Bíblia em Contos

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Visão nas Margens do Tigre

O ar sobre o Tigre era pesado, carregado do pó que subia das margens cinzentas e do calor que ainda exalava das pedras, mesmo com o sol começando a esmorecer. Daniel sentia o peso nos ombros, um cansaço que não era apenas do corpo. Babilônia, com seus jardins suspensos e sua arrogância de tijolos esmaltados, nunca tinha sido sua casa. Era um palácio dourado de exílio. A saudade de Jerusalém, daqueles muros que agora não passavam de pilhas de entulho, era uma ferida que nunca cicatrizava, só adormecia às vezes, para acordar com mais força em noites como esta.

Há três semanas ele decidira buscar entendimento. Um jejum. Nada de carnes requintadas, nem vinho, nem mesmo o azeite suave que ungira a pele. Apenas o essencial, o que mantinha o corpo de pé. E oração. Muita oração. Palavras sussurradas contra o silêncio dos seus aposentos, gemidos que pareciam se perder no teto abobadado. Ele buscava clareza, um sinal, qualquer coisa que explicasse a angústia que sentia no espírito, um pressentimento de sombras se movendo por trás dos tronos dos homens.

No vigésimo quarto dia do primeiro mês, ele estava ali, às margens do grande rio, olhando para as águas barrentas que corriam indiferentes. A tarde murchava. Foi então que levantou os olhos.

E viu.

Não foi uma aparição gradual. Foi como se o véu do mundo se rasgasse de repente. Um homem vestido de linho, sim, mas um linho que não era deste tear, que parecia tecido de luz pálida e gelada. Os lombos cingidos com ouro de Ufaz – uma palavra que lhe veio à mente, um lugar de lenda, de metal perfeito. O rosto… o rosto era como um relâmpago. Daniel não conseguia fixar os olhos, era pura intensidade, olhos como tochas que queimavam sem consumir. Os braços e os pés brilhavam como bronze polido, e quando ele falou – se era falar – a voz era como o som de uma multidão, um rugido de águas profundas, de tempestade presa na garganta.

Daniel não caiu. Foi como se o chão tivesse sido arrancado de sob ele. Desabou, e a visão de capim seco e pedras pequenas foi a última coisa que viu antes de tudo escurecer. Um torpor pesado, de chumbo, o cobriu.

Quando a consciência voltou, foi primeiro pelo tato. A pedra áspera contra sua face. Depois, o som: suas próprias respirações curtas, ofegantes. Então, uma mão. Não via, mas sentia. Algo, alguém, o tocava, colocando-o de joelhos, depois sobre as mãos e os joelhos, como um bebê aprendendo a engatinhar. O toque era firme, mas não era áspero. Havia uma estranha gentileza nele.

“Daniel,” a voz veio, e agora era mais contida, um rio caudaloso contido num leito, mas ainda assim fazia vibrar seus ossos. “Homem muito amado. Entende as palavras que vou te dirigir. Fica de pé, porque agora fui enviado a você.”

Daniel tentou. Os músculos tremiam como cordas frouxas. Levantou-se, mas o corpo pendeu para a frente, uma árvore à beira de tombar. O suor frio escorria por suas têmporas, embora o ar estivesse morno. Ele ficou ali, curvado, incapaz de erguer o rosto para aquela presença.

“Não temas, Daniel,” a voz continuou, e as palavras pareciam carregar um peso de autoridade que, paradoxalmente, acalmava. “Desde o primeiro dia em que aplicaste o teu coração a compreender e a humilhar-te perante o teu Deus, as tuas palavras foram ouvidas. E eu vim por causa das tuas palavras.”

Daniel abriu a boca. A língua parecia de feltro. Um sussurro rouco saiu: “Como pode meu senhor falar com este seu servo? Desde que esta visão começou, as minhas forças se foram, e não me resta fôlego.”

A figura vestida de linho aproximou-se novamente. Desta vez, o toque foi diferente. Algo que se parecia com uma mão humana – mas envolvida num brilho que doía nos olhos – tocou seus lábios. Uma corrente de energia, não de choque, mas de vitalidade pura, correu por ele. Era como beber água gelada após uma caminhada no deserto. A fraqueza não desapareceu, mas recuou, permitindo que ele se endireitasse um pouco mais.

“Não temas,” repetiu o mensageiro, e Daniel percebeu que aquela não era uma saudação, era um diagnóstico. “Homem muito amado, paz seja contigo. Sê forte, sê forte.”

E Daniel, sentindo um fio de coragem voltar, respondeu: “Fala, meu senhor, pois me fortaleceste.”

Foi então que o mensageiro começou a explicar, e o mundo de Daniel nunca mais seria o mesmo. A luta não era apenas entre reis e impérios. Havia um conflito nos lugares invisíveis. O príncipe do reino da Pérsia – não Ciro, não um homem, mas uma potestade, uma sombra com autoridade – havia se colocado contra ele, o mensageiro, por vinte e um dias. Miguel, um dos primeiros príncipes, um arcanjo guerreiro, teve que vir em seu socorro, para que ele pudesse finalmente atravessar aquela barreira de resistência espiritual e trazer a resposta a Daniel.

Daniel ouvia, atônito. Suas três semanas de jejum e angústia não foram um intervalo de silêncio divino. Foram o eco, em seu espírito, de uma batalha colossal travada nos céus. Suas orações não haviam caído no vão; elas foram as flechas que incendiaram o campo de batalha. Deus ouvira no primeiro instante. A demora estava no trânsito, num combate cósmico que ele, Daniel, apenas pressentira na fraqueza de sua carne.

O mensageiro falou do futuro, de conflitos entre reis do Norte e do Sul, de tempos trabalhosos. Mas as palavras, embora graves, já não aterrorizavam Daniel da mesma forma. Ele agora via o mecanismo por trás da cortina. Sabia que sua nação, seu povo, não estavam à mercê de caprichos cegos da história. Havia um governo, um propósito, e uma guerra que seus olhos não podiam ver, mas na qual suas orações eram armas decisivas.

“Agora, tenho que voltar para lutar contra o príncipe da Pérsia,” disse o mensageiro, sua voz soando outra vez como o mar distante. “E quando eu partir, eis que virá o príncipe da Grécia. Mas ninguém me ajuda contra eles, a não ser Miguel, vosso príncipe.”

A visão começou a se desfazer, não como um fumo que se dissipa, mas como uma luz que se recolhe, se concentra num ponto, e depois se apaga. Daniel ficou ali, à beira do rio, no crepúsculo agora completo. O corpo ainda tremia, mas era um tremor diferente. Não era medo. Era outra coisa. Era a vibração de quem havia tocado, mesmo que de relance, nas engrenagens do universo.

A caminhada de volta ao palácio foi lenta. Seus pés tropeçavam nas pedras que não via. Seus olhos estavam voltados para dentro, para aquela cena gravada a fogo em sua mente. Chegou ao seu quarto e caiu sobre o leito, não em fraqueza, mas em prostração sagrada. Os dias seguintes foram de uma convalescença estranha. Comia pouco, recuperando-se aos poucos. O rosto mantinha uma palidez que preocupava os serviçais, mas nos seus olhos havia uma luz nova, uma profundidade quieta.

Ele havia visto. Havia ouvido. E sabia, com uma certeza que atravessava os séculos futuros e as noites mais escuras da história, que era um homem muito amado. E que sua oração, qualquer oração nascida de um coração humilde, jamais era um grito no vazio. Era o clamor que mobilizava legiões.

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