A poeira do deserto da Judá subia em espirais finas, aquecida por um sol que parecia de metal branco. Era um calor que pesava nos ombros, que secava a garganta e fazia tremular o ar acima das pedras. Em uma fenda rochosa, um lugar mais sombrio onde a sombra oferecia um alívio enganoso, um homem se encolhia. Seus olhos, profundos e marcados por vigílias sem fim, percorriam o horizonte árido. Ele se chamava Elidad, e era um homem procurado.
O silêncio ali era diferente. Não era a ausência pacífica de som, mas uma pressão. Era o silêncio da espera, do ouvido atento ao tropel distante de cavalos, ao tinir de armaduras. Ele fora conselheiro de um pequeno chefe tribal, um homem de posses e de influência passageira. Falara demais, ou talvez falado com integridade demais, e agora estava ali, com uma bolsa de couro quase vazia e uma adaga embotada como única companhia. Seu mundo havia se reduzido àquela solidão abrasadora e ao eco de traições recentes. Os homens em quem confiara haviam se mostrado como uma cerca de caniços, curvando-se ao vento do poder e do suborno. Sua força, outrora sentida na autoridade de suas palavras, evaporara como o orvalho naquelas pedras.
Por horas, ele apenas existiu. A mente, um turbilhão de medo e raiva, revivia cada conversa, cada olhar ambíguo, cada promessa quebrada. “Até quando vocês atacarão um homem?”, a pergunta queimava em seus lábios rachados, dirigida ao vento quente. Eles o atacavam como se fosse um muro inclinado, uma cerca prestes a cair. Havia um prazer perverso na queda de um homem íntegro, ele percebia. Era como se sua ruína confirmasse a fragilidade de todos, justificando suas próprias covardias.
O sol começou sua descida, tingindo o deserto de ocre e depois de um roxo profundo. A noite no deserto é fria, uma faca que penetra os ossos. Enfiado mais fundo na fenda, Elidad olhou para o céu que se abria, uma tapeçaria infinita de pontos brilhantes. E ali, na imensidão silenciosa, algo se moveu dentro dele. Não era um pensamento articulado, não era um conselho que ele pudesse dar a outro. Era uma memória. A memória do rosto de seu avô, um homem velho e quieto que criava ovelhas nas colinas. Ele lembrava-se de vê-lo, ao final de dias exaustivos, simplesmente sentado em uma pedra, olhando para o horizonte. Não pedia nada. Não se queixava. Apenas estava ali. “A minha alma descansa somente em Deus”, o avô dizia às vezes, em voz baixa, quase para si mesmo. Elidad, na impetuosidade da juventude, nunca entendera completamente aquelas palavras. Soavam como resignação, uma fraqueza.
Agora, naquela escuridão fria e absoluta, as palavras voltaram. Mas não como um eco distante. Chegaram com o peso de uma revelação. *Descansar*. A palavra pairou sobre ele. Como poderia descansar? Com inimigos à espreita, com a fome roendo, com o futuro aniquilado? O ‘descanso’ do avô não era inércia. Era um movimento da alma. Era um transferir o peso. Ele, Elidad, estava carregando sozinho o fardo de sua defesa, de seu sustento, de sua justificação. Tentando ser seu próprio muro, sua própria fortaleza. E era um muro de barro, rachando ao primeiro sol.
Uma brisa noturna, leve e gelada, passou pela fenda. Ele fechou os olhos. E fez algo que não fazia desde a infância: deixou de rezar pedindo. Deixou de elaborar estratégias em sua mente. Em vez disso, tentou, com uma vontade trêmula, *entregar*. Não sua situação, que era terrível, mas o comando dela. “Somente em Deus, a minha alma, em silêncio, espera.” O silêncio não era mais a pressão da ameaça. Tornou-se um espaço. Um espaço vazio de seus planos fracassados, de seu medo estridente. E naquele vazio, uma percepção começou a nascer, lenta como o girar das estrelas.
Ele não era um muro inclinado. Eles, seus perseguidores, é que eram como fumaça, como um sopro. Todo o poder humano, toda a riqueza acumulada, todo o prestígio – era ilusão. Colocar a esperança nessas coisas era como tentar se equilibrar em uma folha seca sobre um rio furioso. A verdadeira grandeza, a verdadeira força, não tinha a ver com a altura dos muros que se construía, mas com a solidez da Rocha na qual se apoiava. “Deus é a minha rocha forte, e a minha salvação; é a minha defesa, não serei abalado.”
A madrugada chegou com um céu cor de pérola. Elidad saiu da fenda. O corpo ainda doía, a fome ainda latejava, o perigo ainda era real. Mas algo fundamental havia mudado. O medo não o governava mais. Havia uma quietude em seu centro, um repouso que não dependia da circunstância. Ele começou a caminhar, não mais como uma presa acuada, mas como um homem que tem um destino. Não sabia para onde ia, mas sabia em Quem confiava.
Anos depois, em uma casa simples nos arredores de uma vila pacata, um homem mais velho, de olhos serenos, ensinava a seus netos. Contava histórias de reis e guerras, de traições e escapes. E então, em voz suave e firme, dizia: “Uma coisa falou Deus, duas vezes a ouvi: que o poder pertence a Deus. E a ti, Senhor, pertence a misericórdia.” Os netos ouviam, talvez sem entender toda a profundidade. Mas viam no rosto do avô, na paz que emanava dele mesmo nos dias difíceis, a prova viva daquela verdade. A salvação e a honra não vinham das montanhas de riqueza ou dos exércitos impressionantes. Vinham do silêncio que espera, do repouso que se entrega, da alma que, finalmente, aprende a descansar. Não na ausência da tormenta, mas no meio dela, porque encontrou a Rocha que nenhum vento pode mover.




