei subir contra ti muitas nações, como o mar faz subir as suas ondas.”

E então, a narrativa da ruína começou a se desenrolar diante de Ezequiel, não em sequência lógica, mas em camadas de horror, como as camadas de uma cebola sendo descascadas para revelar o nada no centro.

A primeira camada foi a terra. Ele viu Nabucodonosor, rei da Babilônia, vindo do norte. Não um exército, mas uma força da natureza, lenta, inexorável. “Virá com cavalos, com carros, e com cavaleiros, uma assembléia e muito povo.” Ezequiel ouviu, antes de ver, o som abafado dos cascos sobre a terra seca, o ranger dos eixos dos carros de guerra, o metal esfregando contra o couro. Eles não atacariam a ilha, a Tiro nova, fortaleza inexpugnável no mar. Atacariam a cidade velha, no continente, a Tiro mãe. “Contra os teus muros edificarão rampas, e contra ti levantarão fortins; levantarão contra ti escudos, e aríetes usarão contra as tuas portas.” A visão era de uma paciência brutal. Ele viu os montes de terra sendo amontoados, centímetro por centímetro, dia após dia, ano após ano, até que o muro, outrora vertical, se tornasse uma ladeira a ser escalada. O aríete, um tronco de cedro com cabeça de ferro, balançando como um péndulo de demolição, batendo, batendo, batendo, num ritmo monótono que ecoava nos ossos da cidade.

“Teus subúrbios passarão ao fio da espada.” E veio o cheiro. Fumaça de casas de madeira e esteiras, sangue se infiltrando na terra poeirenta, o fedor agudo do pânico. A cidade continental, Ushu, foi desmantelada. Suas pedras, suas madeiras, seu entulho, tudo foi lançado nas águas rasas do estreito. Ezequiel viu homens suados, cobertos de pó, trabalhando como formigas sob um sol impiedoso, construindo não um muro, mas um caminho. Uma calçada. Uma ligação entre a terra firme e a ilha arrogante. A obra de um cerco faraônico. O mar, que era sua proteção, estava sendo vencido pela persistência insana de um conquistador.

E então, a segunda camada: o mar virando contra ela. A visão se alargou, o tempo se acelerou. A queda não terminaria com Nabucodonosor. Havia uma vagueira de ira divina que ia além de um único rei. “Virei a tua beleza em ruínas… farei de ti uma penha desnuda; lugar de secar redes ficarás, e nunca mais serás reedificada.” A imagem era de absoluta desolação. As magníficas muralhas da ilha, rendidas após treze anos de cerco, não seriam restauradas. O pó fino da glória pisada subiu em turbilhões. Os palácios de marfim e cedro, onde mercadores se embriagavam com vinho da Grécia e se vestiam de linho fino do Egito, tombaram. O som não era de estrondo, mas de um suspiro longo, o suspiro de uma cidade expirando.

Ezequiel viu os pescadores. Esta foi a imagem mais pungente. Homens simples, de pés calejados e rostos queimados pelo sol, vindos de Sidom, de Arvad, das pequenas aldeias da costa. Eles não vinham para saquear ouro, mas para usar a morte de um império para sua vida cotidiana. Sobre as pedras imensas e lavradas que outrora formaram o cais real, eles estenderiam suas redes para secar. O silêncio era total, apenas o vento do mar e o chilrear ocasional de uma gaivota. O lugar do comércio mundial, do murmúrio de dezenas de línguas, do tilintar de moedas de toda a terra, agora só abrigaria o silêncio e o trabalho solitário do pescador. “Das tuas pedras, e da tua madeira, e do teu pó, te farão o lugar para estender as redes.”

E a terceira camada, a mais profunda: o esquecimento. “Nunca mais serás edificada.” A sentença ecoou no vazio. Tiro não seria uma cidade em ruínas, pitoresca, lembrada. Seria apagada. As grandes pedras de seus templos a Melqarte, de suas fortificações, seriam lançadas ao mar, como um jogador varre as peças de um tabuleiro ao final do jogo. Ezequiel sentiu o calafrio da eternidade naquela palavra: “nunca”. Era um fim não apenas físico, mas memorial. O mar, seu deus e sua guarda, se tornaria seu túmulo. “Quando tu faltar, gemerão os que navegam, e o mar se encherá de perturbação.” Ele viu navios, velas enfunadas, passando pelo local onde Tiro estivera. Os capitãos, homens durões, apontariam para as águas rasas, para as sombras de pedras sob a superfície, e contariam aos marinheiros mais novos a história da cidade que desafiava os continentes e foi devolvida ao abismo. Haveria um tremor, um temor supersticioso. Até os remos parariam por um momento, em respeito à morte de algo grande.

A visão se dissipou como fumaça levada pelo vento do deserto. Ezequiel ficou sozinho, suado e trêmulo, à margem do rio. O peso ainda estava lá, mas agora transformado em uma tristeza vasta e solene. Não era alegria pela queda de um rival. Era o tremor diante da santidade ferida de Deus, daquela justiça terrível que varre até mesmo a mais esplêndida das construções humanas quando ela se edifica sobre a desgraça alheia e se curva apenas a si mesma.

Ele se levantou, os joelhos rangendo. A mensagem era clara. A soberba é uma torre construída na beira do abismo. E o vento do SENHOR, mais cedo ou mais tarde, sempre sopra. A queda não seria um evento, seria um processo. Uma erosão lenta até o nada. E no fim, restariam apenas as pedras lisas, as redes estendidas, e o canto eterno e indiferente do mar.

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