A memória do rio é longa. Mais longa que os muros de Nabucodonosor, mais persistente que o cheiro de incenso nos templos de Marduque. Eu, Asareel, filho de exilados, cresci ouvindo o Eufrates sussurrar em sonhos. Mas em Babilônia, aprendi a calar seus segredos sob o ruído das tavernas e o tilintar do ouro.
Naquela tarde, o ar pesava como um manto de lã úmida. O sol, um disco de cobre enferrujado, afundava sobre os Jardins Suspensos, lançando sombras alongadas e distorcidas pelas alvenarias monumentais. Eu caminhava pela Via Processional, não como um hebreu cativo, mas como um funcionário menor da corte, um copista de olhos baixos e mãos manchadas de tinta. O cheiro era o de sempre: especiarias queimando nos altares, óleo de sésamo frito nas barracas, o dulçor enjoativo da cerveja de tâmaras e, por baixo de tudo, o fedor adocicado da podridão que escorria dos canais laterais.
A cidade era um cálice de ouro, como diziam os sacerdotes. Eu via as rachaduras. Nos rostos embotados dos carregadores assírios, nos olhos febris dos mercadores fenícios ávidos por mais um contrato, no sorriso demasiado largo dos eunucos que sussurravam nos corredores do palácio. Uma arrogância silenciosa impregnava os tijolos esmaltados. “Babilônia, a Grande”, “O Ornamento dos Reinos”. Os epítetos ecoavam vazios para mim, que lembrava das palavras roucas de meu pai, recitando em aramaico algo sobre um juízo, uma pedra de tropeço.
Foi perto do portão de Istar, sob os olhos vigilantes dos touros alados, que encontrei Damqi. Um velho babilônio, antigo intendente de armazéns, agora reduzido a vender amuletos de barro contra febres. Seus dedos, nodosos como raízes, agarram meu braço.
“Você ouviu, escriba?” Sua voz era um sopro de vento quente. “Lá no norte, além do deserto. Falam de um povo áspero, dos montes. Os medos… e outros, vindos de Ararate, Minni e Asquenaz.” Ele cuspiu o nome como se fosse um caroço: “Ciro. O persa.”
Eu abanei a cabeça, fingindo desinteresse. Mas uma corrente fria percorreu minha espinha. Palavras adormecidas despertaram, palavras proibidas, copiadas em rolos escondidos sob as tábuas do meu piso: “Eis que suscitarei contra Babilônia um vento destruidor…”
Os dias se arrastaram, mais quentes, mais opressivos. A festa do Ano Novo se aproximava, e a cidade se enfeitava como uma noiva envelhecida com demasiadas joias. Nos pátios do Esagila, o grande templo de Marduque, os ídolos eram polidos até ofuscar. Os sacerdotes cantavam hinos de eternidade, mas suas vozes soavam estridentes, apressadas. Até os animais sentiam. Vi um cavalo de carruagem real, ricamente adornado, espumar e arrear seus olhos, assustado por um pedaço de pano esvoaçante, como se visse um fantasma.
A notícia veio não por mensageiros a cavalo, mas pela boca dos barqueiros do Eufrates. Eles traziam histórias desconexas, fragmentos de pânico rio acima: “O desvio está feito”, murmuravam. “O rio… secaram seus braços. Caminham no leito dele como em estrada seca.” Lembrei-me, então, com uma clareza que me parou o fôlego: “Secarei a sua fonte, e secarei os seus rios.”
O terror, em Babilônia, não chegou com gritos, mas com um silêncio crescente. O burburinho do mercado diminuiu. As portas das casas mais ricas ficaram trancadas por mais tempo. Nos conselhos, ouviam-se falar de traição. Generais acusados, alianças que se desfaziam como teia de aranha ao vento. O rei Nabonido, absorto em suas antiguidades e na adoração da lua em Harã, parecia um sonâmbulo no trono. Belsazar, seu filho, governava na cidade com a insolência de quem acredita na própria propaganda.
Foi na noite do banquete que o cálice se quebrou. Não estive lá, é claro. Mas o eco chegou até os aposentos dos servos, um murmúrio que se transformou em alvoroço. Contaram depois, com vozes trêmulas, das mãos que surgiram da escuridão, escrevendo na argamassa da parede. Contaram do rosto do rei que se dissolveu em cera derretida, dos sábios caldeus mudos como peixes. E soube, então, que a sentença estava escrita: “Mene, Mene, Tequel, Parsin.”
A cidade tentou se agarrar à normalidade. Os moinhos continuaram a moer, os fornos a queimar tijolos. Mas era uma pantomima. A profecia de Jeremias, que circulara em segredo entre os exilados, agora parecia um roteiro que se desenrolava diante de nossos olhos. “Fujam de dentro de Babilônia”, dizia o texto. “Cada um salve a sua vida.” Muitos de meu povo começaram a vender seus bens, a fazer pequenas malas, a olhar para o deserto a oeste com uma nova luz nos olhos.
O cerco, quando veio, foi um estrangulamento lento. Os exércitos de Ciro não investiram contra os muros imponentes. Eles simplesmente… esperaram. E dentro, a “cidade de ouro” começou a apodrecer. A fome, primeiro sutil, depois descarada, rondou as ruas. Os depósitos reais estavam cheios, mas o pão sumiu do mercado. A “taça de ouro” havia intoxicado suas próprias filhas. A violência, antes contida pela lei, brotou em becos escuros. Era cada um por si, o império da ganhaância revelado em sua nudez grotesca.
E então, na noite em que os ventos do norte sopraram mais forte, trazendo o cheiro de poeira e fogueiras distantes, aconteceu. Um grito, depois outro, não de batalha, mas de surpresa abjeta. As portas do rio, a imensa entrada aquática sob os muros, estavam abertas. A guarda babilônica, embriagada pela arrogância e, dizem, por vinho real distribuído em celebração prematura, nada viu. Os persas entraram caminhando pelo leito do Eufrates, como fantasmas surgindo das próprias veias da cidade. A conquista foi rápida, um golpe cirúrgico no coração de um corpo já em colapso.
Não houve grande incêndio naquela noite. Não imediatamente. A destruição foi mais profunda, mais íntima. Vi, da janela de meu quarto, as estátuas de deuses seculares serem arrastadas de seus pedestais, não com fúria, mas com a frieza de mercadores avaliando um peso de bronze. Os ídolos que todo o temor não podia salvar. O silêncio que se seguiu ao alvoroço inicial foi o mais aterrador. O som de Babilônia — seu orgulho, sua fúria, sua luxúria — foi apagado.
Parti com um grupo de exilados ao amanhecer. Ao cruzar o portão, olhei para trás uma última vez. A névoa da manhã subia do rio, envolvendo os zigurates e palácios. E, pela primeira vez, eles pareceram o que sempre foram: construções de barro e palha, gigantes com pés de argila. A profecia se cumpria não como um relâmpago espetacular, mas como a maré, lenta, inevitável, lavando os alicerces de um castelo de areia.
O Eufrates seguia seu curso, indiferente. Levava agora os destroços de um império: uma sandália quebrada, um fragmento de tijolo esmaltado com o olho de um deus morto, o eco apagado de um cântico. E eu, carregando um rolo de palavras não minhas, mas de um profeta que viu o fim desde o início, pus os pés no caminho de volta. Para uma Jerusalém em ruínas, sim, mas para onde, afinal, a justiça, embora tardia, não é um ídolo mudo, mas uma promessa que ecoa no silêncio depois da queda.




