Elias apertou os olhos contra o sol da tarde, a poeira da estrada da Judeia grudando nos lábios ressecados. Atrás dele, um grupo silencioso, homens e mulheres com os ombros curvados não pelo peso das trouxas, mas por uma memória que doía como um osso quebrado mal saramado. Setenta anos. Setenta anos de um silêncio que não era paz, mas uma ausência estrondosa: o som do templo, o murmúrio das festas, o choro das crianças no pátio de casa. A Babilônia fora um rio largo e barrento que os arrastara, e agora, sob o édito de um rei persa de nome estranho, eles voltavam. Mas voltavam para quê?
A notícia chegara como um choque de água gelada no rosto de um dormindo. Liberdade. Retorno. As palavras soavam falsas, como uma língua esquecida. Alguns choraram. Outros, como Elias, apenas ficaram em silêncio, tocando a própria pele, incrédulos. A jornada através do descreto fora um pesadelo árido, cada milha para o oeste raspando um pouco mais a crosta de cinismo que ele criara para sobreviver. Agora, subindo a última colina antes do vale, uma sensação absurda começou a brotar em seu peito. Era um frio, um calor, um aperto. Era medo.
Lembrou-se do salmo. Um fragmento que sua avó, já com voz trêmula, sussurrava na escuridão do cativeiro, quando a saudade era uma faca: “Quando o Senhor trouxe do cativeiro os que voltaram a Sião, éramos como os que sonham.” Na época, a frase lhe parecera uma crueldade. Sonhos eram para os loucos ou para os mortos. Agora, parando no cume, Elias entendeu.
Jerusalém apareceu diante deles.
Não a cidade de ouro e cânticos de suas histórias infantis, mas uma criatura ferida, acocorada no alto dos montes. Os muros, outrora imponentes, eram dentes quebrados contra o céu. Torres caídas pareciam ossos espalhados. O silêncio que dela emanava era mais profundo que o do deserto. Um gemido coletou escapou do grupo. Uma mulher caiu de joelhos, e seu choro não era de alegria, mas de luto recém-desenterrado. Este montão de pedras era Sião? Este abandono era a herança prometida?
Elias sentiu as lágrimas, quentes e amargas, escorrerem por sua face empoeirada. Mas não eram apenas lágrimas de dor. Era algo mais confuso, uma tempestade dentro dele. E então, de sua própria boca, sem que ele comandasse, saiu um som rouco. Era um riso. Um riso curto, truncado, que se misturou ao pranto. Ele riu da vastidão da ruína, riu da sua própria esperança teimosa, riu do absurdo divino de trazê-los de volta para aquilo. E no eco desse riso, ele ouviu outros. Primeiro um, depois outro. Risonhos cortados por soluços. Uma alegria dilacerante, incontrolável, nascia ali no meio do desespero.
“Então a nossa boca se encheu de riso, e a nossa língua de cânticos”, murmurou para si mesmo, completando o verso que a avó não conseguia nunca terminar. Os cânticos ainda não haviam vindo, mas o riso, aquele riso de desespero e assombro, já enchia a boca com o gosto salgado das lágrimas. Era um riso que não negava a dor, mas que a atravessava, como a primeira folha verde furando a terra queimada.
Os dias que se seguiram foram de uma realidade áspera. Trabalharam desde o nascer do sol até o anoitecer, tirando pedras do entulho, marcando os alicerces do que fora suas casas. As mãos sangravam, as costas doíam. A noite trazia o frio e a lembrança dos campos férteis da Babilônia, onde pelo menos a fome era menos frequente. A murmuração crescia, sibilante como serpente: “Valeu a pena? Não seria melhor ter ficado?”
Numa tarde, Elias trabalhava sozinho no que fora o pátio da casa de seu pai. Encontrou, sob uma laje tombada, um objeto pequeno e corroído. Era um brinco de bronze, simples, verde pela ação do tempo. Ele o limpou com o polegar, e uma imagem veio à mente, nítida como um golpe: sua mãe, rindo, girando com ele no colo, os mesmos brincos dançando à luz de uma lâmpada de azeite. A saudade foi tão física que ele perdeu o fôlego. Não a saudade idealizada do exílio, mas a saudade real, concreta, do pó daquele lugar, do cheiro que tinha, da vida que ali pulsara.
Foi então que ele percebeu. O cativeiro não terminara. Ele trouxera a Babilônia dentro de si. Era um estado de alma, um exílio do coração. Eles estavam fisicamente em Jerusalém, mas suas almas ainda vagueavam pelas margens dos rios estrangeiros, entorpecidas pela nostalgia e pelo ressentimento.
Ajoelhou-se na poeira, o brinco apertado na mão fechada. E orou, não com palavras bonitas, mas com o silêncio desesperado de um homem perdido em sua própria terra. E naquele silêncio, algo mudou. Não foi uma voz audível, nem uma visão. Foi uma quietude diferente que se instalou, como a calmaria após uma tempestade. Ele olhou para as pedras ao redor, não mais como um túmulo, mas como uma semente. Uma semente terrível, feita de ruína e memória, mas uma semente, no fim das contas.
Levantou-se. Nos dias seguintes, notou-se uma mudança em Elias. Ele ainda trabalhava até cair de cansaço, mas agora o fazia com um propósito diferente. Começou a falar, não do passado glorioso, mas de um futuro invisível. “Os que com lágrimas semeiam, com júbilo ceifarão”, repetia, enquanto plantava uma figueira magra no canto do pátio. Era um ato de loucura, naquele solo cheio de cacos e cinzas. Mas ele regava a muda com o pouco de água que tinha, e fazia isso com uma solenidade que contagiava os outros.
Aos poucos, uma nova narrativa começou a se tecer entre eles. Já não eram apenas os que choravam sobre as ruínas, mas os que plantavam entre elas. Cada semente lançada na terra dura era um ato de guerra contra o desespero. Cada pedra assentada no novo muro, um verso de um cântico ainda não composto. A alegria explosiva e desconcertante do primeiro dia transformara-se em algo mais profundo e resiliente: uma esperança tecida no tear do trabalho diário, fio de lágrima e fio de suor.
Anos depois, Jerusalém ainda não era a cidade outrora cantada pelos salmistas. Mas tinha muros, tinha portas, e o som do martelo e do tear já não era o único a ecoar nos vales. No festival da colheita, Elias, agora com cabelos grisalhos e mãos calejadas para sempre, ficou de pé diante da pequena comunidade. Aos seus pés, cestos de cevada, trigo e romãs, o fruto da terra que um dia julgara morta.
Olhou para a multidão, para os rostos marcados, mas não mais derrotados. Lembrou-se do rio da Babilônia, do sabor amargo do exílio, do riso que doera tanto quanto chorar. E então, com uma voz que não tremia, declarou as palavras que se tornariam memória viva para seus filhos e netos:
“O Senhor fez grandes coisas por nós, por isso estamos alegres. Restaura, Senhor, a nossa sorte, como as torrentes no Neguebe. Aqueles que semeiam entre lágrimas, com júbilo ceifarão. Quem sai andando e chorando enquanto semeia, voltará com júbilo trazendo os seus feixes.”
Não era um relato do passado. Era um espelho do presente. A grande coisa que o Senhor fizera não fora apenas trazê-los para casa. Fora transformar o lamento em semente, o cativeiro interior em liberdade, e as torrentes secas da sua alma em mananciais de uma alegria que nem a ruína pudera matar. E Elias, colhendo uma romã vermelha e pesada do seu próprio quintal, soube, no profundo de seu ser, que o sonho da avó não era um escape da realidade. Era a realidade mais profunda de todas: a de que Deus escreve histórias retas com os fios tortos do sofrimento humano, e faz jorrar, das pedras do nosso desespero, o água que sacia a sede da alma.




