O sol da tarde tingia as pedras de Jerusalém com um dourado cansado quando Ezequiel, o oleiro, encerrou sua jornada. Seus dedos, calejados e cheios de sulcos finos como a geografia de uma vida, repousaram sobre o barro inerte da última ânfora do dia. Havia um silêncio bom na oficina, o silêncio do trabalho honesto concluído, misturado ao cheiro úmido da argila e ao pó de pedra-sabão. Ele se levantou, estalando os joelhos, e olhou com satisfação para as fileiras de vasos alinhados, prontos para a segunda queima. A prosperidade, fina e constante como o fio de água de um regato, havia voltado a correr para sua casa. As encomendas do templo estavam garantidas por meses, e o nome de Ezequiel era respeitado na Porta do Vale.
Mas à noite, quando a escuridão envolvia a cidade e o único som era o canto distante de um guarda, a memória vinha. Era uma sombra fria que se insinuava pelo quarto, mais real que o mobiliário. Ezequiel fechava os olhos e via novamente a cama, a mesma onde agora repousava, mas ocupada por um peso terrível e silencioso. A doença o atingira não como um furacão, mas como um lento e meticuloso cerco. Fora definhando, dia após dia, sentindo a força escorrer de seus membros como areia de um odre furado. A febre era um fogo baixo e persistente que consumia sua substância. Os médicos balançavam a cabeça, com palavras suaves e olhos cheios de um fatalismo resignado. Os amigos, inicialmente solícitos, tornaram-se visitas raras, até que sua casa ficou em um silêncio que parecia o próprio ante-sabor da sepultura.
Ele se lembrava do pavor, não da morte em si, mas do abandono. “Na minha prosperidade, eu dizia: Nunca serei abalado”, pensava, remoendo a arrogância antiga. Achara que sua habilidade, seu nome estabelecido, sua poupança cuidadosa eram um muro inexpugnável. A doença demonstrara que o muro era de fumaça. Pior que a dor física era a sensação de que Deus havia desviado o rosto. “Quando escondes o teu rosto, fico perturbado”, era o lamento que ecoava em seu espírito, mais amargo que qualquer erva medicinal. Ele orava, mas as palavras pareciam cair no vazio, batendo num céu de bronze. A oração se transformara num monótono gemido interior.
A virada não fora espetacular. Não houve visão angelical nem voz vinda do céu. Houve uma noite, particularmente densa, em que o desespero atingiu um fundo tão profundo que já não era sequer medo, mas uma terra nua e estéril. Sem forças para palavras elaboradas, o que saiu de seus lábios rachados foi um sopro áspero, um último apelo na sua nudez total: “Ouve, Senhor, e tem misericórdia de mim; Senhor, sê o meu auxílio.” Não foi um grito, foi um suspiro de rendição. Era a admissão de que não havia poder em Ezequiel, o oleiro, apenas barro frágil à espera do oleiro maior.
O sono que o venceu depois foi pesado como chumbo. Mas ao amanhecer, uma sensação estranha o invadiu antes mesmo de abrir os olhos. Era a ausência de algo: o peso implacável nos ossos havia se dissipado. A febre, companheira constante por meses, se fora. Uma fraqueza extrema ainda o prendia ao leito, mas era a fraqueza da exaustão, não da decadência. Era a diferença entre um campo após o inverno, pronto para brotar, e um campo salgado e morto. Aos poucos, com a lentidão de uma planta buscando o sol, a vida foi voltando. Primeiro foi um interesse tênue pelo sabor da sopa. Depois, a força para sentar-se na cama e olhar pela fresta da janela, vendo a luz como uma coisa nova e preciosa. Finalmente, o dia em que pôs os pés no chão e, tremendo como um cordeiro recém-nascido, deu os primeiros passos.
A recuperação foi um novo ofício a aprender. Seu corpo, outrora forte para amassar o barro, estava frágil. Mas cada passo era uma vitória, cada respiração profunda, um hino. E a gratidão que nasceu nele não era uma emoção vaga. Era um fato concreto, físico, que o fazia chorar ao tomar um gole de água fresca ou ao sentir a brisa da tarde no rosto. “Tu mudaste o meu pranto em dança, a minha veste de lamento em veste de alegria”, era o pensamento que o acompanhava. Não uma dança de festa ruidosa, mas a dança silenciosa e perfeita de um coração que havia sido remendado.
Agora, meses depois, de pé à porta de sua oficina vendo o sol poente, Ezequiel sabia que a prosperidade presente era de uma natureza diferente. Ela não estava mais alicerçada na segurança das suas mãos, mas na memória do abismo do qual fora tirado. Cada vaso que saía de suas mãos não era apenas um objeto útil; era um testemunho mudo. A argila, submetida ao fogo, ganhava forma permanente e beleza. Ele entendera que sua própria vida passara pelo fogo.
Naquela noite, após o jantar, ele não se recolheu imediatamente. Pegou uma lâmpada de óleo e foi ao pequeno pátio nos fundos da casa. O céu estava limpo, pontilhado de estrelas. Ele olhou para aquela abóbada imensa e silenciosa, e um profundo e tranquilo regozijo encheu seu peito. Não havia palavras grandiosas, apenas um diálogo íntimo e contínuo que agora fluía fácil, como uma conversa entre pai e filho. “Senhor, Deus meu, clamei a ti por socorro, e tu me curaste. Tiraste a minha alma da sepultura, preservaste a minha vida da queda.” O salmo que ecoava em seu coração não era uma recitação decorada; era a própria história dos seus ossos, escrita com a cinza do sofrimento e a tinta dourada da graça.
Ele entrou, e o sono que o aguardava era pacífico. Já não temia a sombra. Pois aprendera que até o choro pode durar uma noite, mas a alegria sempre vem ao amanhecer. E o amanhecer, ele sabia, era uma promessa que se renovava a cada dia, tão firme quanto a rocha sobre a qual sua cidade estava edificada. Sua vida não era mais inabalável porque era forte, mas porque estava segura nas mãos que havémoldado o barro do seu ser e o havem recolhido, paciente e firmemente, quando ele quase se desfez em pó.




