Bíblia em Contos

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Bíblia

A Queda no Monte Gilboa

O dia nascera cinzento sobre as montanhas de Gilboa, um cinza que pesava nos ombros dos homens e misturava-se à poeira baixa que seus passos levantavam. O ar cheirava a terra seca e orvalho, um contraste estranho e ameaçador. Saul, em pé numa pequena elevação, observava as fileiras filisteias se organizarem no vale abaixo como um formigueiro de bronze e ferro. Seu manto púrpura, outrora símbolo de uma unção divina, parecia agora apenas um pano pesado e inadequado para a batalha. Um frio que não vinha do vento lhe corria pela espinha.

Ele tinha consultado ao Senhor. Silêncio foi a resposta. Nem sonhos, nem Urim, nem profetas. O vazio ecoava dentro dele, mais aterrorizante que o clamor de guerra que começava a subir do vale. A memória da caverna em En-Gedi, onde a misericórdia na forma de Davi lhe poupara a vida, cravou-lhe como uma lança. A lembrança do que fez em Endor, naquela noite de trevas absolutas, veio então, não como imagem, mas como um gosto amargo na boca. A necromante, o fantasma de Samuel, a sentença final: *“Amanhã, tu e teus filhos estareis comigo.”* O amanhã era hoje. O céu de chumbo parecia confirmar.

A batalha irrompeu como um trovão que se desfaz em mil ruídos menores: o choque metálico das espadas, o estalar seco de lanças quebrando, os gritos que iam do urro de fúria ao guincho agudo da dor. Os israelitas, posicionados em terreno desfavorável, lutavam com a coragem do desespero. Mas as linhas filisteias eram uma serra de aço, avançando lenta e implacavelmente. Saul, no centro, viu seus homens caírem como cevada diante do gafanhoto. A derrota, antes uma possibilidade sombria, materializou-se em sangue e terra pisada.

Então, ele os viu. Jonathan, seu primogênito, a luz daquelas guerras todas, cercado por três gigantes de Gate. Mesmo à distância, Saul reconhecia o estilo de luta do filho, ágil e preciso. Mas a força bruta era demais. Uma lança encontrou o vão da armadura de Jonathan. Ele vacilou. Outro golpe. O rei gritou algo, mas seu próprio grito se perdeu no alvoroço. Viu Jonathan cair de joelhos, e depois, desaparecer sob uma onda de inimigos. Algo dentro de Saul rachou, tão definitivamente quanto os escudos de seu exército.

A debandada foi um rio de pânico. Homens jogando armas, virando costas, tropeçando nos corpos de companheiros. O cerco se apertou em torno do rei. Seus guarda-costas, fiéis até o fim, caíam um a um. Uma flecha vibrou no ar, fincando-se com um baque surdo na carne do ombro de Saul. A dor foi aguda, clara. Não era a dor da morte, mas seu prenúncio. Ele olhou em volta. O carro de guerra real, um símbolo de poder, estava imóvel, os cavalos nervosos relinchando. Os arqueiros filisteus aproximavam-se, seus arcos negros riscando o céu.

O medo, puro e animal, tomou conta dele. Mas não era o medo da dor, ou mesmo da morte. Era o medo daquele homem, Daver, o filisteu que o chamara para o combate anos antes. Era o medo do escárnio, da profanação. “Virão estes incircuncisos e me escarnecerão”, pensou, e a ideia lhe foi mais intolerável que a extinção. Seu olhar caiu sobre o jovem que carregava sua armadura, pálido, segurando a espada do rei com mãos trêmulas.

“Aproxima tua espada”, ordenou Saul, sua voz rouca mas surpreendentemente calma. “Passa-me por ela, antes que venham estes incircuncisos e façam escárnio de mim.”

O jovem estremeceu, seus olhos arregalados de horror. Matar o ungido do Senhor? Ele recuou, deixando a espada cair na poeira. “Não posso… não ouso”, balbuciou.

Saul olhou para a lâmina no chão, depois para as sombras que se fechavam. Um cansaço infinito, de anos de desobediência sutil, de rancor guardado, de uma realeza que se esvaira como água entre os dedos, acometeu-o. Não havia tempo. Pegou a espada pela lâmina, sentindo o fio cortar sua palma. Virou a ponta contra o próprio abdome. Um último suspiro, não de oração, mas de alívão de um fardo terrível. Inclinou-se sobre a arma.

O escudeiro, vendo o rei morto, vendo o inevitável fim também para si, seguiu o exemplo. Caiu sobre sua própria espada. O silêncio, por um instante breve e grotesco, reinou naquele pequeno círculo do monte, enquanto ao redor o massacre continuava.

A notícia correu mais rápido que os fugitivos. Israel fugiu. As cidades foram abandonadas. Os filisteus, vitoriosos, vasculharam o campo de batalha ao cair da tarde. Encontraram os corpos de Saul e seus filhos caídos no alto de Gilboa. O triunfo precisava de um troféu. Decapitaram o rei. Enviaram a cabeça, um objeto mudo e pálido, e sua armadura, pelas terras dos filisteus, para exibirem nos templos de seus ídolos. A armadura, manchada de sangue e terra, foi posta no templo de Dagom, um insulto final.

Mas na sombra da derrota, surgiu uma luz tênue de honra. Os homens de Jabes-Gileade, cuja cidade Saul outrora livrara com bravura na alvorada de seu reinado, lembraram-se. A gratidão é uma memória teimosa. Em uma marcha noturna de resgate fúnebre, arriscaram suas vidas. Entraram no território inimigo, recolheram os corpos mutilados de Saul e de seus filhos pendurados nos muros de Bete-Seã. Trouxeram-nos de volta, queimaram os corpos para evitar maior profanação, e enterraram seus ossos sob a tamargueira de Jabes, em jejum que durou sete dias.

O cronista, muito depois, ao registrar esses fatos secos, deu a causa que o sangue e a poeira não mostravam. Saul morreu por sua infidelidade. Por não guardar a palavra do Senhor. Por buscar uma médium, em vez de buscar ao Deus que um dia lhe respondera. O peso da coroa era pesado, mas o peso da desobediência foi o que, em verdade, o esmagou ali no monte Gilboa, sob aquele céu eternamente cinza, entregando seu reino a outro, a Davi, filho de Jessé. A história, naqueles ossos enterrados em Jabes, guardava a lição silenciosa: a bravura não salva quem abandona a fonte da própria força.

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