O ar na sala estava parado, pesado como um manto de lã úmida. Nem a brisa noturna que vinha da janela alta conseguia aliviar a opressão que não era do tempo, mas do espírito. Isaías sentia o peso nos ossos, um cansaço que precede a visão. Deitado no leito de cordas, fitava as sombras dançantes no teto de vigas, provocadas pela lamparina que agonizava no canto. O sono fugia, não como fuga, mas como recusa. Algo se aproximava no escuro, além das paredes de barro, além das fronteiras de Judá.
E veio.
Não como um sonho, mas como uma cena imposta, vívida e cruel. Um nome ecoou primeiro em seu íntimo, seco como o estalar de um ramo no deserto: “Babilônia”. E diante de seus olhos abertos, a planície desdobrou-se. Não a Babilônia das torres e jardins suspensos que os mercadores descreviam, mas uma Babilônia essencial, uma ideia feita de pó e pavor.
Ele se via em um posto avançado, uma atalaia sem nome num ermo. A terra era chata, amarela, estendendo-se até onde a vista podia alcançar, fundindo-se com um céu de cobre sob um sol impiedoso. Seus pés, nas sandálias gastas da visão, sentiam o calor do chão queimando através do couro. O silêncio era total, um silêncio que retinha a respiração do mundo. E ele sabia, com a clareza terrível que acompanha os oráculos, que tinha de ficar ali, de vigiar. “Vai, coloca uma sentinela, que anuncie o que vir”, soou a ordem dentro dele, uma voz que era sua e não era.
As horas da visão arrastaram-se, pesadas. O sol começou a declinar, tingindo o deserto de sangue e depois de púrpura. O crepúsculo caiu, rápido como uma cortina, e a noite trouxe consigo não o alívio, mas uma tensão aguda. Ele permanecia de pé, os olhos escancarados para as trevas, os ouvidos apurados para qualquer som que rompesse o manto de silêncio. Seu corpo, na visão, tremia de exaustão e antecipação.
Então, veio o primeiro movimento. Na escuridão compacta, formas começaram a se agitar. Era como se a própria noite se partisse em pedaços que se chocavam. O som chegou depois: um rumor distante, abafado, que crescia como o rosnar de uma fera adormecida. Era o tropel de animais, o choque de armas, o grito abafado de homens. Uma batalha. Mas não uma batalha vista, mas ouvida na escuridão, muito mais aterrorizante. Ele se inclinou para a frente, os tendões do pescoço rígidos, tentando discernir, dar forma ao caos sonoro. “Montai a cavalaria!”, gritou alguém, ou foi sua mente completando o quadro? “Eis aqui vem uma tropa de cavaleiros, dois a dois.”
E do nada, surgiram. Silhuetas contra um brilho súbito e sinistro que irrompeu no horizonte – o reflexo de fogueiras em armaduras? Paramentos de uma cidade incendiada? Eles vinham em pares, disciplinados, um fluxo interminável de sombra e metal. A cavalaria da calamidade. Um frio que não era da noite percorreu sua espinha. A visão era clara agora: um cerco, um ataque fulminante. A cidade orgulhosa, a “Opressora” como ele a chamava em seus pensamentos, estava sendo dobrada como um junco.
A voz interior voltou, rouca, urgente: “E ela gritou como de dores de parto, e ansiou como alguém que está para dar à luz.” Ele podia ouvir o gemido coletivo, um som arrastado que vinha da terra, o estertor de um império. Era o fim. Um fim meticuloso, predito, que agora se desenrolava diante dele com a precisão cruel de um mecanismo.
De repente, uma pausa. Um momento de silêncio palpável, como se o mundo prendesse o fôlego. E naquele vácuo, sua própria voz, na visão, clamou, contaminada pela angústia que testemunhava: “As dores me tomaram, como as dores de uma mulher que está para dar à luz; estou tão curvado que não posso ouvir, e tão desfalecido que não posso ver.” A dor não era física, era o peso insuportável de carregar a visão do juízo. Era a compaixão despedaçada pelo povo que cairia, misturada com o terror sagrado diante do Deus que assim agia.
Seu coração, no leito em Jerusalém, batia descompassado contra as costelas. A sala desaparecera completamente. Ele era apenas olhos e ouvidos no seu posto de vigia no ermo.
E então, o clímax. Da escuridão em tumulto, uma figura destacou-se, correndo. Um mensageiro, solitário, os pulmões ardendo, os pés levantando nuvens de poeira fantasmagórica. Ele corria em direção à atalaia, seu rosto uma máscara de horror e urgência. Antes que pudesse chegar, antes que abrisse a boca, o conhecimento completo desceu sobre Isaías, como uma pedra. Ele já sabia. A palavra formou-se em seus lábios secos, primeiro um sussurro, depois um grito que rasgou a noite da visão:
“Caiu! Caiu Babilônia! E todas as imagens de escultura dos seus deuses estão despedaçadas até o chão!”
O grito ecoou no vazio, solene e final. A cena começou a se dissolver. A poeira assentou. Os sons de batalha se extinguiram. O mensageiro fantasma desapareceu, sua mensagem já entregue, não a um homem, mas à própria história através dele. Restou apenas uma profunda, penetrante tristeza, e um cheiro de cinza e ruína pairando no ar imóvel.
A visão se esvaiu. Isaías deu um salto no seu leito, o corpo coberto de suor frio, as mãos trêmulas. A primeira luz cinzenta da madrugada filtrou-se pela janela. O alvorecer em Jerusalém era tranquilo, o canto de um galo distante rompia o silêncio. Mas ele ainda sentia o gosto do pó da planície babilônica na boca. A opressão no peito não era mais presságio, era memória do futuro.
Ele se arrastou para fora do leito, os joelhos fracos. Caminhou até a mesa onde o rolo de couro cru esperava. Suas mãos, ainda trêmulas, pegaram o estilo. A tinta era preta, densa. Ele não escreveu “visão de Isaías”. Escreveu, com letras firmes que contrastavam com o tremor interior: “Sentença contra o deserto do mar.” As palavras começaram a fluir, não como poesia polida, mas como o relato urgente de uma testemunha. “Como turbilhões que passam pelo Neguebe, assim vem do deserto, da terra horrível.”
Cada traço no couro era um fragmento daquela noite de vigília. A cavalaria aos pares, o grito de parto da cidade, sua própria angústia transfigurada em lamento profético, o mensageiro, o grito final de queda. Ele escreveu até os dedos formigarem, até a luz da manhã se tornar clara e dourada, banhando a sala numa normalidade que agora lhe parecia ilusória.
Ao final, parou. Olhou para as últimas palavras, uma referência quase obscura a Dedã e Tema, lugares distantes, rotas de comércio que se desviariam do desastre. Um detalhe ínfimo na grande tapeçaria do juízo, mas que ele incluiu porque também o vira – caravanas fugindo, o comércio do mundo sendo redesenhado pelo tremor de um império que caía.
Deixou o estilo cair. O oráculo estava completo. Não era apenas sobre Babilônia e seu destino, sabia ele. Era sobre o colapso de toda segurança humana, de todo poder que se erguia contra o céu. Era um aviso gravado na alma, um eco que ressoaria por séculos. A sala estava quente agora, com o calor real do sol da manhã. Mas Isaías ainda sentia, profundamente enraizado em seu ser, o frio penetrante da vigília noturna no ermo, e o som solitário e terrível de seus próprios lábios anunciando, para as eras vindouras, o que nenhum olho humano ainda podia ver.




