Bíblia em Contos

Bíblia em Contos

Bíblia

Sob o Sol, o Pão e a Sabedoria

O sol da nona hora caía oblíquo sobre os muros de Jerusalém, desenhando sombras compridas e preguiçosas que pareciam querer escapar da cidade. Dentro de uma casa modesta, com o chão de terra batida e o cheiro persistente de lamparina e ervas secas, o velho Simeão respirou fundo. O ar trazia a poeira do deserto e o murmúrio distante do mercado. Ele olhou para suas mãos, veias salientes sobre pele manchada pelo tempo, e pensou, não pela primeira vez, que eram as mesmas mãos que, cinquenta anos antes, haviam segurado uma espada.

Do lado de fora, na praça, o barulho aumentava. Gritos, um tropel desordenado, depois o som seco de madeira batendo contra carne. Simeão não se levantou. Sabia o que era. Algum infeliz, talvez um ladrão de galinhas, talvez um bêbado que ofendera um soldado romano, estava apanhando. A justiça dos homens, rápida e surda. Ele fechou os olhos e lembrou do versículo que meditara pela manhã, rolando o pesado pergaminho do *Cohelet* — o Pregador. “*Tudo sucede igualmente a todos: o mesmo sucede ao justo e ao ímpio, ao bom e ao mau, ao puro e ao impuro*.” A voz na sua cabeça era a do seu próprio mestre, já morto, rouca de fumo e de ensinamentos.

Um ruído na porta. Entrou seu neto, Joel, o rosto afogueado, os olhos brilhando com a fúria dos dezessete anos.
— Vovô! Estão espancando o filho do padeiro lá fora! Por nada! Ele apenas tropeçou e esbarrou num legionário!
Simeão acenou com a cabeça, devagar.
— E você interferiu?
— Quis! Mas me seguraram. É uma injustiça!
— Sim — disse o velho, a palavra saindo como um suspiro. — E amanhã, o legionário que aplicou a surra pode tropeçar no seu próprio cavalo e quebrar o pescoço. Ou pode ser promovido. Ou pode adoecer de febre. Tudo sucede igualmente a todos, Joel.

O jovem encarou o avô, frustrado. Não era a resposta que queria. Queria fogo, revolta, uma sabedoria que fosse uma espada. A que o avô oferecia parecia mais um manto pesado e poeirento.
— Então não importa ser bom? — a voz de Joel trincou.
— Importa — Simeão se ergueu, os ossos rangendo. — Importa para a tua alma. Mas não é um escudo contra a sorte, ou o azar, ou o tempo. Vem.

Saíram juntos, não para a praça da confusão, mas para os terraços mais baixos da cidade, onde as videiras dos mais pobres trepavam por apoios precários. O sol agora era um disco sangrento no horizonte. Apontou para um grupo de homens que podavam as parreiras, rindo de uma piada tola, suados e sujos.
— Olha para eles. Trabalham hoje. Amanhã, uma chuva fora de época pode estragar a colheita. Ou um decreto de Herodes pode lhes tomar a terra. E, no fim, morrerão. Como eu. Como você. Como o padeiro. Como o centurião romano. A mesma sorte alcança a todos.

Joel calou-se, olhando os trabalhadores. Um deles, mais velho, começou a cantarolar uma melodia triste e bonita. A voz subia, desafinada e comovente, na tarde que caía.
— Mas eles cantam — murmurou Joel.
— Exatamente — disse Simeão, e um sorriso finalmente lhe afagou os cantos dos lábios. — *Vai, pois, come com alegria o teu pão e bebe com coração contente o teu vinho, pois já Deus se agrada das tuas obras*. O Pregador não é um homem de desespero, neto. É um homem de realidade. A vida é sopro, é incerta, é injusta aos nossos olhos. O sábio e o tolo perecem do mesmo modo. O forte e o fraco. A beleza e a ruína. A grande igualdade é a sepultura.

Fizeram o caminho de volta em silêncio, mas um silêncio diferente. O de Joel já não era de revolta, mas de absorção. Passaram pelo mercado agora quase vazio. Num canto, um rico mercador de tecidos regateava furiosamente com um carregador por uns trocados. Pouco adiante, um mendigo cego, que todos sabiam ser um ex-fariseu de fina educação, estendia a mão em silêncio.
— A sabedoria é melhor do que a força — disse Simeão, de repente, baixinho. — Ainda que a sabedoria do pobre seja desprezada, e as suas palavras não sejam ouvidas. Aquele cego sabe mais das Escrituras do que o sumo sacerdote. Mas sua voz não importa. Ela se perde no ruído da cidade.

Chegaram em casa. A noite chegara, fria e estrelada. Simeão acendeu uma lamparina. A chama vacilou, depois firmou-se, iluminando os traços profundos do seu rosto.
— Meu mestre — contou, enquanto se acomodavam — costumava dizer uma parábola. Havia uma cidade pequena, cercada por um grande rei. Dentro dela, vivia um homem pobre, mas sábio. Com sua sabedoria, ele salvou a cidade. No entanto, ninguém se lembrou daquele homem pobre. A sabedoria, salvou a cidade, mas não salvou o sábio do esquecimento. Assim são as coisas debaixo do sol.

Joel olhou para as mãos do avô outra vez. Já não via apenas as veias. Via as marcas do ofício de carpinteiro, os cortes antigos, a força que ainda restava.
— Então, como viver, vovô?
Simeão serviu um pouco de vinho numa taça de barro simples, partiu um pedaço de pão e o estendeu ao neto.
— Vivendo. Comendo este pão, bebendo este vingo. Amando tua noiva com todo o vigor da tua juventude — e aqui um brilho malicioso lhe atravessou os olhos — porque a vida é vaidade e correr atrás do vento, mas *os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma*. Eles não amam, nem odeiam, nem têm parte em coisa alguma debaixo do sol. Portanto, aproveita a vida. Trabalha com afinco no que estiveres fazendo. Porque não há trabalho, nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria no Sheol, para onde tu vais.

E naquela noite, enquanto a cidade dormia e os cães uivavam aos montes, o velho Simeão e o jovem Joel comeram o pão simples, beberam o vinho áspero, e conversaram sobre coisas pequenas e grandes. Falaram do cheiro da terra após a chuva, da teimosia dos jumentos, da beleza complicada das mulheres, da textura da madeira de cedro ao ser trabalhada. E, naquele ato comum, havia uma santidade. Não a santidade dos sacrifícios no Templo, mas a santidade frágil e teimosa de quem, conhecendo o fim de todas as coisas — a grande, democrática e implacável morte — escolhe, ainda assim, saborear o pão. Porque debaixo do sol, o tempo e o acaso acontecem a todos. Mas também, debaixo do sol, o vinho pode ser doce, o pão pode saciar, e a voz de um neto, cheia de perguntas, pode soar como o mais precioso dos cânticos.

E quando Joel se deitou, olhando para o teto de vigas onde uma aranha teimosa tecia sua teia à luz da lua, ele não tinha mais a resposta fácil que buscara. Tinha, em vez disso, uma pergunta maior e mais quieta. E isso, talvez, fosse o princípio da própria sabedoria.

LEAVE A RESPONSE

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *