O sol da tarde pesava sobre Jerusalém, um manto de calor úmido que fazia o ar tremer acima das pedras claras. No pequeno cômodo atrás de sua loja, onde o cheiro de lã tingida e poeira antiga nunca se dissipava, Eliabe enrolava com mãos trêmulas um novelo de fio carmesim. Seus olhos, gastos por décadas de ponto fino e luz fraca, já não conseguiam distinguir bem as cores, mas as mãos conheciam o trabalho. A cidade fervilhava lá fora, um rumor distante de negociações, disputas e expectativa. Era Páscoa. E, como sempre nestes dias, uma inquietação antiga, mais profunda que os ossos, se movia dentro dele.
Ele não estava na rua quando a multidão passou. Mas ouvira o alvoroço crescente, um turbilhão de vozes que não era o burburinho habitual do mercado. Era algo áspero, cortante. Pelas frestas da porta, vislumbrou fragmentos: a poeira revolvida, sandálias apressadas, o brilho ocasional de uma lança romana. E então, um rosto. Apenas um instante.
O homem carregava uma trave de madeira áspera nos ombhos, curvado sob seu peso. Seu rosto estava irreconhecível – inchado, marcado por cortes profundos e uma sujeira de sangue e cuspe secos. Os olhos, porém… Eliabe recuou, a respiração suspensa. Nos olhos daquele homem, apesar da agonia visível, não havia ódio. Não havia revolta. Havia uma lucidez terrível, um foco que parecia atravessar a própria dor e enxergar algo além daquela rua, além daquela hostilidade. Era um olhar que lembrava a Eliabe as palavras do profeta, aquelas que seu pai sussurrava em noites de angústia, palavras que pareciam entalhadas a fogo em sua memória velha.
*“Era desprezado, e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores, e experimentado nos sofrimentos; e, como um de quem os homens escondem o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum.”*
As palavras ecoaram dentro de seu peito enquanto ele fechava a porta, as mãos trêmulas apoiadas na madeira. Por que aquelas palavras, justo agora? Ele se virou para a penumbra da oficina, o coração batendo forte. O rosto daquele homem assombrava-o. Não era um rei. Não era um guerreiro. Era um homem quebrado, um “nada” aos olhos do mundo, carregando seu próprio instrumento de morte pelas ruas que deveriam levá-lo a um trono.
O tempo escorreu, lento e pesado. O rumor da cidade mudou de tom, convergindo para um lugar além dos muros, para o monte que todos conheciam mas ninguém nomeava em voz alta naqueles momentos. Uma escuridão prematura começou a engolir o dia, não das nuvens, mas de uma treva espessa e inexplicável que desceu sobre a cidade como um pano grosso. O ar ficou parado, opressivo. Os pássaros emudeceram. No coração de Eliabe, a inquietação se transformou em uma certeza dolorosa, uma pontada de culpa sem origem definida.
Ele se lembrou de Isaias, da leitura na sinagoga. *“Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido.”* Sempre imaginara uma figura imponente, um libertador esmagando opressores. Nunca um homem cujo sofrimento parecia tão… particular. Tão íntimo. Cada golpe naquele rosto, cada insulto lançado, não pareciam destinados apenas a ele, mas a algo que ele carregava. Como um cordeiro no Templo, silencioso diante do tosquiador. *“Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a boca; como um cordeiro que é levado ao matadouro, e como a ovelha que perante seus tosquiadores fica calada, ele não abriu a boca.”*
A escuridão lá fora era agora absoluta. Eliabe acendeu uma lamparina, e a chama vacilante projetou sombras dançantes nas paredes, como espectros. Ele não orava há anos, não de verdade. Mas agora, sentado na poeira de sua oficina, as palavras saíram num sussurro rouco. “Por quê?” A pergunta era para o vazio, para a escuridão, para o Deus que parecia ter virado o rosto. E então, como se em resposta, uma imagem veio à sua mente, nítida e clara: o fio carmesim que enrolara. A cor do sangue, a cor da expiação no Santo dos Santos. Mas também a cor do escárnio, do manto que os soldados colocariam num rei de mentira.
*“Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados.”*
Um calafrio percorreu sua espinha. “Nossas transgressões”. As dele, Eliabe. Suas pequenas mentiras nos negócios, sua indiferença pelo mendigo à porta, sua amargura silenciosa com a vida que murchava. Sua iniquidade, sua paz faltando. Ele olhou para as próprias mãos, calejadas e manchadas de tinta. E compreendeu, num clarão de dorosa lucidez, que a violência que consumia o homem lá fora não era apenas dos soldados, dos sacerdotes, da turba. Era dele também. Sua rejeição por um Deus que não se apresentava como ele esperava. Seu desejo por um messias que conquistasse, não que se entregasse. Cada prego, cada golpe, parecia ecoar com o som surdo de suas próprias falhas, das falhas de todos.
O silêncio que se seguiu ao fim da escuridão foi o mais aterrorizante de todos. Depois, um tremor de terra, sutil, como um suspiro profundo da própria criação. E então, a notícia, trazida por um vizinho pálido e atordoado: “Acabou. O profeta da Galiléia. No madeiro.”
A noite caiu de verdade. Eliabe não conseguiu dormir. Sentou-se no escuro, a visão daquele rosto marcado fixa em sua mente. O cordeiro abatido. O servo sofredor. A oferta. As peças, terríveis e gloriosas, se encaixavam de uma forma que desmontava todo seu entendimento. Não era uma derrota. Era um ato. Um ato de amor de uma magnitude que ele não podia compreender, apenas aceitar, como um homem faminto aceita um alimento que não sabe nomear.
Ao amanhecer, com uma luz fria e pálida invadindo a oficina, Eliabe pegou um pequeno pedaço de pano limpo. Com um carvão, traçou, hesitante, linhas simples. Não um rosto de rei, não um símbolo de poder. Apenas a figura de um homem, curvado, carregando uma trave. E abaixo, com letras trêmulas de velho, escreveu as palavras que agora ardiam em seu espírito com um novo significado, a única resposta possível ao vazio do sepulcro e à plenitude de sua própria culpa redimida:
*“Porquanto derramou a sua alma na morte, e foi contado com os transgressores; mas ele levou sobre si o pecado de muitos, e pelos transgressores intercedeu.”*
Era pouco. Era nada. Era tudo. O fio carmesim, na mesa ao lado, brilhava fracamente na primeira luz da manhã, não como um sinal de escárnio, mas como uma promessa tecida na própria história da dor. A dor que trouxe a paz.




